quinta-feira, 13 de março de 2025

VARIAÇÕES LUSO-POLÍTICAS EM TORNO DE CINISMO E LUCIDEZ

Hoje trago aos nossos frequentadores uma sugestão: a leitura da crónica de João Miguel Tavares (JMT) no “Público”, intitulada “Até quando teremos de suportar esta mediocridade?”. Curta e direta, a fala de JMT acerta na mouche da nossa atual desgraça política. E consequentemente no cerne da indiferença e/ou revolta dos cidadãos que somos.

 

O texto começa por se situar no plano do erro gigantesco que cometemos quando confundimos cinismo com lucidez. Mas logo chega à nossa circunstância política. Cito: “Ando há anos a lamentar que a política portuguesa (e não só a portuguesa) esteja a ser dominada por gente que não acredita em nada. (...) António Costa tinha uma indiscutível habilidade política e podia ter marcado profundamente o país – mas não acreditava em nada. Marcelo Rebelo de Sousa é uma das pessoas com maior capacidade intelectual a ocupar a Presidência da República – mas não acredita em nada. Luís Montenegro chegou cheio de vontade de mostrar competência e foi capaz de montar uma equipa coesa – mas só acredita na conquista e na manutenção do poder.”

 

JMT logo explicita mais profundamente o seu ponto: “Não há neles um pingo de idealismo. Nenhuma destas pessoas está interessada em levar o país do ponto A para o ponto B. Estão apenas interessados em levar-se a eles próprios de A para B – o país é somente o cenário dessa translação; a paisagem por trás da fotografia que querem pendurar nas paredes de suas casas. O problema dos cínicos que se julgam lúcidos é que reduzem a atividade política a jogos de poder improdutivos, uma espécie de maquiavelismo de quinta categoria, que em tempos difíceis como os nossos ganha contornos especialmente patéticos. Reparem em Montenegro e na gestão desta crise: tudo nele são esquemas, truques, estratégias de comunicação, táticas habilidosas, pequenas armadilhas, como se viu na ridícula tarde da moção de confiança.

 

E conclui: “O cargo existe para procurar melhorar o país que se propôs dirigir. Só que isso implica mobilizar as pessoas, e o cinismo não mobiliza ninguém. É claro que os políticos cínicos enchem a boca com grandes princípios. Mas o povo não é parvo, e sente a hipocrisia a milhas. Este país está cheio de videirinhos porque está cheio de gente sem verdadeiras convicções. Em política, o excesso de idealismo mata – fascismo e comunismo que o digam. Mas a total ausência de ideias, de princípios e de valores dá cabo dos regimes democráticos, porque entrega a política nas mãos do cinismo mais medíocre. Como se vê.”

 

Melhor descritivo da triste evidência que nos atinge, e em tão poucas palavras, será talvez possível mas afigura-se-me difícil. Ao cuidado de todos e cada um, com a devida vénia ao inspirado autor.


(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

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