(Não tive ainda oportunidade de ler o Contas Certas de Mário Centeno. Limito-me, por isso, a ter em conta a entrevista ao Expresso e os diversos relatos que a comunicação social elaborou sobre o tema. Devo confessar que tenho bastante admiração sobre um dos Centenos, ou seja, sobre uma das personalidades em que a sua vida se transformou. Há o Centeno doutorado em Harvard, especialista na área da economia do trabalho, autor da mais robusta e consistente proposta de reorganização do mercado de trabalho português e da eliminação do seu principal vício que é o da segmentação. É este o Centeno que admiro, lamentando que não tenha tido a coragem de precipitar uma abordagem ao mercado de trabalho. Quanto aos dois outros Centenos, já tenho alguma dificuldade em apreciar essas figuras. O Centeno ministro das Finanças não me despertou grande entusiasmo, ainda que deva reconhecer o excelente trabalho de afirmação da sua experiência que o guindou aos cargos europeus. Chapéu para essa tenacidade. A terceira personalidade é a que menos me entusiasma e identifica-se com o Centeno candidato a primeiro-Ministro. Não sei que raio de autoavaliação de competências conduziu Centeno no tempo em que se abriu à possibilidade de substituir António Costa sem necessidade de novas eleições. E muito menos à reincidência em projetar-se no horizonte político, pairando sobre a liderança que muitos consideram de transição de José Luís Carneiro, mas à qual continuo a dar algum benefício da dúvida, embora me agradasse alguma agressividade adicional. Mas quem sou eu para desdenhar de uma personalidade que, pelos vistos, se cansou da sua veia de professor e investigador e que, tendo experimentado o stresse da pressão e da decisão políticas, terá gostado e encontra fundamentos para uma avaliação positiva para mais altos voos nessa trajetória?)
Dos elementos que mais me intrigaram na exposição pública mais recente de Mário Centeno foi a sua rábula de se ter oferecido a António Costa para exercer o papel de uma espécie de super-ministro, dedicado, segundo ele, a resolver o problema da saúde em Portugal, solução que ele considera exequível e ao alcance da sua mais que generosa autoavaliação de competências.
O que me intrigou é o facto de, mobilizando a memória pessoal e realizando uma pesquisa sumária, ter chegado à conclusão de não me ter confrontado com qualquer ideia prévia de Centeno sobre o problema estrutural da saúde em Portugal, que se vai agravando e que vai gerando um estado da arte em permanente transformação, da qual o elemento com efeito mais impactante é a continuada alteração da relação de forças entre os setores público e privado da saúde.
António Costa tê-lo-á deixado sem resposta, vá lá saber-se porquê e o ressentimento de Centeno sobre esse incidente parece ter deixado marcas, o que para mim constitui mais um indicador da generosidade com que Centeno se autoavalia em termos de capacidades para decisões política de rotura.
De falta de confiança é que não poderemos acusar Mário Centeno. Mas será que o Contas Certas poderá criar alguma dinâmica de debate que seja útil para a procura de alternativas democráticas para o centro-esquerda? Se assim for, estarei disposto a reconsiderar este meu azedume. O problema é que não estou certo de encontrar estímulo suficiente para explorar até que ponto Centeno pretende fazer das Contas Certas a sua imagem de marca. Devo confessar que estou cada vez mais seletivo na minha política de leituras, que tem funcionado mais por impulsos de momento do que por decisões de escolha racional e fundamentada. E, de facto, se para os jornalistas interessados nas diatribes políticas, Centeno possa ser uma personalidade sugestiva, os meus critérios de adesão são distintos e, cada vez mais, não me considero capaz de seguir e apoiar alguém que não suscita a empatia necessária.

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