sábado, 12 de setembro de 2026

DEAMBULAÇÕES PELO TEMA DA INOVAÇÃO

 


(O meu registo de interesses académicos assenta em raízes incontornáveis que são os da economia do (sub)desenvolvimento, domínio em que cheguei a acalentar a esperança de poder ter uma carreira universitária e de investigação em exclusividade. Outros interesses se levantaram e essa esperança, embora nunca abandonada, teve de ser partilhada com o mundo da consultadoria até as forças recomendarem que a partilha de tempo já não era possível. Nesse percurso agitado, os temas da economia da inovação e do conhecimento emergiram como parceiros dos da economia do desenvolvimento e devo confessar que quando chegou a reforma das lides universitárias foram os temas da inovação que deixaram uma marca mais saliente, amenizadas por alguns trabalhos profissionais nos quais, na companhia do Amigo Professor Mário Rui Silva, tive oportunidade de continuar a trabalhar o tema. A economia portuguesa atravessa um estádio de desenvolvimento em que a problematização da inovação se torna especialmente atrativa, tema que me tem servido de inspiração para alguns artigos, oportunidade única para ir acompanhando a literatura mais relevante, não perdendo o fio à meada da reflexão mais conceptual. Esta longa introdução tem uma justificação e ela deve-se essencialmente a um bem simpático convite do INESC TEC e do seu Presidente Professor João Claro para participar na semana que vem num painel de reflexão estratégica sobre as prioridades e domínios estratégicos da nova Agência Nacional de Inovação, a AI2, de cuja controversa criação tive oportunidade de um pouco contra a corrente publicar neste blogue algumas reflexões pessoais. Conforme então expressei, o facto da criação da nova Agência ter acontecido em simultâneo com um processo de fusão que implicou o desaparecimento da FCT tal como os investigadores a conheciam suscitou um ambiente de recriminações de toda a espécie por parte da comunidade científica. Esse ambiente tornou-se pouco propício a uma discussão séria do alcance da nova Agência. A ironia do processo deveu-se sobretudo ao facto de, embora a FCT estivesse longe de ter uma presença assegurada e sem mácula no coração dos investigadores, a verdade é que a sua integração numa Agência de Inovação suscitou fantasmas e ameaças no universo da ciência portuguesa, que viu no processo uma perda de poder e influência. Além disso, ter-se percebido que a criação da nova Agência não tinha sido precedida de um estudo aprofundado por parte do Ministério de Fernando Alexandre acirrou os ânimos. E, assim, de amplamente criticada, a FCT viu-se apoiada, relativamente, pela generalidade da comunidade científica. Mas esse não é o meu ponto para hoje.)

Temos, assim, no horizonte e já em instalação uma nova Agência, para a qual se impõe a definição de prioridades em matéria de domínios de atuação e de áreas de inovação a promover e a apoiar.

Vou tentar neste post alinhar algumas ideias para elaborar o meu contributo reflexivo.

Primeira reflexão

A primeira ideia foca-se no contexto muito particular em que as prioridades da AI2 irão ser definidas. Todos os meus referenciais de economia da inovação, que aprendi e lecionei, foram forjados num clima de economia mundial bem determinado, com progressão antecipada e calculada, ainda que por vezes com ritmos de evolução não compatíveis com previsões anteriores. Diria que o fator de incerteza existente se circunscrevia à questão do ritmo de evolução e não aos domínios através dos quais essa evolução se concretiza.

Definir hoje prioridades estratégicas para uma AI renovada acontece num contexto totalmente distinto, que poderíamos caracterizar por incerteza dinâmica, à qual é praticamente impossível associar um cálculo probabilístico. Quer isto significar que questões como voluntarismo, risco, flexibilidade, consistência das escolhas estratégicas para estes tempos devem ser totalmente reconsiderados.

Devemos inclusivamente interrogar-nos se aquilo que considerávamos ser boas práticas e soluções vencedoras para tempos menos indeterminados o serão para tempos mais incertos e conturbados. Não sabemos ainda se os conceitos e contornos das cadeias de valor globais terão ou não de ser completamente redimensionados. Por outro lado, vão emergir com força e poder de captura de recursos orçamentais novas agendas públicas, com relevo para a segurança e defesa, competindo com outras agendas que começavam a instalar-se, como por exemplo a da descarbonização.

É neste contexto que a AI2 terá de ser definida e só o refiro porque em grande medida os grandes referenciais da economia da inovação foram concebidos em tempos de menor indeterminação. Não sei se isso equivalerá a sair-nos em sorte a fava ou se, pelo contrário, oportunidades inesperadas surgirão.

Segunda reflexão

Falámos de domínios estratégicos com agilidade, mas a sua operacionalização está longe de estar adquirida no nosso sistema científico e tecnológico nacional, que na economia da inovação designamos de sistema de inovação, com diferentes configurações territoriais.

E não está totalmente adquirida porque a definição desses domínios estratégicos deve corresponder aos interesses da diversidade de stakeholders que povoa e anima o referido sistema: investigadores, tecnólogos, infraestruturas, instituições de formação, empresas incumbentes e novas empresas. Por isso, a definição desses domínios estratégicos não deve corresponder nem a áreas científicas, nem a setores de atividade, quando muito algo que se integre bem com as capabilities tecnológicas dos territórios, neste caso do Norte como espaço de referência. A teoria dos sistemas de inovação e das estratégias de especialização inteligente ensina-nos como devemos operar, mas o nosso sistema científico e tecnológico tem tido dificuldades em concretizar essas orientações. Sabemos que a definição de domínios estratégicos de inovação a explorar resulta, por um lado, de processos verticais e descendentes, com lógica de planeamento rigorosa e grande incorporação de conhecimento sobre estado da arte e oportunidades tecnológicas. Mas essa lógica racional tem de ser habilmente combinada com práticas mais ascendentes, bottom-up, relacionados com processos de descoberta empresarial. Ora, esta combinação exige longos processos de aprendizagem organizacional, coletiva e em cada instituição ou entidade e poderemos dizê-lo essa não é ainda a nossa praia. Já escrevi em alguns artigos e trabalhos profissionais que essa menor competência se deve em parte a uma deficiente representação do sistema de inovação. Para muito boa gente, o sistema de inovação tem no seu núcleo central o sistema científico e, para mim, essa não é a representação mais operativa. A representação mais pertinente coloca as empresas potencialmente inovadoras, incumbentes e start-up’s, no núcleo desse sistema. Sei que isto não é pacífico. Podem existir variantes e sem dúvida a inovação institucional pode povoar a relação entre as empresas e o sistema científico com diferentes engenharias institucionais. Mas isso cabe às dinâmicas dos sistemas concretos encontrar as fórmulas mais pertinentes.

Terceira reflexão

A terceira reflexão prende-se com uma ideia que gostaria de propor ao painel em que vou participar, que está relacionada com o estádio em que a inovação da economia portuguesa se encontra. Esta reflexão foi-me sugerida essencialmente pela minha participação nos trabalhos técnicos que conduziram à Estratégia Nacional de Especialização Inteligente, ainda dirigidos à antiga ANI.

Em meu entender, a consolidação do sistema científico e tecnológico nacional e os avanços observados nos indicadores de inovação foram operados essencialmente ao longo de uma fase que caracterizaria sucintamente como: incorporar conhecimento e científico e tecnológico nacional através de processos de inovação incremental, registados no que designaria de atividades com sólido saber-fazer nacional. Do vinho à metalomecânica, passando pelo têxtil, vestuário e calçado, cerâmica, entre outros, essa inovação incremental conduziu essas atividades a uma sólida evolução, ainda que sem ganhos espetaculares de produtividade (limitação reconhecida essa a dos ganhos de produtividade aparente do trabalho não serem de largo espectro). E este processo corresponde bem a uma economia que era essencialmente follower do ponto de vista da inovação, com a difusão do progresso técnico a ser virtuosamente aplicada ao serviço de estratégias conducentes a uma maior autonomia tecnológica.

Mas esta já não é a situação atual da economia portuguesa ou, pelo menos, o modelo anteriormente descrito já não explica toda a dinâmica de inovação emergente. O que mudou então?

Certamente que o novo mundo de aplicação das chamadas tecnologias digitais e de descarbonização poderá prolongar os já mencionados processos de inovação incremental. O que em meu entender está a acontecer é que no âmbito dessas tecnologias de aplicação estão a surgir oportunidades de novas atividades tecnológicas e negócios que já não são compagináveis com processos de inovação incremental. Poderão estar a surgir novas oportunidades, cuja aposta e potencialidades de sobrevivência vão implicar escolhas mais complexas e com maiores desafios de indeterminação. Seguramente que a economia portuguesa não vai passar do predomínio da inovação incremental ao mundo aliciante da inovação disruptiva. Mas que estão a emergir oportunidades mais disruptivas disso não tenho dúvidas.

Uma coisa é fazer escolhas de inovação incremental em atividades que correspondiam ao que sabemos fazer. Outra coisa bem mais desafiante e isso cai sobre os ombros da nova AI2 é fazer escolhas de rumo em domínios mais disruptivos nas quais o nosso saber-fazer está ainda em construção e que exige escalamento e experimentação. O diálogo incremental-disruptivo oferece ainda um elevado potencial na economia portuguesa, mas em domínios mais específicos o disruptivo pode oferecer novas oportunidades. Elas existirão por certo no vastíssimo mundo das tecnologias digitais, na área dos materiais, das tecnologias de descarbonização e de novas fontes energéticas, não esquecendo domínios ainda mais excêntricos ao nosso perfil de especialização, como por exemplo as tecnologias espaciais e de observação da terra.

Resumindo, um mundo fascinante este o da definição de atividades transformativas que podem conduzir ao interesse objetivo de diferentes stakeholders, exigindo a tal combinação de lógicas mais verticais e de planeamento e dinâmicas mais ascendentes e de descoberta empresarial. Creio que esta combinação não corresponde ainda a um saber-fazer coletivo adquirido. Importa por isso começar e aprender com os erros, que afinal foi esse também o modelo seguido pelas tais atividades em que o nosso saber-fazer é sólido.

Talvez ainda regresse ao assunto, antes da próxima sexta-feira.

Com os meus agradecimentos ao INESC TEC convite que é em si próprio um excelente estímulo à reflexão.

 

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