quarta-feira, 2 de abril de 2025

A MINHA DIVA QUER ESCONDER-SE

 


(Pausa nos temas “wonkish” da economia americana e nas perturbações disruptivas deste mundo que nos atormenta e deprime para me concentrar numa das raras aparições mediáticas da minha diva do piano, Martha Argerich. Com uma longevidade que se destaca na história do piano, aos 83 anos ainda com destreza e força de mão e de dedos para atacar peças de tirar o fôlego, a juba frondosa e branca de Argerich emerge do New York Times com toda a força da sua personalidade, não enjeitando fumar um Gauloises, que me faz mergulhar na abundantíssima massa de CD’s que me acompanham em Gaia ou em Seixas. Em matéria de aparições públicas, imagino que terei de viver das memórias de um memorável concerto na Gulbenkian com o seu ex-marido Stephen Kovacevich, pois a oportunidade de a rever seja em Lugano, with friends, seja por essa Europa fora, seja numa esporádica passagem por Portugal, é cada vez mais remota. Falhei a última passagem pela Póvoa de Varzim, tamanha foi a procura que, num ápice, se manifestou. Fiquemos por isso com a preciosidade desta entrevista/reportagem de Javier C. Hernández no NYT e gozemos o prazer da sua música e desempenhos nostálgicos ou vibrantes, contemplativos ou eletrizantes, não importa. Interessa-me sobretudo compreender a filosofia existencial de alguém que aos 83 anos continua a ter os auditórios dependentes da sua arte e inspiração, mas que tem de lidar com a agitação das viagens, tal e qual saltimbanco dos aeroportos e que persiste na sua modéstia e nos seus medos. Na entrevista, Martha Argerich faz eco de um aviso de um maestro argentino que a dirigiu no Teatro Colón em Buenos Aires, Washington Castro, que a alertou – “Acontecem coisas estranhas aos pianistas que tocam o concerto de Schumann”.)

É conhecida a sua decisão nos anos 80 de não mais realizar concertos a solo, sozinha no palco, explicou ela porque esse contexto lhe provocava uma incómoda sensação de solidão – a expressão utilizada é a de como se fosse um inseto sob uma luz intensa. Talvez as memórias da depressão por solidão que viveu em Nova Iorque no início dos anos 60, quando para aí se mudou na esperança então de se encontrar com Horowitz, a referência dos seus primeiros anos. A vitória no concurso Chopin de Varsóvia em 1965 iniciou uma carreira imparável, que se alimenta até hoje de uma presença quase mística no palco, agora tocando a quatro mãos sempre com alguém com quem mantém uma forte relação de amizade e proximidade (percebe-se que a morte de Nélson Freire foi para ela devastadora ou que a doença de Parkinson de Daniel Barenboim deixará também marcas), ora tocando com outros instrumentistas dos quais Mischa Maisky no violoncelo é uma referência de retorno constante, ora ainda em concertos para piano e orquestra.

A sua afirmação ao jornalista do NYT de que por vezes sente vontade de se esconder, não querendo ser pianista, mas uma outra coisa, são digressões episódicas de estados de alma que rapidamente dão lugar a desempenhos ainda mais marcantes, enquanto as mãos e os dedos aguentarem. Para mim é suficiente ler o que pensam as grandes pianistas da nova geração quando se referem a Argerich, como é o caso da prodigiosa chinesa Yuja Wang no último número da revista BBC Music, para compreender que o legado de Martha e a sua presença ainda marcante em palco vão perdurar por muito tempo.

Não sou capaz de antecipar quanto tempo os concertos de Lugano com os seus amigos mais próximos irão perdurar.

O artigo termina com um reencontro: “já não pergunto, apenas toco”.

terça-feira, 1 de abril de 2025

PALHAÇOS RICOS À SOLTA

 
(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es) 

Aí está o mês de Abril, que fui educado a considerar, sem razões grandemente substantivas, o melhor de todos. Em 2025, ele só irá prolongar o estado de demência tresloucada que já vinha das tropelias de Putin mas foi exponenciado pela inconcebível balbúrdia que quotidianamente nos é trazida por Trump, Musk, Vance e respetivos acólitos e subalternos – uma coisa nunca vista que está a sobressaltar o mundo sem que um fim minimamente respirável esteja à vista.


Claro que a situação não se consubstancia apenas em puro absurdo, já que ela também tem o seu racional (discutível, dotado de bases essencialmente erradas, mas ainda assim um racional argumentativo e reativo ao pretexto de inércias e quase instigações aliadas, como tentarei explicar em post a vir), mas a verdade é que não passa um dia sem que aquelas criaturas nos vão sinalizando com uma espantosa desfaçatez que pior é sempre possível (da Gronelândia ao Canadá, de brincadeiras infantis na Sala Oval à hipótese anticonstitucional de um terceiro mandato, das chantagens sobre a Ucrânia às aproximações a Putin, do projeto de um resort em Gaza ao acriançado e irresponsável amadorismo da divulgação de segredos militares num chat de grupo na rede Signal, das odiosas provocações à União Europeia à inconstante jigajoga das tarifas, das exibições grosseiras de uma riqueza capaz de tudo às saudações nazis, do desmantelamento do Estado às objetivas tentativas de destruição dos checks and balances que eram a marca e a salvaguarda do regime democrático).


Neste quadro, assaz deplorável e profundamente miserável de qualquer ponto de vista que valorize a decência e o construtivismo em que devem assentar as sociedades modernas, abril trazer-nos-á certamente, e tristemente, bem mais razões de preocupação do que as “águas mil” que lhe são inerentes e já parecem estar por aí a despontar.


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)


POIS, O DÓLAR COMO MOEDA DOMINANTE…

 

                                                                            Financial Times

                                                                            Paul Krugman

 (Os leitores menos aficionados com as questões da ciência económica e da macroeconomia em particular talvez achem exagerada a minha atenção dedicada à economia americana. Mas como economista que não deixo de ser e sobretudo ainda saudoso dos tempos da academia, a economia americana continua a ser um inesgotável alfobre de debates de ideias, ainda para mais suspeitando eu que será por esta dimensão que a administração Trump irá encontrar obstáculos à concretização da sua perigosa agenda. Por isso, continuarei nesta senda, correndo o risco de algumas crónicas serem mais intragáveis para o leitor não especializado, mais “wonkish” como dizem os anglo-saxónicos, mas aquilo que vai acontecer por aquelas bandas transcende em muito o território americano. Resta dizer, por outro lado, que o debate económico nacional e até europeu continua frágil e sensaborão, concluindo pela minha parte que a academia nacional e europeia está mais domesticada, em proveito do sossego próprio, do que a americana e por isso a administração Trump começa a perseguir com perfídia os universitários americanos mais insubmissos e exuberantes nos seus comentários críticos. Assim, em continuação de post anterior, as contradições em que a administração Trump está a envolver-se defendendo simultaneamente a continuidade da hegemonia do dólar como moeda de referência e a necessidade da sua depreciação é dos tais debates a que não podemos ficar indiferentes. Até porque, graças ao Financial Times, temos agora um valioso ensaio de um dos grandes conhecedores das questões monetárias internacionais, Barry Eichengreen, professor em Berkeley, a escrever doutamente sobre o assunto. Devemos a Eichengreen obras valiosas para compreender a evolução da economia mundial desde a Grande Depressão de 1929-1930. Aprecio principalmente Hall of Mirrors: The Great Depression, The Great Recession, and the Uses-and Misuses-of History (2015), Oxford University Press, How Global Currencies Work – past, present and future (2017), Princeton University Press e The Populist Temptation: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era (2018), Oxford University Press).

Regressemos ao tema. A dominância do dólar como moeda de referência internacional é indissociável da hegemonia económica e política dos EUA na economia mundial. Mas essa indissociabilidade não pode ser confundida com o peso da economia americana no comércio mundial, esse tem diminuído sistematicamente, com o peso americano nas exportações mundiais a quedar-se hoje pelos 11%. À paridade dos poderes de compra, o PIB americano está hoje nos 15% da economia global. Porém, Wall Street mantém o estatuto de mercado de capitais mais importante do mundo e o dólar continua a ser dominante em matéria de pagamentos e de reservas internacionais.

A incomodidade da administração Trump e dos seus principais ideólogos (se é que eles existem e têm influência no comportamento errático de Trump e apaniguados de primeira linha) é, em linha com outras manifestações da sua agenda, manifestamente contraditória. A contradição está no facto de pretender manter esse estatuto de moeda hegemónica e de referência e, simultaneamente, insurgir-se contra o défice externo das transações correntes da economia americana. O discurso vitimizado de que os EUA têm sido esmifrados no seu relacionamento internacional é do mais básico que tenho visto na cena internacional e assenta numa falácia – querer transformar uma mera relação contabilística, logo uma tautologia, numa relação causal.

A questão é relativamente simples de explicar. O estatuto de moeda de referência faz com que além da vontade de realizar as trocas internacionais (exportações e importações) em dólares, os investidores internacionais acorram ao mercado de capitais americano e aí realizem investimentos em títulos denominados também em dólares. O pressuposto da administração Trump é o de admitir que o défice comercial externo americano tem uma relação determinista e direta com a entrada de capital no país à procura da moeda refúgio. Assim sendo, a tal visão mercantilista de que eu falava no meu último post sobre a matéria, considera que se convencerem os parceiros internacionais a depreciar o dólar isso vai conduzir a uma menor procura de investimento em títulos denominados em dólares e assim induzir uma redução do défice comercial externo.

Nas palavras de Paul Krugman, a questão torna-se bem mais clara: “Os EUA enfrentam grandes défices externos correntes não porque importem muito, mas pelo contrário importam muito porque têm de exportar títulos do tesouro americanos para proporcionar ativos de reserva e facilitar o crescimento global”. Aliás, as evidências históricas disponíveis mostram que o dólar é moeda dominante desde 1940 e durante esse período, pelo menos até 1970, os EUAS não deixaram de apresentaram excedentes correntes externos.

O determinismo da relação entre o comportamento da balança de transações correntes e das entradas de capital na economia americana não resiste de facto a uma análise mais profunda. Tal como Krugman o assinala com pertinência, nem toda a compra por estrangeiros de títulos americanos corresponde aos títulos de curto prazo utilizados como ativos de reserva. Uma grande parte dessas compras materializa-se em títulos de longo prazo. Além de que há capital a entrar nos EUA que não implica a compra de títulos, antes se materializa em tomadas de posição em empresas americanas. E não podemos esquecer ainda que muitos particulares e empresas americanos investem no estrangeiro, dando por conseguinte origem a saídas de capital.

A ideia de obrigar os governos estrangeiros a não comprar títulos americanos é peregrina, pois não há qualquer certeza de que tal operação conduza necessariamente a uma descida do défice corrente americano. Como a balança de pagamentos é uma relação contabilística, ela pode ajustar-se quer aumentando outras formas de entrada de capital, quer reduzindo as saídas de capital de particulares e de empresas e não afetar as exportações e importações de bens e serviços.

Quer isto significar, pura e simplesmente, que face à agenda de Trump, a reabilitação da indústria transformadora americana está apenas dependente da ofensiva dos direitos aduaneiros de proteção à indústria nacional. Mas nesta matéria, respeitando o que a teoria económica tem para nos dizer, a influência dos direitos aduaneiros nessa reabilitação é tudo menos um deux ex machina ou uma inevitabilidade. Os direitos aduaneiros podem ter um papel temporário numa política industrial mais proativa. Mas o que temos é que a administração Trump deitou pela borda fora a política industrial da Bideneconomics (Chips Act and Inflation Reduction Act).

Resumindo, se o convencimento dos governos estrangeiros (normalmente a pressão de bullying internacional não conduz a esse convencimento, antes convida à retaliação) a comprar menos títulos americanos não é solução para a reabilitação industrial americana e se os direitos aduaneiros não são por si só solução para essa reabilitação, então o primarismo das ideias de Trump irá dar proximamente com os burros na água. Por isso, tenho para mim que serão as contradições da economia a colocar limites à disrupção que Trump pretende provocar.


Nota final

Ontem, ao fim da tarde, decidimos abandonar o conforto da casa para ir assistir à Católica no Porto à apresentação do novo livro do Amigo Almiro de Oliveira, Ensaios Prometeicos no domínio da gestão – Edições Sílabo. O Almiro de Oliveira merece essa atenção pois é alguém que pensa a gestão numa perspetiva que me atrai e entusiasma, sendo uma Voz alternativa aos que glorificam a tecnologia e as tecnologias de informação e comunicação e que desprezam a teoria económica. E quem diz tecnologias de informação e comunicação diz também inteligência artificial. É espantoso como alguns ensaios que deram origem a esta obra abordaram estas questões de modo pioneiro nos anos 90 e na década de 2000 e a perspetiva crítica mantém atualidade. Agora menos do que no passado, algumas conversas no Alfa e na Pá Velha de Espinho anunciaram-me como aquele pensamento insubmisso era inovador. Publicado que está, fica disponível para quem pretenda ter uma visão crítica da inércia que vai pelo mundo da gestão.

segunda-feira, 31 de março de 2025

TUDO NA MESMA COMO A LESMA

 

Os portugueses estão dominantemente desligados da política. É aliás impressionante andar pelas ruas ou estacionar num café e ouvir o que as pessoas dizem quando impelidas por alguém a pronunciar-se sobre a matéria, um exercício que tenho realizado amiúde e em diferentes circunstâncias. Daqui que retire a conclusão óbvia de que pouco ou nada irá modificar-se ou ser surpreendente – ou seja, que vencerá o status quo ou a pura lógica do mais fácil – nas próximas eleições legislativas ou nas presidenciais do início do ano que vem.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Neste quadro, tanto faz que Montenegro seja considerado maioritariamente culpado pela crise política ou que tenha feito parecer favorável à empresa que lhe forneceu betão para a casa de Espinho, porque os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente dispostos a não irem às urnas, a votarem em protesto (Chega à cabeça) ou a colocarem a cruzinha no atual chefe de Governo que ainda lá está há pouco, que até está a distribuir algumas benesses e a fazer poucos males ou que, coitado, tem direito a uma bela casa de família e a assegurar seu enquadramento profissional e o futuro dos filhos. Ademais, porque também Pedro Nuno Santos poderá insistir em não largar o caso Spinumviva ou em acusar o Governo de estar a destruir o SNS e de não ter ideias para o País que os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente centrados em vagos e criticáveis episódios governativos de que foi protagonista ou da imagem autoritária e impositiva que parece fazer passar (Lili Caneças explicou-o de forma quase lapidar).

 

De modo semelhante, e com todas as diferenças (que são algumas), não interessará muito aos cidadãos que o Almirante seja demagógico e vazio (não votem em mim como salvador da Pátria, não temos de ser pobres, precisamos de prosperidade, liderança e estratégia) porque, quer pela simplificada construção de imagem que garantiu aquando do processo de vacinação quer pela incipiência gritante das alternativas – já para não referir o seu aparente estatuto de “não político” e mesmo sem que algumas Teresas Violantes o venham anunciar como um “líder mobilizador pela positiva” –, ele obterá inequívoco apoio de uma significativa franja dos eleitores e fará da campanha de janeiro de 2026 um passeio traduzido num mero cumprimento do calendário que o levará até Belém.

 

E assim estamos. Algum mal nisso? Sim, algum, embora a coisa pudesse ser pior se um espaço efetivo se abrisse à aproximação da extrema-direita ao poder (Chega ou Passos com Chega), isto na medida em que Montenegro tem os seus defeitos bem à vista mas não parece propenso a abdicar do “não é não” e na medida em que o Almirante teve farda mas não passa de um mero deslumbrado que respeitará as regras democráticas e que não irá fazer grande mossa ao País. Qual é, portanto, o eventual problema? Pois o problema, que não é pequeno, decorre da apatia revelada pelos portugueses e das suas consequências, apatia que os leva a dissociarem-se crescentemente das questões sociais e políticas de maior incidência e impacto coletivo e a privilegiarem um desesperante individualismo e aflitivos graus de alienação – do que, digamo-lo com frontalidade, nada de minimamente auspicioso pode ser expectável numa perspetiva que vise horizontes de um outro futuro...

A TURQUIA DE TODAS AS CONTRADIÇÕES

 


(As minhas impressões e evidências da Turquia limitam-se a uma viagem de cinco dias apenas a Istambul, aliás objeto de reflexões neste blogue, e por isso são coisa pouca para entender a força impressionante das manifestações contra a detenção mais ou menos manhosa e exigindo a sua libertação do adversário de Erdogan, o presidente da Câmara de Istambul, Ekrem Imamoglu. Quem conhece a Turquia com uma outra amplitude de referências diz-me que existe uma enorme diferença entre, por um lado, o autêntico cadinho urbano que Istambul representa e as outras cidades turcas e, por outro lado, entre a Turquia urbana mais laicizada e a Turquia mais tradicionalista e rural, ainda fortemente dominada. Embora sem existir uma correlação perfeita entre estas várias Turquias e a massa popular que tem sustentado o poder de Erdogan, não será por acaso que Ekrem Imamoglu teve já duas vitórias em Istambul nas eleições municipais e é nessa base que se perfilou como candidato suscetível de derrotar Erdogan em eleições livres, acaso elas venham a existir e das mesmas o candidato não seja artificialmente afastado. Como referi nessas crónicas de viagem, por exemplo aqui, achei um verdadeiro espanto de preservação necessária que em Istambul coexistissem ainda os símbolos do laicismo urbano mais arrojado e o tradicionalismo mais ou menos fundamentalista, de que as chamadas sonoras para a mesquita no meio de toda a animação urbana continuam a ser um símbolo representativo. As raparigas e mulheres de burka e de negro carregado passeiam na rua misturadas com a moda de vestuário mais ousado e de afirmação do corpo feminino e foi essa coexistência que me agradou tanto em Istambul, que gostaria ainda de revisitar para uma exploração menos domesticada pelo organizador da viagem. Mas o personagem Erdogan é bem o símbolo das contradições internas da Turquia, mas também do lugar contraditório que ela representa para a União Europeia, Europa em geral e obviamente para a NATO.)

As características autoritárias do modelo de governação e da própria personalidade de Erdogan são passíveis de interpretações não uniformes quanto à sua sustentação. Por um lado, a criatividade e a força de mudança que se respira em Istambul, e imagino que também na restante Turquia urbana e cosmopolita, conviverão sempre mal com um estilo como o de Erdogan e apoiantes mais próximos. A vitória de Imamoglu em Istambul e a força das manifestações dos últimos dias expressam bem essa condição. Mas, por outro lado, o estilo e o modelo de governação de Erdogan revelaram-se ajustados à transição e gestão dos modelos das várias Turquias, assegurando designadamente à Europa um tampão face ao islamismo.

Porém, a evolução acelerada dos últimos acontecimentos mundiais constitui um enorme desafio à sustentação do poder de Erdogan. O tempo passa depressa e já lá vai no passado (2015) o acordo de Erdogan com Angela Merkel e Bruxelas para a Turquia acolher uma massa de refugiados e evitar a sua entrada na Alemanha e no território da União. Desde esse acordo, há muita coisa a acontecer. Desde logo, a NATO atravessa uma convulsão potencial com a posição bizarra e também perigosa dos EUA de Trump e não esqueçamos que a integração da Turquia na NATO representou uma outra oportunidade de tampão, neste caso de tampão face à influência soviética. Aliás, com uma força militar que é a mais importante a seguir aos EUA, o que diz bem do seu papel. Ora tudo está mudado e abre-se um novo espaço que equivalerá a reequacionar o papel da Turquia na própria NATO e na sua convulsão interna. A outro nível, a Turquia de Erdogan assumiu-se como um ator principal na Síria, apoiando o governo agora em funções e reorganizando o espectro de influências naquele território.

Dos últimos desenvolvimentos, o que me inspira mais interrogação sobretudo por não ter informação suficiente para o compreender plenamente, foi o que se passou em fins de fevereiro de 2025: o líder curdo Abdullah Öcalan, preso na Turquia, fez um apelo público para a dissolução do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), circunstância que a verificar-se representaria para Erdogan uma enorme prova de poder de dissuasão. Não sei se esta significativa alteração tem alguma correspondência com os acontecimentos observados na Síria e com a quebra de influência curda nesse novo xadrez, ainda longe de estar estabilizado.

Resumindo, é natural que o nosso espanto pela força das manifestações de Istambul e outras cidades turcas a favor da libertação de Imamoglu esteja ao nível do nosso apreço pelos movimentos pró-liberdade de Hong-Kong, Geórgia, Arménia e outros. Afinal, quando a liberdade está em recessão é necessário defendê-la com toda a energia. Mas será necessário estar atento ao estado de evolução das contradições internas e do papel da Turquia no mundo que irá observar-se neste turbilhão de mundo em que nos encontramos. Não é apenas uma Turquia laica, moderna e marcadamente urbana que está em ebulição. É toda uma outra sociedade que se encontra em transição.

domingo, 30 de março de 2025

RELEMBRANDO HANNAH ARENDT, SEMPRE

 


(A ideia de que a sociedade americana foi sempre um oásis de liberdades é algo peregrina e ignora, por exemplo, os tempos do Macartismo, em que a privação dessas liberdades atingiu muita gente. À boleia de Nicholas Gruen, que edita um excelente substack, é possível relembrar palavras duras de Hannah Arendt sobre esse período. Arendt e o seu marido Heinrich Blüncher tinham obtido a nacionalidade americana, ela em dezembro de 1951 e ele no início de 1952, pelo que os seus pronunciamentos sobre as trevas do macartismo implicavam risco pessoas, já que a possibilidade de retirada da nacionalidade era real e outros sentiram-no na pele quando se pronunciaram sobre a privação de liberdades fundamentais. As passagens que Gruen identifica como pronunciamentos claros de Arendt contra a situação que se vivia então na sociedade americana provêm de diferentes fontes, uma das quais uma carta pública da ensaísta e jornalista ao filósofo Karl Jaspers. São palavras duras que adquirem todo um outro significado se as contextualizarmos à luz da experiência de Arendt com o fascismo.)

Comecemos pelo excerto da carta a Karl Jaspers: 

Pode ver até que ponto a desintegração chegou e com essa velocidade de cortar a respiração ela aconteceu e até agora com muito pouca resistência? Toda a indústria do entretenimento e em menor extensão as escolas, os liceus e as universidades foram arrastadas para isso. Em todos os domínios acontece sem uso da força e sem qualquer terror. E ainda assim aprofunda o seu caminho de modo cada vez mais profundo na sociedade.  Estão a introduzir os métodos policiais na vida social normal sem exceção, e identificam nomes. Fazem agentes policiais deles próprios depois do facto consumado. Deste modo, o sistema compulsivo está a ser integrado na sociedade”.

Palavras duras, mas sábias.

No âmbito de um outro ensaio, “Ex-communists”, Hannah Arendt destaca o caráter fundamental do direito à dissidência:

O direito à dissidência pertence à matéria viva como o da aprovação. Qualquer tentativa para limitar a dissidência e impor uma versão da verdade da opinião americana destruirá a democracia americana, não a salvará. A tendência para punir o discurso subversivo constitui apenas uma modalidade de métodos da polícia e apenas da polícia”.

A analogia com a descabelada tentativa em curso na sociedade americana de atacar e criminalizar a dissidência é flagrante.

O problema mais complicado resulta do facto de escassearem na sociedade americana personalidades com o substrato de experiência e só um larguíssimo ressurgimento desse espírito será capaz de contrariar a deriva em curso.

sábado, 29 de março de 2025

AÍ ESTÃO AS ALELUIAS E O VERDE DOS CARVALHOS

 



(A primavera resolveu finalmente os problemas de arranque de motores e aqui temos alguns dias para nos alertar que houve mudança no calendário, mesmo que provavelmente por pouco tempo. Mas aí está criada a oportunidade certa para verificar se as aleluias estão em linha com a proximidade da Páscoa e se o verde exuberante dos carvalhos irrompeu com a força que a entrada por abril costuma nos oferecer. Seixas está por estes dias “rica e preciosa” como dizem os vizinhos espanhóis e galegos que continuam praticamente a monopolizar a feira e a proporcionar às esplanadas aquele chilrear urbano que lhes é muito peculiar, cada vez mais acompanhados por uma cerveja que ela própria é cada vez mais a 1906, reflexo da procura vizinha. Enquanto me atualizo com as leituras do New York Times e mergulho no modo como a disrupção de Trump e companhia está a ser vista e classificada por essa administração de elite ranhosa e de mau feitio, não consigo abstrair do que os Ucranianos continuam a viver por estes dias, reféns de uma mediação complacente dos EUA para com a perfídia de Putin e seus negociadores. O limbo de uma negociação para tréguas no conflito em que os Ucranianos antecipam que serão penalizados, beneficiando o infrator, mostra com clareza como a mediação americana é complacente e apenas determinada pela vontade de Trump em proclamar publicamente para as suas televisões preferidas a suspensão das hostilidades. Putin enuncia sistematicamente novas condições, testando o mediador, mas ao tempo bajulando-o e oferecendo-lhe argumentos para o show televisivo de como foi prometido a paz está a ser construída. Afastada das negociações na Arábia Saudita a Europa, mais propriamente o eixo Paris-Londres esbraceja e faz toda a série de piruetas para que Zelensky não se sinta desprotegido, melhor dizendo, mais desprotegido do que efetivamente está..)

Entretanto, a complacência americana reflete cada vez mais uma vontade política de agradar a Putin e apostaria que por aquelas cabeças, russas e americanas, já terá passado, senão mesmo verbalizada, a ideia de poder substituir Zelensky por um lacaio qualquer, com maior predisposição para aceitar perdas de território.

O que é curioso é que têm sido propostas por alguma inteligência americana abordagens concretas para forçar a Rússia a uma maior rapidez de compromissos com a suspensão das hostilidades, dissuadindo Putin e os negociador de multiplicar as manobras dilatórias, que visam apenas ir recompondo a situação no terreno e vergando os Ucranianos a uma maior cedência de território.

É este o caso de uma proposta publicamente apresentada no New York Times por dois economistas da academia americana, Glenn Hubbard que já pertenceu ao Council of Economic Advisors e é professor na Universidade de Colúmbia e Catherine Wolfram que já trabalhou no Departamento do Tesouro americano e é professora na Sloan School of Management do MIT. A proposta é muito concreta e envolve uma modalidade avançada de sanções à Rússia, neste caso sancionando indivíduos e empresas em qualquer país que estejam envolvidos no comércio de petróleo e gás russos. A possibilidade de evitar estas sanções seria garantida com o pagamento ao Tesouro americano de uma dada importância por navio e transporte de petróleo e gás, valor que aumentaria a partir de valores baixos enquanto o acordo de paz não fosse consentido pela administração russa. A proposta dos dois economistas é que, na hipótese de recusa de pagamento por parte da Rússia, a sanção passaria a recair no proprietário do navio, empresa seguradora ou entidade compradora.

Os autores da proposta consideram que a modalidade de sanções é de uma extrema eficácia, já que poderia atingir países como a China e a Índia que se têm recusado a sancionar o petróleo e o gás russo, continuando a comerciar abundantemente com as empresas russas.

Como sabemos a exportação de petróleo e gás continua a ser a principal fonte de financiamento da guerra por parte das autoridades russa, pelo que esta modalidade de sanções, com garantia segura de que os americanos a podem monitorizar com facilidade, atingiria o coração da economia de guerra russa.

Mas a proposta parte, em meu entender, de um pressuposto errado. A complacência da administração Trump para com Putin e seu entorno imediato é real, considerando que o tempo que demorará a obter de Putin a suspensão das hostilidades mesmo que à custa dos interesses centrais da Ucrânia, é uma questão manejável. Se assim não fosse, as manobras dilatórias praticadas por Putin já teriam sido objeto de condenação mais ríspida. O poder absoluto de Putin continua a ser uma espécie de inveja obsessiva por parte de Trump. Afinal, todo o comportamento que vai sendo descrito aponta nesse sentido, numa espécie de emulação mimética de procura do seu próprio poder absoluto.

Os Ucranianos estão feitos e não apenas eles.