(A tragicomédia centrada no Ministro da Administração Interna, com flash backs perturbadores sobre a sua Direção da Polícia Judiciária, continua em cena, com um ator protagonista algo desesperado, Luís Neves, e um diretor de cena, o primeiro-Ministro, aos bonés, incapaz de entender a degenerescência da situação e um Produtor, o Presidente da República, que começa a dar sinais de impaciência pelo desconchavo instalado. Luís Montenegro já nos habituou a este tipo de indiferença, como o demonstra principalmente a reiterada incapacidade de algumas instituições hospitalares em responder à procura dos utentes e ao ar de abandono que a ministra da Saúde vai revelando, com as suas olheiras cada vez mais cavadas. Daniel Oliveira tem sido o analista político mais profundo quando assinala a preceito que a esquerda, PS incluído, parece também estar refém da defesa das posições humanistas e corajosas de Luís Neves, enquanto Diretor da Polícia Judiciária e já como Ministro sobre a imigração, contribuindo com informação objetiva para desmontar o universo das perceções erradas e grosseiras que a direita mais extremada tem alimentado sobre a imigração. O problema é que Luís Neves, o humanista, ou se preferirem a costela humanista do agora Ministro, assume também outras costelas, a da informalidade praticada sobre todas as regras da condução de recursos públicos e a da luta contra os ventos do populismo, sendo contraditoriamente ministro de um Governo que cedeu claramente aos clarões desse populismo em matéria de imigração, matéria bem representada no empertigado ministro Leitão Amaro.)
Compreendo que aos olhos da esquerda seja necessário defender quem revela espírito de humanidade suficiente para resistir ao engodo das falsas perceções. Mas não é possível respeitar dois Amos e dois Senhores. A esquerda não pode defender a informalidade mais arbitrária, sem protagonizar uma proposta decente de expurgar a ação pública de regras de controlo dos recursos públicos que, por vezes, podem ser excessivas, rígidas e paralisantes. E muito menos pode defender uma luta antipopulismo que não faz mais do que aligeirar o escrutínio que deveria ser impiedoso sobre este Governo. Luís Neves dá o peito às balas, como xerife corajoso e, simultaneamente, o Governo não suscita a crítica necessária a entradas e saídas em falso da sua governação.
A Ventura e ao Chega não interessa de todo discutir os flops mais evidentes da governação, simplesmente porque não tem nada de novo a acrescentar sobre os temas. A arte de Ventura resume-se a comandar a agenda mediática e, neste último caso, a ser autora de uma nova receita culinária, a de cozinhar em lume brando, prolongando o momento, um Ministro de ação pelos domínios da informalidade mais desconcertante.
José Luís Carneiro explicou há dias, com um conjunto de personagens próximas atrás de si (é interessante analisar quem são essas personagens, as que variam consoante o local em o líder se pronuncia e as que permanecem constantes), expectantes sobre o que ele dizia aos jornalistas, que o PS é alternativa de Governo, e que nela trabalha com denodo. O problema é que, diz-me a experiência, nem sempre as alternativas controlam o timing da sua preparação. O tempo político é mais instável e traiçoeiro do que o tempo desejado pelas equipas de assessores e de membros mais chegados. Pelo menos algumas dimensões dessa alternativa têm de refletir e questionar os problemas subjacentes à crise que as determina. Essa dimensão é praticamente impossível de ser prevista e preparada antecipadamente. É como se as alternativas tivessem de enfrentar os mesmos desafios da governação, ou seja, responder a desafios que subitamente emergem e concentram as preocupações dos eleitores.
Não pretendo fazer previsão política barata. Mas mesmo cozinhando Ministros em lume brando, haverá momentos em que o dito estará no ponto. Ou saiu reforçado e nesse caso a alternativa pode ser adiada no tempo, ou algum laço quebra e a antecipação de eleições é inevitável.
E assim se desata a metáfora gastronómica.

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