segunda-feira, 14 de setembro de 2026

TEMOS DE REPENSAR A EDUCAÇÃO!

Já aqui me referi à incompreensão com que registo (e aprecio) a extraordinária resiliência de Fernando Alexandre (FA), ministro da Educação (posto que acumula com uns pozinhos de intromissão inconsequente por outras áreas. Agora que se inicia um novo ano letivo, volto ao tema para reiterar a minha admiração pela forma quase sofredora – há que saber sofrer para construir o sucesso, dizem quase todos os treinadores no final dos jogos – com que FA foi preenchendo os seus dias depois daquele triste incidente da correção digital dos exames nacionais que só não o afastou do lugar por sobreposição mediaticamente induzida do “caso Luís Neves”. Vejamos a infografia acima, meramente indicativa: quando aquele tema quente parecia em vias de desaparecimento, logo vieram notícias sobre os gastos do Ministério em consultorias diversas; depois, foram as colocações do Ensino Superior e os variados sinais de desconforto que trouxeram; em seguida veio o PISA (ver abaixo) e “os piores resultados em duas décadas a matemática e leitura”, imediatamente obrigando a anúncios reformadores (fusão do 1º e 2º ciclos) com a respetiva contrapartida associada; entretanto, o ano letivo de 2026/27 inicia-se com os habituais problemas de falta de professores, o que “o Luís” desmonta sem qualquer hesitação com a simples tirada de que “há menos alunos sem aulas”; e hoje, a culminar tudo isto, sabe-se que as escolas de Lisboa vão solucionar o seu especialmente gravoso problema através de um expediente engenhoso mas pouco aceitável (o aumento do número de alunos por turma para encaixar aqueles que foram primariamente dados como não tendo vagas). E assim vamos neste quase Outono em que invariavelmente nos resignamos a “mais do mesmo” e a não procurar ir à raiz dos problemas...

 

Antes de concluir, uma nota sobre o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), um teste da OCDE que procura avaliar em que medida os alunos de 15 anos, perto do final da escolaridade obrigatória, adquiriram os conhecimentos e capacidades essenciais – concentrados nos domínios nucleares de Leitura, Matemática e Ciências – para a plena participação nas sociedades modernas. As infografias abaixo sintetizam os principais resultados divulgados, com particular ênfase no que toca a Portugal:

· o desempenho dos alunos portugueses no PISA deteriorou-se significativamente nos últimos anos, tendo atingido em 2025 as pontuações mais baixas da última década em Matemática (460 pontos em 2025 contra 466 em 2006 e 496 em 2018) e Leitura (462 pontos em 2025 contra 472 em 2006 e 492 em 2018);

·  na Ciência, a evolução foi menos gravosa ao registar 482 pontos em 2025 contra 474 em 2006 mas 501 em 2015);

·   o número de alunos com desempenho insuficiente em pelo menos uma área educativa é, no caso português, um dos maiores da amostra selecionada ao atingir cerca de 40% do total.



O comportamento nacional, altamente denunciado pelos analistas, tem alguma similitude com o da deterioração verificada na média da OCDE (em Espanha, por exemplo, falou-se em “desastre educativo”), em linha com as especificidades muito negativas provenientes do período pandémico que o mundo atravessou, o que não deixa por isso de confirmar o sentido de alerta que resulta para a evolução das competências dos alunos portugueses.

 

Acresce que se observa que aquele comportamento decorre essencialmente da trajetória mais recentemente verificada que, após ter sido antecedida por uma aproximação aos países mais desenvolvidos até meados da década de 2010, evidencia um claro recuo – atente-se no facto de que, em 2006, Portugal se encontrava 35 pontos abaixo da média da OCDE em Matemática, 23 pontos abaixo em Leitura e 29 pontos abaixo em Ciência, diferenciais estes que se foram reduzidos até 2015 mas ainda se mantêm positivos 9, 4 e 4 pontos, respetivamente).

 

Concluo com uma sugestão: mais do que atribuirmos responsabilidades a este ou àquele governo (mesmo quando o ministro da Educação de Costa se acusa e iliba o atual, tudo em nome de uma honestidade política que não encontra contrapartida), impõe-se-nos encarar a situação com um máximo de competência e clarividência (e, se possível, abordando os special cases que são os alunos abaixo do nível mínimo de proficiência, por um lado, e os top performers, por outro), sempre no quadro de uma urgência óbvia mas que não deve substituir-se a um reformismo impensado que atropele a reflexão e a participação e acabe na frequente lógica lusitana do “pior a emenda do que o soneto” (desembocando num triste remediar do que já dificilmente terá remédio), leia-se, que se venha a mostrar impensável à luz das suas potenciais consequências adversas ou nocivas.


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es) 

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