(Uma acumulação de fatores de agravamento económico e social traz a França para o centro das atenções. São tantos os fatores que se impõe algum esforço de síntese. Em primeiro lugar, do ponto de vista do que os mercados acham de tudo o que está a acontecer em França, os alertas são salientes. Os Credit Default Swap (CDS) a 5 anos, que não são mais do que contratos financeiros de derivados do tipo seguro que funciona de forma semelhante a um seguro contra o incumprimento de uma dívida tiveram um pico excecional nos últimos tempos, sugerindo que os mercados podem estar a projetar um “default” francês. Aonde chegámos! No plano político, pressente-se o risco da polarização projetar uma segunda volta de presidenciais entre a extrema-direita de Marine Le Pen e o sempre impopular, ainda que populista, Mélenchon, colocando uma grande parte dos franceses à beira de um ataque de nervos, tendo de escolher entre o diabo e o seu rival, não menos diabo. Finalmente, no plano social, os estudantes do secundário resolveram manifestar-se contra a degradação manifesta da Escola Pública, projetando na rua uma ocupação e uma violência que está a estender a outras faixas sociais, em movimentações que se tornam incontroláveis pela continuada infiltração de gente que adora a violência pela violência. O caso dos estudantes é simbólico e emblemático do que pode estar a passar-se num dos estados sociais mais avançados da Europa, mesmo tendo em conta a evolução manifesta da desigualdade em França e o desastre urbanístico e urbano a que a não integração plena da população migrante tem conduzido muitas pequenas cidades francesas. Pelos relatos que nos chegam, o que está a acontecer é que estão a vir ao de cima insuficiências de investimento público em muitos dos equipamentos desse pujante estado social, escolas como um exemplo, que associadas a uma ausência de cultura de preservação e manutenção da sua qualidade por parte dos próprios utentes, leva o parque escolar a um abismo que pode ter consequências dramáticas em termos de convivência juvenil.)
(CDS a 5 anos, França)
Obviamente que toda esta polarização com múltiplas manifestações e tonalidades determina que este tipo de perturbações como a dos estudantes não tenha as mesmas condições de intervenção que seriam possíveis numa outra situação política mais equilibrada em que o centro-esquerda e a direita centrista e moderada tivessem uma palavra a dizer e pudessem gerar condições de negociação mais eficazes. Na situação atual, Le Pen esfrega as mãos com mais um exemplo de desrespeito pelo estado de direito, pelas instituições e pela demonstração do estado de anarquia geral que justificam o seu discurso mais autoritário. Por seu lado, Mélenchon está como peixe na água e encontra combustível em tudo que é movimentação social para aspirar a movimentos de maior amplitude.
Da situação em que se encontra o movimento em torno da Escola Pública francesa, ela mostra com clareza a importância de se dar mais atenção à necessidade de investimento público na área, evitando a degradação infraestrutural que tende a precipitar outras formas de degradação, inclusivamente a perda de estima dos utentes dessas Escolas pelas suas condições de funcionamento. O tema é venenoso porque nas condições agudizadas de polarização económica e de agravamento da desigualdade, o topo da distribuição disporá sempre de condições para se marimbar para essa degradação e autojustificar-se na sua decisão de defesa da liberdade de escolha pela escola privada. A perversidade instala-se e tudo isto se passa num dos países europeus com estado social mais abrangente e avançado, rígido é certo, mas rico em coberturas de riscos sociais. Esta é a dimensão para mim mais preocupante, porque evidencia ou a presença de irracionalidades na distribuição dos recursos públicos ou a ideia de que a gravidade do problema inclusivamente em modelos sociais com maior proteção pública e isso é totalmente novo.


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