(O povo diz “nunca digas desta água não beberei” e tem toda a razão. Deveria ter pensado nesse exemplo de sabedoria popular e não me comprometer a ficar à margem da novela Ronaldo. Mas não resisto, não propriamente a fazer parte do coro de comentário sobre a mesma, mas antes à maneira como nos últimos dias assisti à sabuja e grotesca campanha de alguns media e jornalistas e parte das redes sociais a glorificar a imagem de Ronaldo, a valorizar a sua quebra inclassificável de relação com o coletivo da seleção, a fazê-lo ascender ao estatuto de símbolo nacional inatacável e associando esse estatuto de Embaixador à necessidade de o deixar continuar a jogar a seleção e a mandar naquilo tudo. É uma campanha sabuja e grotesca claramente determinada pelo dinheiro que a marca Ronaldo hoje representa, que tudo compra, mesmo que seja um lugar na seleção quando há alguns anos ele se arrasta mediaticamente em frente à baliza e bloqueia a ascensão natural dos que podem fazer naturalmente melhor. Dei comigo a pensar em todos os treinadores deste país, de diferentes modalidades e dos agentes desportivos que asseguram muitas vezes com carolice e esforço pessoal, que se esforçam por ensinar aos seus jovens atletas o valor do coletivo nas equipas e a necessidade de colocar o talento individual ao serviço desses valores. O que é que eles poderão a partir de agora dizer aos seus jovens atletas, quando os influencers deste país se entregam subjugados ao valor da marca Ronaldo, ao seu poderio financeiro e quando o tal símbolo nacional se borrifa para o coletivo, se embriaga com o seu poderoso ego e mostra a esse mundo a negação do valor do coletivo. Tive a estranha sensação de estar perante um País que se deixa comprar para aceitar a degradação dos seus valores coletivos. Porque se Ronaldo pretendia afirmar os valores da tenacidade e da capacidade ímpar de trabalho, chapéu a esses valores, o que deveria ter feito era continuar a treinar com denodo e abnegação e assim demonstrar que não é apenas um símbolo comercial, mas um símbolo de valores que deveriam estar mais disseminados na sociedade portuguesa. Não o que ele fez é a negação disso tudo, é a demonstração de que o ego deve sobrepor-se à força do coletivo e não o contrário”.
E o que ressalta disto tudo é que, se pensarmos retroativamente, percebemos que Fernando Santos, Martinez e o próprio Fernando Gomes estavam enredados na mesma armadilha, subjugados ao mesmo poder comercial. E foi preciso que surgisse alguém, de pelo na benta, indomável, famoso pelas suas contradições, o futebol feito intuição e sem grande capacidade para racionalizar e formalizar o que sabe, para dar um murro na mesa e colocar a Federação de Proença alarmada com uma massa de likes a menos, potencialmente traduzidos em quebra de cifrões.
Não discuto se Cristiano é ou não um Embaixador do país. Que o seja, ofereçam-lhe esse perfil e uma função para o disseminar pelo mundo, sujeito ao conflito de interesses de não poder aparecer a protagonizar os interesses da Arábia Saudita em receções na Casa Branca ou em qualquer outro sítio, considerado vespeiro nas condições trágicas dos nossos dias. Mas um Embaixador e um símbolo não tem necessariamente de continuar a jogar, inventem jogos particulares com o Azeitonense ou qualquer das ligas inferiores para o homem chegar aos mil golos desejados, mas não submetam o coletivo ao ego individual e sobretudo garantam que outros mais jovens possam também florescer e ascender a símbolos nacionais. E sobretudo não permitam que a formação desportiva de tantos jovens neste país seja prejudicada e adulterada pela vaidade incomensurável de alguém que confundiu algo de essencial, os seus interesses e os da seleção em que estava integrado.

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