Os portugueses estão dominantemente desligados da política. É aliás impressionante andar pelas ruas ou estacionar num café e ouvir o que as pessoas dizem quando impelidas por alguém a pronunciar-se sobre a matéria, um exercício que tenho realizado amiúde e em diferentes circunstâncias. Daqui que retire a conclusão óbvia de que pouco ou nada irá modificar-se ou ser surpreendente – ou seja, que vencerá o status quo ou a pura lógica do mais fácil – nas próximas eleições legislativas ou nas presidenciais do início do ano que vem.
Neste quadro, tanto faz que Montenegro seja considerado maioritariamente culpado pela crise política ou que tenha feito parecer favorável à empresa que lhe forneceu betão para a casa de Espinho, porque os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente dispostos a não irem às urnas, a votarem em protesto (Chega à cabeça) ou a colocarem a cruzinha no atual chefe de Governo que ainda lá está há pouco, que até está a distribuir algumas benesses e a fazer poucos males ou que, coitado, tem direito a uma bela casa de família e a assegurar seu enquadramento profissional e o futuro dos filhos. Ademais, porque também Pedro Nuno Santos poderá insistir em não largar o caso Spinumviva ou em acusar o Governo de estar a destruir o SNS e de não ter ideias para o País que os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente centrados em vagos e criticáveis episódios governativos de que foi protagonista ou da imagem autoritária e impositiva que parece fazer passar (Lili Caneças explicou-o de forma quase lapidar).
De modo semelhante, e com todas as diferenças (que são algumas), não interessará muito aos cidadãos que o Almirante seja demagógico e vazio (não votem em mim como salvador da Pátria, não temos de ser pobres, precisamos de prosperidade, liderança e estratégia) porque, quer pela simplificada construção de imagem que garantiu aquando do processo de vacinação quer pela incipiência gritante das alternativas – já para não referir o seu aparente estatuto de “não político” e mesmo sem que algumas Teresas Violantes o venham anunciar como um “líder mobilizador pela positiva” –, ele obterá inequívoco apoio de uma significativa franja dos eleitores e fará da campanha de janeiro de 2026 um passeio traduzido num mero cumprimento do calendário que o levará até Belém.
E assim estamos. Algum mal nisso? Sim, algum, embora a coisa pudesse ser pior se um espaço efetivo se abrisse à aproximação da extrema-direita ao poder (Chega ou Passos com Chega), isto na medida em que Montenegro tem os seus defeitos bem à vista mas não parece propenso a abdicar do “não é não” e na medida em que o Almirante teve farda mas não passa de um mero deslumbrado que respeitará as regras democráticas e que não irá fazer grande mossa ao País. Qual é, portanto, o eventual problema? Pois o problema, que não é pequeno, decorre da apatia revelada pelos portugueses e das suas consequências, apatia que os leva a dissociarem-se crescentemente das questões sociais e políticas de maior incidência e impacto coletivo e a privilegiarem um desesperante individualismo e aflitivos graus de alienação – do que, digamo-lo com frontalidade, nada de minimamente auspicioso pode ser expectável numa perspetiva que vise horizontes de um outro futuro...
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