segunda-feira, 31 de março de 2025

TUDO NA MESMA COMO A LESMA

 

Os portugueses estão dominantemente desligados da política. É aliás impressionante andar pelas ruas ou estacionar num café e ouvir o que as pessoas dizem quando impelidas por alguém a pronunciar-se sobre a matéria, um exercício que tenho realizado amiúde e em diferentes circunstâncias. Daqui que retire a conclusão óbvia de que pouco ou nada irá modificar-se ou ser surpreendente – ou seja, que vencerá o status quo ou a pura lógica do mais fácil – nas próximas eleições legislativas ou nas presidenciais do início do ano que vem.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Neste quadro, tanto faz que Montenegro seja considerado maioritariamente culpado pela crise política ou que tenha feito parecer favorável à empresa que lhe forneceu betão para a casa de Espinho, porque os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente dispostos a não irem às urnas, a votarem em protesto (Chega à cabeça) ou a colocarem a cruzinha no atual chefe de Governo que ainda lá está há pouco, que até está a distribuir algumas benesses e a fazer poucos males ou que, coitado, tem direito a uma bela casa de família e a assegurar seu enquadramento profissional e o futuro dos filhos. Ademais, porque também Pedro Nuno Santos poderá insistir em não largar o caso Spinumviva ou em acusar o Governo de estar a destruir o SNS e de não ter ideias para o País que os cidadãos desligados assim se manterão impavidamente centrados em vagos e criticáveis episódios governativos de que foi protagonista ou da imagem autoritária e impositiva que parece fazer passar (Lili Caneças explicou-o de forma quase lapidar).

 

De modo semelhante, e com todas as diferenças (que são algumas), não interessará muito aos cidadãos que o Almirante seja demagógico e vazio (não votem em mim como salvador da Pátria, não temos de ser pobres, precisamos de prosperidade, liderança e estratégia) porque, quer pela simplificada construção de imagem que garantiu aquando do processo de vacinação quer pela incipiência gritante das alternativas – já para não referir o seu aparente estatuto de “não político” e mesmo sem que algumas Teresas Violantes o venham anunciar como um “líder mobilizador pela positiva” –, ele obterá inequívoco apoio de uma significativa franja dos eleitores e fará da campanha de janeiro de 2026 um passeio traduzido num mero cumprimento do calendário que o levará até Belém.

 

E assim estamos. Algum mal nisso? Sim, algum, embora a coisa pudesse ser pior se um espaço efetivo se abrisse à aproximação da extrema-direita ao poder (Chega ou Passos com Chega), isto na medida em que Montenegro tem os seus defeitos bem à vista mas não parece propenso a abdicar do “não é não” e na medida em que o Almirante teve farda mas não passa de um mero deslumbrado que respeitará as regras democráticas e que não irá fazer grande mossa ao País. Qual é, portanto, o eventual problema? Pois o problema, que não é pequeno, decorre da apatia revelada pelos portugueses e das suas consequências, apatia que os leva a dissociarem-se crescentemente das questões sociais e políticas de maior incidência e impacto coletivo e a privilegiarem um desesperante individualismo e aflitivos graus de alienação – do que, digamo-lo com frontalidade, nada de minimamente auspicioso pode ser expectável numa perspetiva que vise horizontes de um outro futuro...

Sem comentários:

Enviar um comentário