(Vários analistas, por cá Pedro Adão e Silva no Público este fim de semana, têm interpretado as grandes manifestações em França e as mais moderadas em dimensão em Portugal como um sinal evidente do interesse renovado dos jovens pela política. Esta alusão é curiosa, sobretudo quando, com a exceção conhecida das juventudes partidárias, é conhecido o afastamento dos jovens não diretamente envolvidos na carreira política da chamada política partidária. Esta distinção entre política partidária e não partidária é falaciosa. A participação dos partidos políticos em democracia é algo de inerente ao sistema parlamentar e, por muito que sejamos críticos da sua atuação nos parlamentos e que defendamos a existência de formas complementares de a dinamizar, a descentralização por exemplo, a verdade é que desvalorizar o sistema partidário não nos leva a um caminho promissor. Antes pelo contrário. Por isso, sou dos que acredito que a renovação do interesse da juventude pela política pode também construir-se a partir do seu contributo crítico da vida partidária tal qual é praticada em cada país. Penso que será algo do género que estará a passar-se nos países em que, por exemplo, a crise de habitação leva uma parte da juventude à rua para se manifestar. O tema da habitação é justamente um dos que evidenciam com clareza a incapacidade dos partidos com assento regular na governação para conceber e implementar medidas que mitiguem o problema e criem melhores condições de solvência na procura de habitação para os que pretendem iniciar a sua vida de cidadãos.)
Podem dizer-me que, na sua grande maioria, a juventude que tem alimentado as manifestações e as “acampadas” nas praças de algumas cidades portuguesas é já uma população jovem radicalizada, provavelmente com experiência de participação em iniciativas partidárias, designadamente à esquerda do PS. Nesse contexto, não se trataria de regresso ao interesse pela política, mas antes de resistência à indiferença e à banalização da vida não participativa do ponto de vista cívico.
Este argumento é parcialmente verdadeiro, mas a cobertura que a comunicação social, designadamente a televisiva, tem realizado das iniciativas tem mostrado que existem participantes além desse corpo já mais radicalizado e que resiste. A organização dos diferentes movimentos é débil, pressente-se isso numa certa incapacidade de consequência no discurso e nas ações, com destaque para a estupidez declarada de consentir alguém a propor o arremesso de tijolos à casa do primeiro-Ministro. A consistência orgânica destes movimentos é escassa, principalmente porque eles vivem das redes sociais para ampliar a sua mensagem de participação e daí também a perturbação com que as organizações partidárias assistem ao seu florescimento, pois escapam à sua influência e ao seu tradicional modelo de controlo.
Em meu entender, a raiz desta expressão juvenil é o reconhecimento de que existem injustiças sociais sem resposta aparente por parte da política organizada. A insolvência na procura de habitação é um caso paradigmático dessa evidência de injustiça, já que é gente que tem um emprego, que melhorou as suas qualificações e que mesmo nessas condições não consegue uma habitação digna e á medida das suas necessidades de início de vida com ou sem filhos, sozinho ou acompanhado. Outras injustiças poderiam ser acrescentadas ao cardápio para reconhecimento e ação sobre as mesmas, principalmente num quadro em que se trata de jovens a chegar ao mercado de trabalho com melhoria de qualificações (não vamos discutir aqui a qualidade das mesmas), logo com expectativas de um futuro melhor do que o dos que os precederam nessa chega ao mercado de trabalho com menos qualificações.
Em França, a injustiça vivida é a da degradação dos estabelecimentos de ensino nas periferias e sabemos como ela atiçou um movimento de revolta que hoje já transcendeu e muito a questão dos edifícios escolares.
Há dias, numa reunião do Conselho Consultivo do Círculo de Estudos do Centralismo (ACEC) quando se discutia a necessidade de rejuvenescimento do grupo de pessoas críticas do velho centralismo português, alguém próximo referiu que, no seu entendimento, estava a formar-se uma adesão significativa à denúncia do centralismo em Portugal por parte de população jovem com qualificações e que não enveredou nem pela diáspora, nem por experiências de trabalho na capital. Não tenho elementos de sondagem ou de inquirição que me permitam aferir da consistência dessa evidência. Tenho, sim, algumas evidências impressivas do que foi afirmado e não tenho dúvidas de que a consistência de um pensamento anticentralismo em Portugal exige a renovação desses grupos. O modelo de referência é o mesmo, afinal o da sensibilidade e propensão para a denúncia das injustiças que nos parecem incompreensíveis face aos meios de conhecimento e de recursos que o país já acumulou, obviamente com a ajuda preciosa dos Fundos Europeus.
Concluo, assim, que enquanto forem reconhecidas formas gritantes de injustiça a política não estará fora dos interesses da juventude. Se a renovação desse interesse não se concretiza pela identificação com a ação dos principais partidos políticos (com a já referida exceção dos poucos que seguem desde muito cedo a carreira partidária), esse não é um problema que dirijamos a essa juventude. Esse é um problema que cabe às forças políticas tradicionais resolver, acaso pretendam ter alguma presa e influência sobre as dinâmicas sociais de denúncia de injustiças gritantes.


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