terça-feira, 22 de setembro de 2026

A QUE OMBRO NOS VAMOS AGORA ENCOSTAR?

 


(O curto noticiário das oito da manhã na Antena 2 em viagem para o escritório em Matosinhos trouxe-me a notícia. Uma paragem cardiorrespiratória traiu Jorge Palma e mais um Grande nos deixa. É verdade que já recuperámos de outros Grandes que nos foram deixando e a nova geração da música popular portuguesa esforça-se por nos facilitar a recuperação dessas perdas. Mas o vazio que fica é grande. A Estrela do Mar empalideceu, o Encosta-te a Mim passará a ter um outro significado e quando perante a dimensão de um equívoco expressarmos o Deixa-me Rir tudo terá um diferente significado. O sempre informado André Cunha Leal que conduz agora o espaço das sete às dez da manhã na Antena 2, também ele surpreendido pela notícia, relembrou e bem os tempos em que Palma passou pelo conservatório depois de ter atuado em público pela primeira vez aos oito anos, bem como o seu fascínio pelos impressionistas franceses, especialmente Debussy e mostrou acertadamente como a versão de A Estrela do Mar para piano reflete essa inspiração.)

Não será fácil substituir a música de Palma e sobretudo o imaginário urbano que ele representava, a sua música e a sua própria e inconfundível figura. Sim, Palma é de facto uma figura incontornável de uma certa Lisboa boémia, embora nos últimos tempos o artista vivesse num tom bastante mais recatado.

Se percorrermos toda a sua vastíssima obra vamos deparar com a permanente desconstrução do facilitismo musical, por isso quase todas as suas canções surpreendem, espantam e depois entranham-se na nossa memória musical para todo o sempre. É sobretudo esse tom que ficará da sua obra, preenchendo o vazio do seu desaparecimento. E, de facto, a herança da cultura e da sensibilidade musicais, adquiridas com a formação e as suas próprias digressões pelas correntes musicais que mais o impressionaram, ajudam-nos a compreender que por vezes as nossas dicotomias, popular versus erudito, pop versus clássico, deixam de ter sentido quando alguém assume na sua plenitude a música.

O Jorge Palma certamente que vai descansar em paz com um Ombro amigo a acolher a sua eterna inspiração.

E como ele cantava em 1991, a gente vai continuar.

 

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