segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SISMO NA ALEMANHA

(Pascal Gros, https://x.com/GrosPascal)

O que está há anos a ocorrer na Europa (e também noutras partes do mundo que agora não vêm ao caso) é algo de efeito equivalente ao daquela máxima que começa por dizer “de derrota em derrota...” e de que sempre tendemos a não ir até ao seu termo para dar espaço a que alguma réstia de esperança salvadora possa emergir, o que se tem saldado por sucessivos contentamentos com situações de “mal menor” que vão adiando a chegada de um mal verdadeiramente péssimo e definitivo. As eleições de ontem no estado alemão da Saxónia-Anhalt (ou Alta Saxónia) poderão ter resultado num desfecho desse tipo ao darem lugar a uma vitória esmagadora (a escassos três lugares da maioria absoluta) do partido de extrema-direita (AfD), uma vitória que é tão-só a primeira a acontecer na Alemanha desde os tempos de Hitler!




O candidato que liderava a lista do partido (Ulrich Siegmund) será agora, com toda a probabilidade, o novo governador regional, persistindo apenas a dúvida sobre se comandará em minoria (confortável, todavia) ou se logrará uma coligação com o partido recentemente criado por Sahra Wagenknecht (BSW), proveniente do “Die Linke” mas senhora de opções políticas e programáticas de pendor heterodoxo e dificilmente compatíveis com qualquer tradição de esquerda (por muito que seja tempo de questionar os inquestionáveis, como se consegue ser, simultaneamente, anticapitalista, pró-russo e anti-imigração?).

 

Acresce a natural euforia que se instalou nas hostes lideradas por Alice Weidel, que já veio a terreiro na procura de aproveitar o mood dos eleitores e de pedir a convocação de eleições legislativas antecipadas no país. No entanto, o estado ontem vencedor – podendo indiscutivelmente ser motivo de efeito-demonstração – é demasiado pequeno e específico para que se alargue a toda a Alemanha essa ideia de uma nacionalismo novamente dominante. Como quer que seja, o chanceler Merz não vai ter vida fácil nos tempos mais próximos, ele que parecia dotado do perfil certo para “aguentar os cavalos” e recolocar a economia e a sociedade alemãs nos carris mas que surge cada vez mais encarado como uma escolha falhada. E por falar em falha, já começam a ser muitos aqueles a quem não escapou o facto (indesmentível?) de que ontem se deu também o fim definitivo da respeitabilidade política de que longa e largamente gozou Angela Merkel junto da maioria dos seus concidadãos.

 

O sinal está dado, os acontecimentos subsequentes suceder-se-ão sem apelo nem agravo e as surpresas poderão igualmente aparecer, mas uma coisa é inequívoca: se nada for feito para inverter o atual estado da arte política na Europa, vamos seguramente penar forte e feio com o que aí poderá estar a germinar...



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