Resulta algo perturbador quando nos confrontamos com a pequenez relativa da gravidade dos temas que ocupam a agenda mediática e política deste “jardim à beira-mar plantado”. Foi o que me aconteceu perante a escolha que fizera de aqui abordar a audição de Luís Neves na A.R. e a moção de censura do Chega ao Governo e a resposta dada pelo primeiro-ministro às mesmas – porque, na realidade, as notícias da manhã logo me deram um perfeito sentido das proporções ao darem a conhecer a inconcebível promessa de Trump aos americanos (além do mais à custa do erário público) e o inaceitável afastamento de Ricardo Reis da corrida ao cargo de economista-chefe do FMI devido às considerações que fez sobre as consequências nefastas das tarifas de Trump para os consumidores americanos. Ainda assim, arrisco o post que previra escrever.
O dia em análise é o de anteontem. Da parte da manhã, foi um ministro autocontrolado que respondeu no Parlamento, corrigindo algumas anteriores manifestações de arrogância (como no que disse sobre quando iria embora), deixando vários factos por explicar (como os que Rui Rocha salientou numa intervenção bem preparada), mantendo-se igual a um si próprio completamente cheio de si (como quando afirmou que mantinha confiança em si para continuar) e evidenciando algum nervosismo (como os tiques com os óculos que a finura analítico-psicológica de Rui Rio pôde detetar sem qualquer rebuço).
Da parte da tarde, estava prevista a festa de Ventura, mas a coisa não lhe saiu como esperava. De facto, André lá justificou à sua maneira o injustificável – uma moção de censura determinada por um pedido de demissão de um ministro –, berrando a sete ventos aquele “vá-se embora” destinado a Luís Neves, no que foi seguido por um séquito de correligionários bastante pouco merecedores de serem ouvidos. Chegada a vez de o primeiro-ministro se defender, o mesmo preferiu contra-atacar com anúncios (suplemento extraordinário para os pensionistas e redução do IRS para a classe média) e limitar-se a um singelo elogio da qualidade do ministro acossado. Depois, falaram os partidos, com Carneiro a sublinhar a sua moderação no mix de “abstenção violenta” (versus voto contra) e responsabilidade (porque, disse, os portugueses não querem uma crise política nem eleições antecipadas) e Hugo Soares a não ter o pudor de poupar o PS a críticas extemporâneas na ocasião. Por fim, Rangel encerrou gongoricamente o debate – o que Montenegro visivelmente apreciou – e Aguiar-Branco levou a moção a votos que confirmaram o isolamento absoluto do Chega, com os 60 “cheganos” a levantarem-se aos gritos de “Demissão” – uma cena triste!
Sem comentários:
Enviar um comentário