quinta-feira, 10 de setembro de 2026

QUASE NÃO FALANDO DE NEVES...

Resulta algo perturbador quando nos confrontamos com a pequenez relativa da gravidade dos temas que ocupam a agenda mediática e política deste “jardim à beira-mar plantado”. Foi o que me aconteceu perante a escolha que fizera de aqui abordar a audição de Luís Neves na A.R. e a moção de censura do Chega ao Governo e a resposta dada pelo primeiro-ministro às mesmas – porque, na realidade, as notícias da manhã logo me deram um perfeito sentido das proporções ao darem a conhecer a inconcebível promessa de Trump aos americanos (além do mais à custa do erário público) e o inaceitável afastamento de Ricardo Reis da corrida ao cargo de economista-chefe do FMI devido às considerações que fez sobre as consequências nefastas das tarifas de Trump para os consumidores americanos. Ainda assim, arrisco o post que previra escrever.

 

O dia em análise é o de anteontem. Da parte da manhã, foi um ministro autocontrolado que respondeu no Parlamento, corrigindo algumas anteriores manifestações de arrogância (como no que disse sobre quando iria embora), deixando vários factos por explicar (como os que Rui Rocha salientou numa intervenção bem preparada), mantendo-se igual a um si próprio completamente cheio de si (como quando afirmou que mantinha confiança em si para continuar) e evidenciando algum nervosismo (como os tiques com os óculos que a finura analítico-psicológica de Rui Rio pôde detetar sem qualquer rebuço).


Da parte da tarde, estava prevista a festa de Ventura, mas a coisa não lhe saiu como esperava. De facto, André lá justificou à sua maneira o injustificável – uma moção de censura determinada por um pedido de demissão de um ministro –, berrando a sete ventos aquele “vá-se embora” destinado a Luís Neves, no que foi seguido por um séquito de correligionários bastante pouco merecedores de serem ouvidos. Chegada a vez de o primeiro-ministro se defender, o mesmo preferiu contra-atacar com anúncios (suplemento extraordinário para os pensionistas e redução do IRS para a classe média) e limitar-se a um singelo elogio da qualidade do ministro acossado. Depois, falaram os partidos, com Carneiro a sublinhar a sua moderação no mix de “abstenção violenta” (versus voto contra) e responsabilidade (porque, disse, os portugueses não querem uma crise política nem eleições antecipadas) e Hugo Soares a não ter o pudor de poupar o PS a críticas extemporâneas na ocasião. Por fim, Rangel encerrou gongoricamente o debate – o que Montenegro visivelmente apreciou – e Aguiar-Branco levou a moção a votos que confirmaram o isolamento absoluto do Chega, com os 60 “cheganos” a levantarem-se aos gritos de “Demissão” – uma cena triste!



O ponto que pretendo deixar sublinhado, ainda que desvalorizável à luz do entorno internacional como avanço no primeiro parágrafo, vai no sentido de ensaiar um alerta que me parece cada vez mais determinante: o de que já basta que quem está no exercício de funções e é detentor de poder não deveria utilizar essa prerrogativa para confundir resposta e retórica política com a seriedade das políticas de que o País necessita. Com efeito, e tanto quanto se sabe, o Governo decidiu-se por anúncios para desviar atenções, mesmo sendo claramente duvidosas, no mínimo, as condições de conforto orçamental para tal decisão e sendo por demais conhecidos os riscos que sobre nós podem impender pela via de um ambiente internacional instável e incerto. Teve razão – histerias à parte – Miguel Morgado quando afirmou na SIC-N que “o meu partido anda-me a envergonhar sobre a história do Luís Neves há muito tempo porque a dose de mentiras e de infantilização dos portugueses é intolerável”, concluindo em girândola: “Mas o pior estava mesmo reservado para o fim. (...) Entretanto apareceram umas sondagens que dizem que a tal ‘bolha’ são uns quantos portugueses que não gostam do que se está a passar. E então assustaram-se [o primeiro-ministro e o PSD] e fizeram uma coisa que eu só me lembro de ver José Sócrates e António Costa fazer: vamos desconversar e tentar segurar as pessoas para mudar o assunto – isto é uma vergonha, uma vergonha! O que se fez numa moção de censura com a promessa da descida do IRS e do suplemento para os pensionistas de baixos rendimentos foi uma vergonha, é de alguém que de facto quer esconder o ministro.” Além de assim termos o “passismo” numa reação desesperada ao “montenegrismo” instalado (e consolidado?), a verdade verdadinha é que o jogo da manipulação politiqueira tem de ser denunciado e castigado duramente – pelo menos, assim devera eu ser, como se conta na história...

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