(São várias e diversificadas as tentativas da economia para se libertar do jugo do Produto Interno Bruto, em termos absolutos ou per capita, em termos de nível ou de taxa de crescimento, como variável de medida do desenvolvimento e do desempenho dos países ao longo do tempo. O objetivo deste post não consiste em mergulhar nesse mar profundo, mas bastaria recordar as tentativas do PNUDI para impor o indicador do desenvolvimento humano e a popularidade dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) para compreender essa desesperada e muitas vezes inconsequente tentativa de ir além do produto. O Economist, que anda sempre atento a estas coisas, relembrou recentemente que o World Happiness Report (Relatório Mundial da Felicidade) 2024 acaba de ser publicado e aqui temos mais uma dessas tentativas de ir além da dimensão puramente material do desenvolvimento económico. A invocação do critério da felicidade insere-se no propósito de focar a análise na satisfação que os cidadãos declaram usufruir do desempenho económico dos respetivos países e, de certo modo, procura responder à velha interrogação de tentar explicar a razão de entre os mais desenvolvidos o consumo de antidepressivos e tranquilizantes e opioides estar a aumentar de modo muito significativo. O indicador sintético de satisfação ou felicidade resulta do tratamento de uma sondagem GALLUP a uma amostra mundial de pessoas em vários países, vale o que vale e apresenta inelutavelmente todos os enviesamentos possíveis de uma consulta por sondagem aos cidadãos de todo o mundo, designadamente os riscos dos inquiridos sobrevalorizarem ou subvalorizarem as suas realizações pessoais em termos de felicidade. Entre outras dimensões, talvez não possamos ignorar que o próprio conceito de felicidade pode ser culturalmente contextualizado. Mas o objetivo deste post não aponta para uma recensão crítica do indicador, antes pelo contrário está essencialmente interessado em destacar o lugar dianteiro que os países nórdicos ocupam no que poderíamos chamar o ranking da felicidade. Por simples curiosidade, Portugal ocupa o 60º lugar neste ranking.)
É de facto curioso que os quatro primeiros lugares do índice da felicidade sejam ocupados por países nórdicos (Finlândia, Dinamarca, Islândia e Suécia, por ordem decrescente) e a Noruega ocupa o 7º lugar da escala. Também não deixa de surpreender (vá lá saber porquê) que a Costa Rica talvez o país mais democrático da América Latina se intrometa nesta contenda, ocupando o 6º lugar antes da Noruega.
Aliás, os autores do relatório atribuem especial importância ao inesperado desempenho em termos de felicidade que os latino-americanos apresentam e explicam-no sobretudo como uma consequência do ambiente de convivialidade que os inquiridos nesses países expressam, apesar da nossa visão desses países o considerar inesperado. O número de refeições realizadas em conjunto com amigos é citado como um fator impulsionador dessa convivialidade.
Para adensar as nossas dúvidas, poderemos dizer que, aparentemente, pelo menos no ponto de vista do conhecimento que temos sobre a gente nórdica, não é intuitivo que eles sejam propriamente gente de grande convivialidade e muito expressivos nessa matéria. O que explica, por exemplo, que um povo como o finlandês, com uma geopolítica pouco recomendável nos tempos que correm, esteja no topo do indicador da felicidade?
O gráfico acima mostra a mais do que esperada correlação entre produto per capita e felicidade, mas no caso dos países nórdicos é algo mais do que essa esperada correlação que estará na base da misteriosa felicidade nórdica. O modelo escandinavo é talvez o exemplo mais bem conseguido de combinação entre rendimento elevado, natureza compreensiva da proteção social, ainda relativamente equitativo mas com recuos nessa matéria, desempenho fortemente inovador e avanços consideráveis da cultura e participação cívicas. Nesta interpretação, o mistério da felicidade nórdica emerge como o resultado natural desta combinação virtuosa, evidenciando ser o modelo de capitalismo mais avançado. Mas a razão de lhe chamar mistério prende-se com o facto da felicidade surgir neste caso ligada com comportamentos de sociabilidade que não são propriamente exuberantes. E temos assim algo de contraditório: em muitos países a felicidade estará em recuo na medida em que a sociabilidade, a convivialidade e a vida em conjunto estão a regredir significativamente, ao passo que na Escandinávia o isolamento parece não ser um fator de infelicidade.
Moral da história: vou reler um dos livros que fez a delícia da minha adolescência – o Tempo Escandinavo de José Gomes Ferreira, onde me recordo de ter lido as mais sábias vivências de alguém sobre o modo de vida e de ser dos Escandinavos.
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