(A distância física à sociedade americana, agravada pela memória que já se esbate no tempo de três viagens, duas à costa atlântica e uma à Califórnia e adjacências, não me permite ter uma ideia fidedigna do modo como o voto está a ser captado. Mas as eleições intercalares estão aí à porta e não será difícil imaginar que a dinâmica mais transparente e também a que se desenvolve por debaixo da mesa estarão ao rubro. Com o tempo e com a idade, fui ganhando uma carapaça bastante resistente ao vício de criar expectativas sobre a possibilidade de Trump e sua entourage serem castigados em sede de intercalares. Já me habituei aos tiros no pé de Democratas, eternamente pràsos nas suas contradições entre moderados e mais socialistas (comunistas nas parangonas do MAGA). O deserto de figuras democratas entre os seus apoiantes mais centristas e moderados é de espantar, eternamente abafados pelo maior mediatismo, e também qualidade de pensamento, dos democratas mais á esquerda. E, por outro lado, o propósito Republicano de ir mudando as regras do jogo antes dele se travar inspira todas as desconfianças possíveis, o despudor está instalado e fica-se com a sensação de que vale tudo até tirar olhos. Basta recordar as fragilidades da candidatura de Kamala Harris para ficarmos atentos a uma qualquer e possível quebra de expectativas. Aparentemente, os mais acérrimos apoiantes de Trump tudo lhe perdoam, mesmo que os seus bolsos comecem a dar sinais de não estar tão cheios como desejariam. Tudo se passa como se o velho Western tivesse regressado, mas sem valores de qualquer espécie. Com este desânimo pessoal instalado, uma análise do Economist despertou-me a atenção, porque invoca dados a que não estamos habituados nas sociedades europeias. Já lá vão os tempos de grandes movimentações territoriais das populações. Mas nos EUA a mobilidade territorial está enraizada e daí que os quadros eleitorais tenham de ser permanentemente reanalisados, porque existem fluxos assinaláveis de população entre os territoriais azuis (Democratas) e vermelhos (Republicanos), independentemente de saber se os deslocados mantêm ou não o seu comportamento de voto.)
O artigo do Economist é o que poderíamos designar de um bom artigo de demografia política. A tese que atravessa o artigo é de por estes tempos os territórios de Trump, pelo menos nas últimas eleições, têm crescido apenas por via da migração de pessoas, leia-se de migração interna entre Estados. Esta conclusão vejo-a como um pau de dois bicos e não consegue superar o meu desânimo pessoal em termos de espectativas quanto ao futuro político dos EUA. O que a conclusão do Economist sugere é que o crescimento natural da população nos territórios republicanos não está a assegurar crescimento á sua base de apoio. Mas o facto do seu crescimento se dever à migração entre Estados mostra algo de preocupante – a figura de Trump continua a não ser impedimento de mudança residência para os Estados em que o voto em Trump é dominante.
Com taxa de fertilidade total em queda por toda a sociedades americana, os territórios republicanos mantêm um valor superior ao dos territórios democratas (1,8 versus 1,4), mas morre-se mais entre os Republicanos: longevidade de 80,7 anos entre os Democratas e de apenas 77,4 anos entre os Republicanos. Por isso, a componente das migrações é essencial para explicar a dinâmica diferenciada dos dois tipos de territórios.
Como o gráfico acima o assinala, são os territórios Republicanos a depender mais da migração interna para explicar a sua dinâmica. Mas qual vai ser o comportamento eleitoral futuro dos recém-chegados? Chegam com o voto azul na cabeça ou deslocam-se porque se sentem identificados com o voto dominante em Trump? O que apenas sabemos é que a migração para os territórios republicanos proveio 20% de territórios em que o voto é dominantemente democrata e que 40% veio de territórios em que a percentagem dos Democratas foi algo entre os 4º e 60%.
O que é curioso, mas expectável, é que na migração interna são os territórios Republicanos a beneficiar, ao passo que na migração interna são os Democratas.
Como se compreende, independentemente das manobras obscuras que estarão a ocorrer por baixo das mesas da geografia eleitoral, estes dados do Economist são interessantes mas não chegam para transformar o ânimo das minhas baixas expectativas.


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