segunda-feira, 12 de outubro de 2026

CLARIFICAÇÕES

 


(Devo confessar que já não tenho pachorra para acompanhar os devaneios de gente que finge não estar na política, mas está, e que se perfilam continuamente como putativos atores da cena em que aparentemente não querem entrar, mas que vagueiam pelos bastidores, candidatos a voyeurs mais ou menos inconsequentes. Por outras palavras, tendo a afastar-me de personalidades como Passos Coelho à direita e de Mário Centeno no centro-esquerda. Não se trata de diabos ou outras possíveis ameaças para conseguir que os meninos e meninas comam a sopa para descanso dos papás, mas isto de ameaçar que se entra no jogo e se vai adiando a decisão é coisa que me irrita e custa-me perder tempo e cansar meninges já gastas com tais reflexões. Desconecto. Ponto. Mas tenho de reconhecer que algumas das fugidias aparições dos “quero entrar, mas não entro” acabam por conduzir a clarificações que para mim não são estranhas ou surpreendentes, mas que o são para muito boa gente. Parece-me ser este o caso da entrevista de Passos Coelho à canastrona Maria João Avillez. As clarificações são de vária ordem. Uma de menor vulto é a perceção de que Passos Coelho afinal não está em retiro monástico e que pode regressar à vida política ativa se determinadas condições forem observadas, Não há nenhuma novidade nem suspense nesta questão. Isso estava claro há muito tempo, só a mais pura ingenuidade política conduziria a conclusão contrária. Mas a principal clarificação não é essa. Passos Coelho assume-se de vez como o único político na direita e centro-direita que aceita a velha tese que subliminarmente a direita Observador tem sistematicamente, desde a Troika, avançado. Suportada por uma conceção de reformas estruturais enviesada e interessada apenas em algumas dimensões de reforma económica e social, esta tese considera que a situação política atual convida, inevitavelmente, a um grande encontro de posições entre a AD, o Chega e a Iniciativa Liberal para alcançar uma maioria parlamentar folgada para a transformar desejada. Ora, isto é uma clarificação. Já tinha intuído essa posição e acresce que a sua não concretização se deve a constituir uma peça para a qual não existia intérprete. Passos Coelho é o ator-encenador desejado.)

Claro que para consumar a clarificação, Passos Coelho teria também de ser claro numa outra dimensão. Por razões que também eram antecipadamente percebidas há já muito tempo, Passos considera que Ventura não é mau homem, que lhe reconhece inventiva e combatividade, o que vem ao encontro do que sempre percebi – bastaria Passos dar uma ordem de comando qualquer e Ventura, tal como cachorrinho obediente, largaria as suas vestes de desbocado, volátil, malcriado, mentiroso, com o rabo entre as pernas e decidido a obedecer aos ditames do Grande Líder.

O mistério da empatia entre estas duas personalidades é de facto um dos grandes mistérios da política portuguesa, mas o que importa assinalar é que, pela primeira vez, a direita Observador tem um político que expressa a possibilidade de levar a tese à prática. Praticamente, todos os jovens turcos que acompanhavam Passos na altura da Troika (Maçães, Lomba e Monteiro, para falar nos mais importantes) estão aparentemente fora do convívio de proximidade com Passos, talvez convencidos de que foram ingénuos ao admitir a mudança possível e que seria melhor virarem-se para outras tarefas. Mas será que Passos está sozinho?

Creio que Passos pensa neste momento por sua própria e livre iniciativa e admite dois cenários possíveis: i) o cenário em que Montenegro vai cedendo progressivamente e acabará por transformar os acordos pontuais com o Chega em algo de mais estruturado, mesmo sem a bengala da IL, um pouco à deriva por estes tempos, o que equivalerá à não intervenção de Passos; ii) o cenário em que os acordos pontuais da AD com o Chega não passam disso e se avolumas as hipóteses de bloco central, cenário que corresponde ao impulso para um possível regresso à política.

Será que o centro-esquerda considera estes cenários académicos e continua a trabalhar sem programa impulsionador para acelerar a produção de uma alternativa?

Se assim for, pode dar-se mal com essa imprudência.

 

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