(Vitória do Die Linke em Berlim) (Vitória da AfD na Pomerânia Ocidental)
(Mais duas eleições regionais aconteceram ontem na Alemanha, mais propriamente na Pomerânia Ocidental, lá para as bandas do Báltico, e em Berlim. Alguns matizes de resultados tornam estas eleições um pouco diferentes do observado na Saxónia. Na Pomerânia, a extrema-direita voltou a ganhar, abaixo dos 40%, mas a verdade é que nessa região o SPD resistiu, com votação tangencialmente inferior à AfD e pode mesmo manter a governação da região, provavelmente em colaboração com os Verdes e Die Link (ex-comunistas). Em Berlim, foi o Die Linke, projetando a situação política para o outro extremo. Penso que a conclusão mais óbvia é podermos dizer que a polarização continuou a avançar, extremando-se o espectro político. Não é por acaso que, nas duas regiões, prosseguiu o afundamento da CDU de Merz, o que nos leva à interpretação cabalística de que provavelmente Angela Merkel, quando se afastou, terá intuído esta tendência. O que está a acontecer na Alemanha é muito comum aos Estados muito descentralizados e temos de convir que a autonomia dos Lander alemães é significativa. Nestes tempos de ebulição política, pode existir durante algum tempo uma forte desconformidade entre o panorama político regional e a configuração política que suporta o Governo central. É precisamente isso que acontece neste momento na Alemanha. A nível regional, a polarização avança, com o exemplo das três últimas eleições e Berlim a marcar o aparecimento em cena da esquerda mais à esquerda do Die Linke. A Saxónia já tinha agudizado esse espectro com o resultado da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), a extrema-esquerda populista e anti-imigração.)
Uma situação desta natureza tende a provocar uma longa erosão do espectro político que suporta o Governo central e isso está a acontecer com a continuada descida nas sondagens da CDU e da popularidade do Chanceler Merz. E não é difícil imaginar a situação problemática e precária em que se encontra a Alemanha no contexto atual das grandes decisões europeias, pois pode bem ser argumentado que Merz exprime em Bruxelas posições e argumentos com o elevado risco de não ter suporte interno. Se acrescentarmos a este pesado enquadramento, a situação económica da indústria alemã, designadamente o seu setor automóvel, não é difícil antever sérias contradições entre o que pode interessar á Alemanha e à União nesta encruzilhada. O facto de a Presidente da Comissão Europeia ser alemã completa o quadro de dificuldades salientes.
Existe, porém, uma dimensão analítica que não pode ser ignorada. As eleições regionais não são simultâneas e isso deve ser tido em conta. A razão principal para estar atento a essa característica deve-se ao facto das consequências geradas por um determinado padrão de resultados eleitorais regionais sobre o espectro político da governação central não ser linear e de antecipação simples e imediata. Pode bem acontecer que o padrão extremado de posições daí resultante, extrema-direita e extrema-esquerda, populista ou não, a avançarem abra caminho a um mesmo padrão de resultados em eleições gerais. Essa tendência pode ser pressentida através da sucessão de sondagens a nível nacional. Mas também pode acontecer que, à medida que os resultados regionais se sucedem e emergem novas dificuldades na formação e composição desses governos, o eleitorado nacional possa refletir sobre essas dificuldades e gerar um comportamento distinto. Será esta última hipótese que a CDU de Merz e a coligação política que suporta o governo desejarão que aconteça. Mas ainda que este segundo padrão possa emergir, a governação central não deixará de ser toldada e influenciada pelo que vai acontecendo a nível regional. O posicionamento de Merz em Bruxelas será provavelmente a dimensão em que essa influência mais se fará sentir, com sérios problemas gerados para o Conselho Europeu (António Costa, prepare-se!).
A moral da história que pode daqui inferir-se é a certeza de que as ameaças que pesam sobre a Europa e a União Europeia não são apenas externas. São-no também a nível interno. As tendências mais reacionárias nos EUA e o próprio Putin já compreenderam que existe um filão convidativo em colocar em relação as duas ameaças, as externas e as internas. Uma das causas mais salientes para explicar o campo favorável que pode formar-se nesse sentido é de simples explicação: as inseguranças e descontentamento que têm aberto o caminho ao populismo mais reacionário tendem, regra geral, a confortar-se com o apelo ao autoritarismo e não com as exigências do jogo democrático. Putin, melhor do que ninguém, terá compreendido esta fenda europeia.


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