(Era impossível ficar indiferente à figura imponente de Xosé Manuel Beiras, símbolo ímpar da intelectualidade política do nacionalismo galego, que com uma obra marcante O Atraso económico de Galicia, Galaxia 1973, acabou por definir as bases do pensamento nacionalista galego. A utilização dessas bases evoluiu depois na sequência de várias encruzilhadas, primeiro na afirmação do Partido Socialista Galego e depois, bastante mais tarde, com a pulverização à esquerda desse partido, que foi perdendo força até ao presente, em que o ressurgimento continua a adiado. Tive uma única oportunidade de ver Xosé Manuel Beiras em público e foi numa conferência na Universidade de Santiago de Compostela. Mas pelo facto de alguns amigos meus galegos terem a sua formação económica de base marcada pela influência do ensino de Beiras em Santiago de Compostela é como se o conhecesse há já muito tempo. O seu desaparecimento aos 90 anos é verdadeiramente o símbolo de uma geração ímpar, mesmo que nos últimos anos da sua vida, depois da morte da sua companheira, a pintora Aurichu Pereira, se tivesse praticamente desconectado do tempo presente, desconexão que havia começado já com a pulverização da esquerda na Galiza e a confirmação da impossibilidade de uma alternativa à maioria tranquila do PP na região. Do ponto de vista do pensamento económico, que é a que me interessa mais na obra e presença de Beiras, a sua matriz é-me próxima e bastante cara. Xosé Manuel Beiras era um expoente do que na ciência económica espanhola se associa a disciplinas de Estrutura Económica ou se, preferirem, economia estrutural, na linha de economistas como François Perroux ou Hirschman, por exemplo. No caso de Xosé Manuel Beiras, essa matriz combinava-se admiravelmente com a invocação da teoria da dependência e do comércio internacional desigual (a troca desigual, tão popularizada por Giovanni Arrighi. Foi aliás com base nessa fascinante combinação metodológica que Beiras escreve a impactante e já referida obra O Atraso económico de Galicia.)
O ativismo político de Beiras e a sua figura e retórica imponentes, dignas de um verdadeiro tribuno, talvez tenham ofuscado a profundidade do seu ensinamento estrutural. Nestes casos, para quem como Beiras, se aventurou no ativismo político, sobretudo orientado para a formação de uma ampla associação de esquerda capaz de bloquear a tranquila sucessão do PP na liderança regional da Xunta e de algumas das principais cidades galegas, é difícil manter à tona a matriz do seu pensamento económico. Várias personalidades galegas recordam a influência profunda das suas aulas na Universidade de Santiago de Compostela e talvez seja essa a origem essencial da sua matriz de influência, talvez mais importante do que a sua participação na formação do Partido Socialista Galego e depois também na emergência do Bloco Nacionalista Galego, formações nas quais hoje não existem figuras nem cabeças pensantes à altura de Beiras. E essa é a evidência mais triste.
Para terminar, deixo referência a dois artigos, ambos de excelente qualidade, versando sobre duas visões de Xosé Manuel Beiras, além da do pensamento económico. No plano político, o artigo do jornalista espanhol Javier H. Rodriguez, coordenador da edição na Galiza do El Salto e que foi em boa hora reproduzido pela Esquerda.Net, merece referência sobretudo pela sua documentada evidência. O outro artigo remete para a dimensão intimista de Beiras nos seus últimos dias e é um monumento de sensibilidade. Escreve-o o jornalista Fernando Salgado na VOZ DE GALICIA.


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