terça-feira, 1 de setembro de 2026

O DESCONCHAVO DA ESQUERDA FRANCESA

 


(As eleições presidenciais em França já não estão longe e, se projetássemos simplesmente a situação atual para o futuro próximo, os franceses teriam pela frente a mais clara expressão possível da polarização política extrema em que estão mergulhados. Uma segunda volta entre Marine Le Pen do Rassemblement National (extrema-direita) e Jean Luc Mélenchon da França Insubmissa (esquerda mais radical) seria o resultado dessa projeção e não se antecipam por agora sinais reveladores e impactantes de que algo poderá mudar. Este sempre foi o cenário desejado pelas duas forças extremas do espectro político em França. Le Pen interessada em apresentar-se como a barreira à esquerda radical e Mélenchon esfusiante por se apresentar como o único obstáculo à chegada da extrema-direita ao Eliseu. Não queria estar na pele dos franceses mais equilibrados, pois nenhuma das personalidades se apresenta com empatia, estimando eu que nesse cenário o Eliseu será tomado pela extrema-direita. Nada permite afirmar que Le Pen seja capaz de conseguir uma evolução à Meloni em Itália e de Mélenchon esperar flexibilidade e moderação equivale a esperar sentado. Apetece perguntar que raio de bicho da madeira deu no centro francês moderado, dos tempos passados de Chirac ou Srakozy, no centrismo modernizante de Macron e no velho Partido Socialista de Jospin, Hollande ou Fabius?

Pois, a polarização extrema é isso mesmo. Os extremos sempre existiram na sociedade francesa. Seja como extensão do chauvinismo mais aberto no caso da extrema-direita, brandindo a bandeira do nacionalismo contra a anulação da França mais profunda pela ameaça imigratória, seja alimentando as raízes históricas do radicalismo em França, avivada com o maio de 68 e seus desenvolvimentos, no caso da extrema-esquerda. A par da extrema-esquerda italiana, a francesa sempre se destacou pela sua vasta produção teórica. O que é novo nesta questão é o completo apagamento dos partidos da moderação democrática, sejam eles mais inspirados pelas questões da desigualdade ou pelas virtualidades do mercado. E, ao contrário dos Verdes nas Alemanha, os Ecologistas em França nunca lograram constituir-se em força política estável e de abrangência crescente no eleitorado francês.

O Partido Socialista francês está neste momento em plenas eleições primárias, com o deputado europeu Raphael Glucksmann a procurar evidenciar-se nessa contenda, antecipando-se ao líder do partido Olivier Faure, pelo qual os socialistas franceses não nutrem grande afeição. Mas, embora vos possa parecer algo ridículo, François Hollande, a grande deceção do PS francês nos últimos tempos, admite ainda a possibilidade de se candidatar.

Quer isto dizer que a pulverização da esquerda francesa é viral e Le Pen agradece deliciada a passadeira vermelha que lhe estão a oferecer para se abeirar do Eliseu.

Em tempos em que a severidade já visível da emergência climática, as sérias perturbações da inteligência artificial e do que ela significa em termos de concentração tecnológica e do poder de comando e controlo sobre as sociedades democráticas e as profundas desigualdades que as sociedades ocidentais vão mostrando, matérias suficientes e estimulantes para estimular a inventiva política, a esquerda pulveriza-se em torno do que costumo designar de minudências do umbigo. E, neste caso, não é por excessiva sobrevalorização dos campos teóricos em detrimento da prática política que isso acontece. O que a determina é a mais profunda imbecilidade política.

Não quero ser ave de agoiro, mas preparemo-nos para uma internacional reacionária europeia, pois os campos de forças para ela apontam em França , na Itália, em Espanha, na Alemanha e na Áustria, realçando apenas os casos mais evidentes.

 

IA: BOOST & DOUBTS

Macroeconomicamente falando, a recente irrupção da Inteligência Artificial (IA ou AI se nos referenciarmos à sigla decorrente da língua inglesa), nas suas diversas configurações e funcionalidades, tem-se mostrado altamente benéfica e promissora (vejam-se ilustrativamente os gráficos acima). E sobre o potencial desta ferramenta nem vale a pena elaborar muito, tão exponencial é o mesmo de inúmeros pontos de vista determinantes para as sociedades modernas (organização individual e coletiva do trabalho, investigação e conhecimento, aplicações tecnológicas, etc.). A questão que hoje aqui se traz é a que resulta da perceção dos elementos de natureza desviante associados à utilização da IA que vai crescendo nos cidadãos que se aventuram na sua exploração e dela pretendem retirar qualquer tipo de vantagem real ou imaginária para melhoria do seu quotidiano.

 

Os cartunes abaixo explicitam simbolicamente alguns desses casos de reconhecimento mais generalizado, dos obcecados com a permanente necessidade de um alinhamento com tudo o que mexe em termos de gadgets e notoriedade pela novidade (independentemente de serem conduzidos pela ignorância e por modos mais ou menos imitatórios) aos aproveitadores das potencialidades da IA para fins oportunistas e de conveniência própria (na escola, onde os impasses e as dores de cabeça de docentes e avaliadores já são tremendos, ou nas relações pessoais). E depois há ainda aquela irritante postura aparentemente subserviente da máquina, sempre pronta a obedecer (como lhe cabe, por supuesto) e, sobretudo, a encontrar argumentos do arco da velha para afagar o ego do cliente e estimular o seu desejo de envolvimento.

 

Tempos novos em curso, pois, embora ainda pouco palpáveis quanto aos caminhos e lugares para onde nos levam. Os maiores pensadores da atualidade dividem-se a seu propósito entre os que não hesitam no aplauso e os que, como Harari ou Acemoglu, sublinham perigos enormes e regulações absolutamente rigorosas.


(Riki Blanco, https://elpais.com)


(Riki Blanco, https://elpais.com)



(Bernardo Erlich, https://bernardoerlich.com)