quinta-feira, 24 de setembro de 2026

GÁS PIMENTA NA POLÍTICA ESPANHOLA

 

                                                            (Voz de Galicia)

(O Parlamento espanhol, designado de Congresso dos Deputados, transformou-se nos últimos tempos num templo perigoso de bizarria, violência verbal descontrolada, centro de insultos e ofensas inter-pessoais e partidárias. Este estado das coisas não é senão o reflexo da fratura política em que o país está mergulhado. A governação de Sánchez só tem praticamente um objetivo, adiar o mais possível a realização das eleições que com toda a probabilidade interromperá a sua governação. Por isso, a coligação com os partidos regionalistas e nacionalistas reinventa-se permanente em torno das leis e decretos mais desconcertantes, tudo isto acompanhado da grande contradição de a Espanha continuar a crescer, o mercado de trabalho estar pujante como nunca com a ajuda imigração e a agressividade da política externa de Sánchez incomodar profundamente os seus parceiros europeus. E se nos recordarmos que os últimos tempos foram uma sucessão interminável de desgraças e acontecimentos severos, como o desastre do TGV, a devastação da intempérie em Valência e a “invasão migrante” de Ceuta com todas as suas sequelas atuais ainda mais estranha se torna a sobrevivência de Sánchez. Se, adicionalmente, colocarmos em cima da mesa todas as incidências de corrupção grave no entorno mais próximo do primeiro-Ministro, então estou certo que a ciência política fará desta situação um caso de estudo. Esta semana o Parlamento espanhol foi palco de um acontecimento ainda mais bizarro do que o habitual e, cada vez mais, compreendemos que a Espanha é diferente e que face ao acontecido o Parlamento português é uma brincadeira de meninos, mimados e por vezes mal-educados. É sobre esse acontecimento que gostaria de elaborar o post de hoje.)

A história conta-se com facilidade. Os acontecimentos de Ceuta e a massa de jovens deserdados da vida que ficaram por aquelas paragens e que tem sido difícil devolver á fronteira com Marrocos estão a extremar linguagens e argumentos. Exemplo disso, a deputada galega do PP Ana Vásquez, num reflexo condicionado em que é mais VOX do que PP, resolveu levar para o hemiciclo uma embalagem de spray de gás pimenta, mostrando-a ao hemiciclo e associando-lhe a mais do que voxiana afirmação de que o spray era o material educativo básico dos jovens que permanecem em Ceuta. Para além dessa estranha afirmação, obviamente que a inspiração do VOX estava também presente quando a deputada galega juntou a tão estranha afirmação as ideias de que a Espanha está mais insegura do que nunca e de que nunca como hoje teve tantas agressões sexuais.

Apesar da deputada galega ter assegurado que o spray estava vazio, a Câmara percebeu com algum atraso que o spray era uma arma defensiva e que o uso de armas, de qualquer espécie, no Parlamento está proibido, a deputada Vásquez acabou por ser expulsa do hemiciclo, sob os aplausos dos deputados do PP e o olhar atónito do próprio Feijoo, que assim vê, uma vez mais, as coisas correrem-lhe mal.

Para complicar ainda mais o estranho acontecimento, apesar da deputada galega ter reafirmado que o spray tinha sido esvaziado, o problema é que várias pessoas tiveram de ser assistidas com os sintomas típicos de terem sido atingidos por restos do spray esvaziado.

Podemos assim concluir que o gás pimenta irrompeu na política espanhola com toda a força e falta de engenho de uma política galega que terá querido conquistar uns minutos de glória e contribuir para a queda do governo de Sánchez. Este acontecimento, um misto de tragédia e absurdo, exemplifica bem, em meu entender, a toxicidade instalada na política espanhola, em que todos os acontecimentos são acendalhas para a ignição da violência política.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário