terça-feira, 3 de novembro de 2026

OBRIGADO, AUGUSTO!

O Salão Nobre da FEP testemunhou no último fim de tarde um momento histórico para a Instituição e, diria eu, para o País: o da “Última Lição” de Augusto Santos Silva (ASS), professor catedrático de uma Casa a cujos quadros pertenceu imaculadamente durante 45 anos de diálogo interdisciplinar com a Ciência Económica – dada a sua origem formativa residir inicialmente na História e depois na Sociologia, de que se reclama primordialmente – que marcou o fecho da sua carreira de docente (que não de investigador, como sublinhou) através de uma intervenção notável de 90 minutos intitulada “A Economia como Ciência Social (Relatório de uma Aprendizagem)”. Não entrando no âmago do tema essencial que ali ocupou ASS, por manifesta impossibilidade de o fazer cumprindo mínimos de autenticidade substantiva, fico-me por alguns breves apontamentos que entendo serem, ainda assim, merecedores de registo: (i) a saudação central à memória de António Almodôvar, um professor da FEP precocemente desaparecido há anos e que foi decisivo no fomento da disciplina de História do Pensamento Económico, uma trave-mestra do diálogo entre a Economia e outras Ciências Sociais; (ii) a repartição a que aludiu entre o serviço à FEP e a participação em órgãos de soberania (nomeadamente enquanto ministro, deputado e presidente da Assembleia da República) e que estimou em 25 versus 20 anos, respetivamente; (iii) a defesa da ideia de que as caraterísticas da Ciência Económica – que identificou em torno do seu sentido de materialidade, da noção de condicionalidade e de uma “relacionalidade” estratégica entre agentes – a qualificam como um elemento gerador de externalidades potencialmente impulsionadoras das demais Ciências Sociais; (iv) a forma original como se posicionou nas incursões que tão bem ousou fazer, recorrendo a uma narrativa em torno de um frade (no caso, ele próprio) e da sopa de pedra que acabou por conseguir cozinhar numa casa de família onde lhe começaram por negar o recurso aos ingredientes necessários para tal; (v) a definição que deixou e lhe permitiu uma exploração magistral dos respetivos conceitos constitutivos (“a economia é o estudo das escolhas implicadas na criação e distribuição do valor, bem como no seu aprovisionamento e uso para satisfação das necessidades humanas”); (vi) a mensagem irrecusável no sentido de que a “sargentada” dos papers é inimiga da Economia, de uma Economia que coloca bem dentro do universo das Ciências Sociais (mesmo que nada impeça uma exploração lógico-dedutiva com elevado pendor de formalização), deixando exemplos de diálogos determinantes que procurou criativamente explicitar de dois modos tão diversos quanto os de um “teorema da sopa de pedra” (incluindo variáveis como a ciência social matematizada, a investigação empírica, a pluralidade interna e a abertura à interdisciplinaridade) ou de uma “poetização” (combinando a “cruz” de Marshall, correspondente ao gráfico em que se cruzam a oferta e a procura, com a bicicleta de Amartya Sen). Uma alocução simplesmente brilhante! Parabéns amigos ao Augusto (que conheço – alguém acreditará? – há sessenta anos) por tudo quanto conseguiu fazer da sua vida pessoal e profissional, sempre na companhia discreta mas influente da Isabel Margarida e, mais recentemente, dos seus três filhos e dos subsequentes netos.

Sem comentários:

Enviar um comentário