sábado, 5 de setembro de 2026

QUE VENTOS FUTUROS SOPRARÃO DA SAXÓNIA?

 


(De todas as extremas-direitas europeias a que me inspira maior preocupação é a da AfD alemã. A razão é a sua maior consistência, acondicionada numa preparação de longo prazo, que começa a germinar a partir da integração dos territórios e gentes da ex-RDA na Alemanha, cujos resultados estão longe de corresponder à esperança da ocidentalização da anterior influência soviética e sobretudo às expectativas dos que viram o desmoronamento do muro como um novo princípio de vida. Estou em crer que a AfD já não o epifenómeno reversível e conjuntural que se esperava que fosse. Esta força política começa a estar enraizada na sociedade alemã e a consolidar apoios no eleitorado. Tudo indica que muito rapidamente vai deixar de ser um produto exclusivo dos territórios da ex-Alemanha de Leste, embora tenha neles a sua origem e o conjunto de condições políticas favoráveis que acompanharam o seu crescimento. Em meu entender, o seu crescimento e enraizamento no eleitorado vai emergir em alguns estados da Alemanha mais desenvolvida, como se a capitalização do descontentamento ultrapassasse as baias de uma integração económica inacabada e insuficiente para lograr o nivelamento das condições de vida entre os Lander de leste e o restante território mais desenvolvido. O impacto do crescimento da AfD vai ser disruptivo na situação política alemã e, por essa via, vai acabar por transmitir-se às instâncias comunitárias, com sérias repercussões na já de si problemática política de defesa europeia. Está por esclarecer qual vai ser o posicionamento da AfD em matéria de governação relativamente à Rússia de Putin. Na encruzilhada social, política e económica em que a Alemanha se encontra, as eleições do próximo domingo no estado da Saxónia emergem como um marco que irá seguramente condicionar o futuro e os sinais que as sondagens nos trazem são efetivamente preocupantes. Estamos a falar de um estado em que cidades como Leipzig e Dresden pontuam e isso basta em meu entender para ler com atenção que ventos irão soprar a partir das eleições de domingo.)

As sondagens disponíveis apontam para uma massa eleitoral previsível de cerca de 40% ou mais do eleitorado, pelo que a indeterminação de domingo próximo não estará na vitória da AfD, mas antes na possibilidade da maioria absoluta acontecer, o que conduziria pela primeira vez a AfD à governação regional. Certamente que isso implicaria uma nova trajetória a nível nacional, alterando disruptivamente o equilíbrio entre as principais forças políticas.

A Saxónia é hoje o estado mais envelhecido da Alemanha. O estilo da campanha política é essencialmente de tipo comunitário, com a realização de grandes festivais populares, tipicamente alemães, que a convivência dos candidatos a eleitos com os eleitores é muito forte e intenso, cultivando o que parece ser um estilo de política essencialmente destinado a combater o estado de isolamento, abandono e descrença que conduzir à presente situação.

Fonte: https://www.ft.com/content/bf518b6c-ca5c-49d3-b16a-4aa5bcf25ed9?syn-25a6b1a6=1
 

Mesmo na hipótese da AfD não conquistar a maioria absoluta e ficar à mercê da barragem que as restantes forças políticas irão provavelmente manter para afastar a extrema-direita da governação, o grande ajuntamento que essa barragem poderá significar não representará nada de substancial em termos de um rumo futuro para combater a depressão da Saxónia. Será uma amálgama de posições, determinada pelo espírito de barragem e não por opções de governação e desenvolvimento, o que dificilmente contribuirá para combater o descontentamento que convergiu nos referidos 40%.

Do que vai sendo conhecido da campanha da AfD na Saxónia parece emergir um outro conceito de ação política, menos baseada em drivers políticos disruptivos, mas antes focada no florescimento da ideia de festa eleitoral. Num cenário de envelhecimento tão pronunciado como o deste Estado, é bizarro que as deportações e a política anti-imigratória tenham tanta força, pelo que poderemos entender esse conceito como tentando esquecer esse ambiente de derrota, apesar das políticas natalistas promovidas pelos conservadores que sempre governaram a Saxónia. A miragem de que o problema demográfico pode ser resolvido por políticas natalistas vai exigir uma ideia de festa permanente. Mas quando a festa acaba, a realidade impõe-se.

 

 

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