quarta-feira, 23 de setembro de 2026

HABITUEM-SE!

 


(Voz de Galicia) 

(Há dias, um ilustre membro do painel que o INESC TEC organizou para debater o rumo futuro da nova Agência de Inovação, a AI2, dizia em relação à inteligência artificial que na sua vida de tecnólogo e investidor já longa nunca admitiu poder assistir às coisas que a IA tem alcançado e exemplificava essa questão com a revolução que a IA está a introduzir nos ensaios clínicos. Noutro plano, totalmente diferente, quando ontem visualizava a caótica intervenção de Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, tive uma sensação similar. Alguma vez me passou pela cabeça que um líder mundial se apresentasse em Nova Iorque com um discurso tão errático e volátil? Nem por sombras e, apesar de podermos dizer que tudo é expectável a partir daquela cabeça, continuo a laborar na interrogação que me persegue já há alguns tempos: até que ponto a aparente senilidade e demência de ideias que passam por aquela cabeça não serão construções orquestradas a partir de quem terá entendido ter ali à mão e com acesso fácil um instrumento poderoso para a geração do caos? Dir-me-ão, estás com a idade a ficar cabalístico. Mas a verdade é que quando captamos referências das personalidades que cercam e têm mais intimidade com Trump mais se me enraíza essa ideia de que gente maligna pode ter capturado a personalidade e capitalizado o seu egocentrismo narcísico e profundo. A densidade do problema intensifica-se quando pensamos que neste mundo dinâmico e de interações permanentes o comportamento volátil de Trump interage fortemente com as lideranças de outros países. Podemos identificar muitos exemplos de cedência oportunista, do tipo agradar ao meu Amo e Senhor, pensando ser seguro e eficaz captar no caos instalado uma ponta de sedução e ganhar vantagens com isso. Por agora, não é possível antecipar com clareza se esses comportamentos de cedência oportunista vão ser eficazes e se vão efetivamente granjear aos seus autores uma ponta de privilégio que seja nos desmandos daquela cabeça. Todo este introito veio-me à mente a propósito do recente acordo (?) entre os EU, a Dinamarca e a Gronelândia, representado no cartoon de Pinto&Chinto, cujo traço mais rural do que outros cartoonistas não deixa por vezes de ter a sua piada.)

O assunto passou por cá de certo modo desapercebido, mas a coincidência não é apenas isso. Praticamente em simultâneo com a bravata de Ursula von der Leyen alfinetar os EUA com a promessa de abrir caminho a um estatuto de parceiro associado da União para o Canadá, Trump deu a entender ter chegado a uma negociação mais ou menos sigilosa com a Dinamarca e a Gronelândia, pactando o que estava anunciado no horizonte – a colocação da pata dos EUA naquele território.

Tudo isto acontece uns tempos depois da União Europeia ter operado uma outra bravata, com os líderes da União e da NATO terem visitado o território, procurando demonstrar que existia uma retaguarda europeia para defender a Gronelândia.

Podemos obviamente discutir, e alguns analistas fazem-no sem hesitações, se a valorização do papel geoestratégico e geopolítico da Gronelândia é exequível sem a participação dos EUA. Muito provavelmente não o é, atendendo aos acontecimentos e investimentos precursores. O conjunto de bases já existentes no território com a marca americana anunciou-nos essa realidade.

O que me deixa profundamente alarmado é não ter ideia alguma de qual foi a posição da Dinamarca em todo este imbróglio, sobretudo acerca da real possibilidade da Dinamarca ter contribuído para o ridículo a que a União Europeia foi exposta com aquela bravata da missão EU-NATO à Gronelândia. E acho que não deveremos deixar de fora a hipótese do acordo agora anunciado ser apenas um acordo da treta para racionalizar o que já sabíamos, os EUA já mergulharam no território há muito tempo e assim irão estar.

 

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