(A consistência das diferentes sondagens sobre as eleições regionais na Saxónia alemã anunciava o pior. As nuvens negras foram plenamente confirmadas. É um facto que a maioria absoluta não aconteceu, esteve por um triz, mas o resultado não admite outras interpretações que não a evidência de que se tratou de uma vitória retumbante da AfD. É cedo para compreender se os resultados de ontem irão ou não abrir um caminho de generalização a outros Estados e, se mais tarde ou mais cedo, os resultados nacionais vão refletir esta dinâmica de vitória da extrema-direita. Mas que vamos assistir à tentativa de forte capitalização desses resultados, isso não me suscita quaisquer dúvidas. Por agora, o tema relevante a discutir é o de saber que posicionamento tomar em relação à hipótese da AfD assumir a governação efetiva daquela região alemã. Tal como o expressei no meu último post, a hipótese de constituição de uma vasta coligação de resistência e barragem da chegada ao poder da AfD não me convence. Em primeiro lugar, porque a maioria absoluta está ali ao virar da esquina. Em segundo lugar, porque o espectro de forças políticas é demasiado vasto, não sendo possível vislumbrar um governo minimamente consequente, cuja ineficácia tenderia a lançar as bases da pretendida maioria absoluta por parte da AfD. Não me imaginaria, muito sinceramente, a escrever o que vou expressar de seguida. Mas, avaliando bem a situação politicamente criada, entendo que seria favorável admitir a hipótese de governação por parte da AfD, sujeitando essa mesma governação a um controlo rigoroso de medidas, vetando no parlamente regional as que anunciassem a perversão da democracia regional. É seguramente um risco, até porque a AfD em plena governação pode desenvolver estratégias de recuo face ao seu programa e convencer os eleitores de que não são um inferno político. Por outras palavras, permitir que a extrema-direita continue a não enfrentar o ónus da governação vai continuar a engrossar o seu capital eleitoral, por muito que isso custe e o que isso possa representar enquanto risco de adulteração por dentro das condições democráticas.)
O tema é incómodo e perverso nas suas últimas consequências. Mas foi o voto democrático, praticado na sequência de uma campanha eleitoral de festa e proximidade, que conduziu a AfD a estes resultados e, isso, por muito que nos custe, foi o que aconteceu. Estimo que os conservadores alemães de Merz, o SPD e o Die Link, antigos comunistas com raiz na RDA, possam ter a nível nacional pesos eleitorais algo superiores aos que revelaram ter no passado domingo na Saxónia. Se for assim, a chegada possível da AfD à governação nacional estará mais dificultada, a não ser que o estilo praticado na Saxónia se dissemine por outras regiões, atraindo novos eleitores.
Sinceramente, não vejo outro rumo que não sujeitar a Saxónia ao ónus da governação da extrema-direita. A opção não está isenta de riscos, tenho consciência disso. Mas considero que o risco de uma solução pantanosa, sem criação de uma alternativa de barragem consistente, é bastante mais elevado e conduzir a AfD a uma vitimização que será obviamente ouro para as suas pretensões futuras.
À medida que o puzzle eleitoral alemão se vai compondo, a ideia de que a reunificação alemã foi um êxito é cada vez mais um campo para evidência esfarrapada. Penso que a União Europeia demorou demasiado tempo a compreender essa realidade e agora corre o risco de ser ultrapassada pelos acontecimentos, com a política de segurança e defesa europeia no centro dessas preocupações.

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