segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A VIRADA

 


(Fim de semana em Alcântara -Lisboa para revisitar filho, nora e netos, logo com tempo reduzido para o trabalho de pesquisa que o blogue exige e sem grandes oportunidades para sentir a Cidade que protesta e sofre na pele, seja os descontrolos da força policial, seja as próprias dificuldades do movimento em torno da crise da habitação para dar uma expressão política consistente à espontaneidade observada. Algum tempo, porém, para em torno das atividades desportivas dos netos compreender a força do movimento associativo que vai proporcionando ao tecido social alguma sustentação e amarras, neste caso do velho Atlético que, no intervalo de um jogo de basquetebol da sua equipa sénior, aproveitou para apresentar os jovens que estão na formação da modalidade e na qual a franzina Catarina vai encontrando o seu caminho. E também o Esfera Andebol Masters em que o Francisco dá as suas passadas no andebol no Pavilhão da Ajuda. A norte, uma outra associação desportiva de gema portuense, o Vasco da Gama, vai acolhendo a experiência basquetebolística da Margarida e agora, nos intervalos do ténis, também do Pedro. Está por estudar em profundidade o peso e importância que estas agremiações assumem na estruturação do tecido social e de construção de relações de pertença e de identidade numa Cidade que se vai deslassando. Mas esse não é o tema do post de hoje, que gostaria de dedicar à virada octogenária em cima da linha de Lula da Silva nas Presidenciais no Brasil. Esta vitória de Lula na segunda volta de umas eleições que anunciaram o pior, primeiro pela incapacidade da esquerda brasileira de encontrar uma alternativa ao velho e desgastado Lula, segundo pelo primarismo de Bolsonaro que anunciava coisas bem piores, gera-me aqueles mixed feelings que sempre se formam quando se pretende derrotar a barbárie possível, embora com a convicção de que o deveríamos fazer com outra alternativa. Mas as eleições não se concretizam entre candidatos ideais. Elas acontecem com candidatos bem reais que foram até ao final e é com eles que o voto se decide. A resistência aos 80 anos de Lula é em si um facto notável e a alternativa que resta ao Brasil para, em torno do seu carisma e do seu papel ainda agregador de várias fações, ir preparando alguém com robustez para continuar a derrotar a perigosa onda de direita que varre por estes dias a América Latina, com destaque para a Argentina, Colômbia e Peru.)

Lula terá beneficiado dos receios que o primarismo de Bolsonaro filho inspirou no eleitorado brasileiro que, embora cansado do PT e dos fogachos de Lula, compreendeu que a alternativa poderia ser bem pior, gerando um risco elevado de confronto social futuro. Essa perceção talvez se tenha formado já depois dos resultados da 1ª volta que colocaram Flávio Bolsonaro em primeiro lugar e o sempre intuitivo Lula compreendeu essa tendência de rejeição do primarismo, explorou-a com o seu próprio carisma, construindo uma vitória que pode ajudar a fechar a sua longa carreira política de forma digna.

Creio que o mundo agradecerá esta vitória, ela equilibra em parte a onda de direita retrógrada e pseudo-neoliberal que se instalou em alguns países e assegura ao equilíbrio da Amazónia melhores condições de mitigação dos desastres ambientais que por lá a exploração económica do território vai provocando.

Não será seguramente uma vitória de Pirro, sobretudo se Lula se rodear das personalidades e do conhecimento adequados para construir um modelo de governo que possa assegurar-lhe uma retirada futura digna e à altura do seu papel na política brasileira. Creio que grande parte do empresariado brasileiro terá também compreendido que o primarismo de Bolsonaro lhe poderia provocar grandes dissabores num mundo que, por si só, já é demasiado volátil para poder aguentar desordem evitável e gratuita.

A democracia eleitoral tem destas coisas e por isso é insubstituível.


 

Que o diga também a alternativa política sérvia criada a partir de um vigoroso movimento de estudantes que oxalá possa assegurar a Belgrado uma preparação mais consistente para a integração europeia. Hungria e Sérvia já são dois por aquelas paragens, contrariando a sedução instalada pelo autoritarismo de Putin. No ponto de vista da ciência política, não me recordo de outros movimentos estudantis que tenham ganho expressão política eleitoral como a observada na Sérvia. O que significa que a democracia pode ser renovada através de dinâmicas populares ascendentes robustas e consistentes.

 

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