quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ACELERAÇÃO AL REVÉS

 

(Já há muito tempo que a intuição gráfica de EL ROTO não me acompanhava nesta ideia de fintar a realidade, ganhando distância e altura em relação à mesma, apenas com objetivos de sanidade mental e de equilíbrio pessoal. Mas a capacidade de encapsular o tempo corrente com traços de inspiração gráfica, por vezes aparentemente toscos, mas contundentes, não é para muitos, está antes reservado a alguns eleitos e EL ROTO é um deles. O desenho de hoje representa bem a estranha sensação vivida por um cidadão mediano, cuja parte da vida foi concretizada num horizonte de progresso, por mais questionáveis que algumas dimensões se apresentassem, mas que suscitava uma ideia de futuro. A minha geração nasceu quando a Europa se reconstruía depois das incidências da guerra, cujos testemunhos aconteciam nas nossas famílias, muitas vezes indiretos, dada a bondade da nossa posição periférica, em que se trocava rendimento material por presença física afastada dos acontecimentos mais bélicos. Mas os anos 50 e 60 foram anos de crescimento dourado, com o conceito de convergência real a adocicar as nossas consciências, um dia lá chegaremos, perspetiva que os anos 80 da integração europeia acentuaram. Tal como o desenho de EL ROTO nos confronta, os tempos que hoje vivemos transportam-nos para uma estranha vertigem, não de cavalgar o futuro, mas uma vertigem de desconstrução de conquistas que julgávamos seguras, de regresso ao passado, apenas porque sim. A aceleração da vertigem mantem-se, mas de regresso à vulnerabilidade e aos processos mais canhestros da política, visível nas instituições internacionais, na governação e nas pessoas que internalizam rapidamente o conservadorismo mais bacoco e medroso. Uma instituição internacional como o FMI afasta um prestigiado economista português, Ricardo Reis da London School of Economics, do processo de candidatura ao posto de economista-chefe pelo simples facto de ter aplicado a teoria económica e ter afirmado que a cruzada protecionista de Trump iria penalizar os americanos e Reis não é seguramente um esquerdista da economia. O próprio Trump vomita promessas de dinheiro vivo aos republicanos acaso vençam as intercalares. Montenegro contorna a moção de censura do Chega também com promessas de benesses materiais, descida de IRS nos escalões mais baixos e suplemento de pensões. E as pessoas em geral estão cada vez mais inseguras e sem opinião, apenas por questões defensivas.)

A questão que se coloca é a de saber se esta vertigem de aceleração em direção ao passado é ou não uma questão dos ocidentais mais avançados. As classes sociais menos abastadas e mais vulneráveis destas sociedades sempre tiveram uma ideia periclitante de futuro. Mas essa ideia de ver o progresso al revés parece estar a estender-se, com exceção dos 0,1 % mais ricos, que continuam apostados no prolongamento da vida, eternizando-a, sabe-se lá em que galáxia.

Não me parece que essa ideia do progresso ao contrário esteja a impregnar as classes médias ascendentes das economias emergentes, cujos motivos para acreditar numa ideia de futuro são mais robustos e com evidência material mais palpável. Também por esta se cava o declínio ocidental, porque não há evolução sem uma ideia de futuro, por mais indeterminado que ele seja.

A maior parte dos problemas que nos chegam todos os dias via comunicação social são problemas de sociedades de abundância. A procura das injeções milagrosas para conseguir corpos esbeltos é um exemplo dessa deformada perspetiva dos problemas efetivamente relevantes.

O absurdo de tudo isto é colocar-nos a cabeça à roda. De uma Europa que se afirmava como farol de valores e princípios e de modelo social a preservar passamos a uma Europa que se revê no passado mais obscuro e abjeto, que banaliza a não democracia, que rejeita a diversidade e que tem apenas para oferecer o envelhecimento e o declínio demográfico, comportando-se eleitoralmente em coerência com este regresso ao passado.

Como é que se sai disto?

Vertigem, queda e talvez acordemos!

 

Sem comentários:

Enviar um comentário