Ontem participei com enorme gosto na sessão de homenagem ao Engenheiro João Cravinho (JC) que ocorreu na FEP no âmbito de uma iniciativa do Professor José Reis (Faculdade de Economia de Coimbra) visando simultaneamente um tributo ao servidor da causa pública e o estudo da sua obra pelas universidades portuguesas. A sessão em causa fez parte de um ciclo, intitulado “Uma Obra Imensa”, que decorreu nos últimos meses na Universidade de Coimbra, no ISEG, no ISCTE, agora na FEP e proximamente na Universidade do Algarve.
Foi-me solicitada uma intervenção subordinada ao tema “João Cravinho e o pensamento progressista antes e depois do 25 de Abril” e assim procurei fazer recorrendo ao meu conhecimento próximo da pessoa e da sua multifacetada atividade, subdividindo a sua vida profissional em dois períodos, um anterior e outro posterior à sua maior visibilidade pública (desde que foi Ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território do primeiro governo de António Guterres até ao seu desaparecimento em 16 de abril do ano transato). Não me alonguei, portanto, sobre estas três décadas mas a elas me referi sublinhando as quatro dimensões em que JC foi mais ativo e, por vezes, incompreendido: as Obras Públicas (designadamente a ferrovia, a desagregação da JAE, o novo aeroporto de Lisboa ou o Alqueva, sempre com os fundos europeus e a comissária alemã Wulf-Mathies à perna), o Combate à Corrupção (onde o “profundo mal-estar do PS” levou a que se afastasse da vida política e parlamentar – “foi dos maiores choques da minha vida”), a Troika e a Dívida (a mobilização em torno do Manifesto dos 74 ficou a marcar esta fase, durante a qual também escreveu um livro sobre o tema) e a Descentralização/Regionalização (comandando e levando a bom termo os trabalhos de uma “Comissão Independente para a Descentralização” cujo relatório permanece nas gavetas do poder executivo após uma vergonhosa desconsideração por parte do então primeiro-ministro António Costa).
Depois mais atenção, portanto, ao período precedente, aquele que se estende da sua licenciatura em Engenharia Civil no Técnico (1959), passa pelo 25 de Abril e tem especial refinamento pensante nos anos 80 do século passado. Num paralelismo algo abusivo chamei a este trajeto que forjou o homem, o intelectual e o decisor público o do “Jovem Cravinho”. No plano político, tive oportunidade de enumerar a sua participação no MES e a sua prematura saída em dezembro de 1974 com o “Grupo do Florida” de Jorge Sampaio, a sua assunção da função de Ministro da Indústria e Tecnologia do IV Governo Provisório (onde teve como Secretário de Estado João Martins Pereira, o executor das nacionalizações de grandes empresas industriais) e a sua intervenção no GIS e a aproximação e adesão (1978) ao Partido Socialista. No plano da reflexão, os meus recortes permitiram-me recuperar contributos inestimáveis de JC em áreas como as dos modelos de sociedade, da política económica (a política restauracionista da AD ou, como alguns se lembrarão o vivo debate em que participou sustentando que “travar a desvalorização do escudo é sacrificar o setor exportador”), da adesão à CEE (“transferência de recursos necessária mas não suficiente” ou “subdesenvolvimento tecnológico como elo fraco”), do investimento e planeamento (“transformações planeadas”, sempre!), da política industrial (substituição de importações, novo protecionismo para a indústria nascente, “não sou partidário do abandono das indústrias tradicionais mas da eliminação rápida dos produtos tradicionais das indústrias tradicionais”, “quem não fez a segunda revolução industrial não fará a terceira” ou “o desafio da convergência das produtividades”) e da liderança e gestão das empresas (“é preciso criar uma nova classe empresarial”).
E por aqui andei numa digressão que não procurei apenas encher de lados substantivos mas em que também recorri a aspetos curiosos ou pitorescos. No essencial, procurei até ao limite do meu saber deixar um testemunho de amizade e gratidão a um homem especial a quem não foi dado, apesar de tudo, o valor devido em função do modo como conseguia aliar inteligência e competência com inconformismo e generosidade. Mantendo sempre um incontornável livre-arbítrio (“faculdade de decidir de acordo com a própria vontade”), talvez melhor do que independência, e um enorme sentido do coletivo.


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