sábado, 29 de março de 2025

AÍ ESTÃO AS ALELUIAS E O VERDE DOS CARVALHOS

 



(A primavera resolveu finalmente os problemas de arranque de motores e aqui temos alguns dias para nos alertar que houve mudança no calendário, mesmo que provavelmente por pouco tempo. Mas aí está criada a oportunidade certa para verificar se as aleluias estão em linha com a proximidade da Páscoa e se o verde exuberante dos carvalhos irrompeu com a força que a entrada por abril costuma nos oferecer. Seixas está por estes dias “rica e preciosa” como dizem os vizinhos espanhóis e galegos que continuam praticamente a monopolizar a feira e a proporcionar às esplanadas aquele chilrear urbano que lhes é muito peculiar, cada vez mais acompanhados por uma cerveja que ela própria é cada vez mais a 1906, reflexo da procura vizinha. Enquanto me atualizo com as leituras do New York Times e mergulho no modo como a disrupção de Trump e companhia está a ser vista e classificada por essa administração de elite ranhosa e de mau feitio, não consigo abstrair do que os Ucranianos continuam a viver por estes dias, reféns de uma mediação complacente dos EUA para com a perfídia de Putin e seus negociadores. O limbo de uma negociação para tréguas no conflito em que os Ucranianos antecipam que serão penalizados, beneficiando o infrator, mostra com clareza como a mediação americana é complacente e apenas determinada pela vontade de Trump em proclamar publicamente para as suas televisões preferidas a suspensão das hostilidades. Putin enuncia sistematicamente novas condições, testando o mediador, mas ao tempo bajulando-o e oferecendo-lhe argumentos para o show televisivo de como foi prometido a paz está a ser construída. Afastada das negociações na Arábia Saudita a Europa, mais propriamente o eixo Paris-Londres esbraceja e faz toda a série de piruetas para que Zelensky não se sinta desprotegido, melhor dizendo, mais desprotegido do que efetivamente está..)

Entretanto, a complacência americana reflete cada vez mais uma vontade política de agradar a Putin e apostaria que por aquelas cabeças, russas e americanas, já terá passado, senão mesmo verbalizada, a ideia de poder substituir Zelensky por um lacaio qualquer, com maior predisposição para aceitar perdas de território.

O que é curioso é que têm sido propostas por alguma inteligência americana abordagens concretas para forçar a Rússia a uma maior rapidez de compromissos com a suspensão das hostilidades, dissuadindo Putin e os negociador de multiplicar as manobras dilatórias, que visam apenas ir recompondo a situação no terreno e vergando os Ucranianos a uma maior cedência de território.

É este o caso de uma proposta publicamente apresentada no New York Times por dois economistas da academia americana, Glenn Hubbard que já pertenceu ao Council of Economic Advisors e é professor na Universidade de Colúmbia e Catherine Wolfram que já trabalhou no Departamento do Tesouro americano e é professora na Sloan School of Management do MIT. A proposta é muito concreta e envolve uma modalidade avançada de sanções à Rússia, neste caso sancionando indivíduos e empresas em qualquer país que estejam envolvidos no comércio de petróleo e gás russos. A possibilidade de evitar estas sanções seria garantida com o pagamento ao Tesouro americano de uma dada importância por navio e transporte de petróleo e gás, valor que aumentaria a partir de valores baixos enquanto o acordo de paz não fosse consentido pela administração russa. A proposta dos dois economistas é que, na hipótese de recusa de pagamento por parte da Rússia, a sanção passaria a recair no proprietário do navio, empresa seguradora ou entidade compradora.

Os autores da proposta consideram que a modalidade de sanções é de uma extrema eficácia, já que poderia atingir países como a China e a Índia que se têm recusado a sancionar o petróleo e o gás russo, continuando a comerciar abundantemente com as empresas russas.

Como sabemos a exportação de petróleo e gás continua a ser a principal fonte de financiamento da guerra por parte das autoridades russa, pelo que esta modalidade de sanções, com garantia segura de que os americanos a podem monitorizar com facilidade, atingiria o coração da economia de guerra russa.

Mas a proposta parte, em meu entender, de um pressuposto errado. A complacência da administração Trump para com Putin e seu entorno imediato é real, considerando que o tempo que demorará a obter de Putin a suspensão das hostilidades mesmo que à custa dos interesses centrais da Ucrânia, é uma questão manejável. Se assim não fosse, as manobras dilatórias praticadas por Putin já teriam sido objeto de condenação mais ríspida. O poder absoluto de Putin continua a ser uma espécie de inveja obsessiva por parte de Trump. Afinal, todo o comportamento que vai sendo descrito aponta nesse sentido, numa espécie de emulação mimética de procura do seu próprio poder absoluto.

Os Ucranianos estão feitos e não apenas eles.

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