quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

E LÁ SE VAI A INDEPENDÊNCIA DO FED!

 

(É deveras impressionante o modo agressivo como a administração Trump tem minado a independência de grande parte das instituições americanas, em regra apontadas como garantes dos equilíbrios políticos na sociedade americana, os tão badalados “checks and balances” que já viveram melhores dias. A ofensiva é diversificada e obedece claramente a uma agenda programada. A tentativa de controlo das redes sociais (com a cumplicidade de Musk), a agressividade para com algumas universidades, o ataque despudorado a Estados que votam Democratas (Minneapolis como ilustração maior), intromissão em instituições culturais (veja-se o encerramento “para obras” do Kennedy Center), o ensaio de controlo da justiça, a ofensiva contra as televisões e jornais que não se identificam com a cartilha de Trump, a diversidade é imensa e compreensiva. Já há muito tempo que Trump escolhera o FED como alvo preferencial, daí a ignomínia de um processo judicial contra Jay Powell, no sentido de o fragilizar e precipitar a sua substituição. A ideia é simples, mas despudorada, como tudo o que Trump decide fazer. Trata-se de ter um Banco Central, que seja a VOZ DO DONO e atue no sentido de ocultar as vicissitudes macroeconómico das decisões erráticas e por vezes contraditórias de Trump em matéria de política económica. A nomeação de Kevin Warsh para a Presidência do FED não se revestiu para Trump da mesma facilidade como que por exemplo nomeou gente para o Supremo Tribu nal de Justiça ou para agências públicas importantes, algumas das quais indicando verdadeiros coveiros para ditar a sua extinção ou apagamento. Vale a pena por isso refletir sobre as condições que rodearam a indicação de Kevin Warsh.)

O sempre perspicaz Marcus Nunes do Money Fetish é particularmente explícito quando refere a existência de um importante Banking Act de 1935 que determina expressamente que o Presidente e o Vice-Presidente do FED tenham de ser designados a partir da lista de membros do Board do FED, órgão do qual saem coletivamente as decisões sobre política monetária e política de emprego (dado o duplo estatuto de objetivos do FED). Quer isto significar que a nomeação não tem origem nem em Wall Street, na Academia ou no círculo mais íntimo de amizades do Presidente americano. Ela tem de envolver alguém que já seja Governador do FED.

Em 31 de janeiro de 2026, o lugar de Stephan Miran um consultor económico da Casa Branca que Trump indicara para Governador, expirou abrindo uma vaga que Warsh ocupará para viabilizar posteriormente a sua indicação para Presidente.

Warsh não é um economista desconhecido, o que permitiu a especialistas em comunicação avaliar o teor das suas posições públicas em matéria de política monetária (pese embora a existência de períodos em que Warsh não se referiu ao assunto), pronunciando-se sobre as decisões do Board do FED. As conclusões dessa análise apontam para o pior possível em termos de respeito pela independência do Banco Central. As palavras de Krugman são elucidativas do que vem por aí a propósito do FED: “Ele apoiava a política monetária restritiva quando os Democratas estiveram no poder, mas apoiava a emissão monetária quando os Republicamos ocuparam a Casa Branca”. Em linguagem de mercados e de política monetária, o homem passa de falcão a pomba para servir o seu amo e senhor.

São aliás conhecidas algumas estranhas posições de Warsh. O caso mais flagrante aconteceu quando, em 2015, tentou justificar a política monetária restritiva numa conjuntura de inflação baixa e de emprego fraco.

Quer isto significar que teremos um Presidente do FED disposto a servir o seu Amo e Senhor, o que não significa necessariamente que ele possa influenciar totalmente as decisões do Comité, já que o número de Governadores atuais que prezam a independência face ao Governo ainda são maioritários. Recorde-se que os tribunais barraram a decisão de Trump de querer afastar a Governadora Lisa Cook. Tudo isto até que Trump consiga aproveitar eventuais termos de mandatos para ir substituindo as tropas e acomodar a composição do Comité às suas intenções.

Será que os manuais de política monetária e dos bancos centrais terão de ser revistos?

Esperemos que a presidência de Warsh seja só fumaça. Ressalve-se, entretanto, a coriácia Presidência de Powell, bem melhor e mais apetrechada do que se vaticinava quando foi indicado.

 

 

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