A cena de ontem na Assembleia da República protagonizada pelo deputado do Chega Filipe Melo (FM) a partir da mesa da presidência parlamentar e indiretamente pela deputada Isabel Moreira enquanto destinatária passiva das atrocidades de FM, e à qual assistimos através de imagens televisivas que só consigo qualificar de repugnantes, conduz o estado da vida política portuguesa atual a um grau nunca antes atingido de baixeza pessoal e degradação democrática. Escasseiam as palavras para descrever os caminhos de impunidade e vale tudo que nos indicam estes sujeitos desqualificados que muitos dos nossos concidadãos insistem em validar como seus representantes – uma situação que cada vez mais me mergulha num sentimento de incompreensão perante o País, de brandos costumes e outros vícios mas que me fazia dele orgulhoso e nele incluído.
sábado, 27 de setembro de 2025
JÁ VALE TUDO OU A INOCÊNCIA DE UM BEIJINHO...
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
INTERDEPENDÊNCIAS MALÉVOLAS
(O processo de decisão política em Portugal, veja-se como exemplo o descompensado arrastamento do investimento do novo aeroporto, no qual estou certo irromperão obstáculos diversos no seu aparente já decidido caminho, é uma forma muito nossa da máxima Lampedusiana de alguma coisa tem de mudar para ficar tudo na mesma. Esse atavismo de protelamento de decisões tem algo de kafkiano pois a um cidadão comum, mesmo que dotado de alguma informação técnica, é difícil compreender o argumentário que vai atrasando a decisão. Este é também o caso que atravessa toda a programação ferroviária em Portugal, que implica como sabemos a decisão de realizar os novos investimentos, designadamente da Alta Velocidade, em bitola ibérica ou internacional, alinhando neste último caso com a opção europeia já largamente implementada. O cidadão comum diria que, embora ponderando os custos, a bitola internacional é a recomendada, pois estamos a falar de um tempo em que a integração europeia é cada vez mais crucial e de areias na engrenagem já outros se encarregam amplamente de criar. Pois parte da nossa “ilustre” engenharia ferroviária continua a defender que é possível uma solução de compromisso, ai a nossa maldita mania da especificidade, permitindo a todo o tempo adaptar a solução da bitola ibérica à internacional. O que para mim ressalta claramente desta posição é que a nossa engenharia ferroviária atribui maior prioridade à compatibilização da rede de alta velocidade com a restante rede ferroviária em detrimento da aposta efetiva na integração e alinhamento com a opção da bitola europeia. Mas a argumentação defensiva praticada envolve também a invocação da posição das autoridades espanholas e o risco de sermos surpreendidos por uma eventual opção pela bitola europeia encontrar nas zonas fronteiriças espanholas uma eventual opção pela bitola ibérica. Para seguir este imbróglio que vai protelando a decisão política, vale a pena continuar a ler os jornais espanhóis, se não fora por outros motivos para que não nos tomem por parvos.)
Quem segue como eu com alguma regularidade a vida política e económica galega, hoje mais por curiosidade intelectual do que por questões de trabalho profissional, que não tem existido nessa matéria, conclui rapidamente que existe aqui uma interdependência malévola, incompreensível e manhosa, pois estamos a falar de uma relação diplomática e política que é fluida e que não suscita obstáculos de monta. A não ser os que as administrações inventam para justificar o atavismo das suas decisões.
A VOZ DE GALICIA de hoje volta ao assunto, dando conta que a região galega está como não pode deixar de ser a ponderar o futuro da sua rede de alta velocidade, já que o AVE (TGV espanhol) já chegou a Ourense e através dos comboios AVRIL está já conectada com as restantes cidades do eixo atlântico. Nessa ponderação está integrada a opção da substituição da bitola ibérica pela internacional, quer na ligação Vigo-Santiago-Corunha, quer na ligação entre Santiago e Ourense. A opção pela bitola europeia-padrão é não só defendida pela Comissão Europeia na sua projeção do futuro do Eixo Atlântico, quer mais recentemente pela Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência que, na sua leitura dos obstáculos ao desenvolvimento do transporte ferroviário, opta claramente pela bitola europeia.
Mas a situação não é tão clara como isso, pois o Governo de Madrid (Ministério dos Transportes) e a própria ADIF (empresa ferroviária) invocam dificuldades técnicas para a opção e, mais do que isso, escudam-se na posição portuguesa de manter internamente a solução da bitola ibérica. A interdependência malévola é tão clara que se torna irritante. Pela banda de cá, invoca-se o risco de o parceiro vizinho poder decidir pela ibérica para não optar desde já pela europeia. Da banda de lá, toma-se como garantido que em Portugal a opção é de manter a bitola ibérica. A isto chama-se impunemente brincar com a inteligência do cidadão comum. O iberismo significa isolacionismo a nível europeu e a falta de ambição para o Noroeste peninsular é de bradar aos céus. Continuo não convencido pela solução da adaptabilidade que a nossa engenharia tanto apregoa como a solução de compromisso mais sensata.
Uma vez mais o atavismo da decisão política se manifesta no seu esplendor. E o que é mais lamentável é que nem a existência de autonomia regional do outro lado da fronteira nesse Noroeste supera o problema.
O bem informado jornalista da VOZ Pablo González coloca pertinentemente a questão: “A pergunta que deve ser feita é se a Galiza tem de submeter-se aos interesses domésticos de Portugal?”
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
A CHINA VISTA POR UM ESPECIALISTA
(Nas condições atuais de desestruturação da economia mundial, nunca foi tão importante como hoje compreender a evolução e o atual estado da arte do modelo de crescimento económico chinês. Pode ser uma tarefa difícil compreender de fora esse modelo, mas uma coisa sabemos. As decisões quanto ao modelo económico não são lá seguramente tomadas com a leviandade e ligeireza com que a administração Trump as toma diariamente, confundindo patologicamente evidência com invenção, aliás como cabalmente o demonstrou perante o mundo a sua incrível prestação na Assembleia Geral das Nações Unidas. Por isso, reunir conhecimento sobre as vicissitudes que o modelo chinês hoje enfrenta constitui uma sábia maneira de compreender os rumos da economia mundial. Tudo isto vem a propósito de uma notável entrevista no ECONOMICS SHOW do Financial Times de Martin Sandbu a Michael Pettis, economista, residente na China desde 2001 e professor na Universidade de Pequim, um conhecedor profundo do modelo chinês, com sólida formação em economia e um amplo conhecimento dos meandros da economia mundial em diferentes épocas históricas. Podem ler a transcrição rigorosa da entrevista aqui, mas se preferirem a versão áudio poderão também ouvi-la aqui. A entrevista é sobretudo relevante porque nos fornece um enquadramento sólido e rigoroso da evolução da economia chinesa. E o que é curioso é que, sendo Pettis alguém com grande experiência internacional e ter dedicado alguns anos da sua vida ao modelo latino americano, ele reconhece a especificidade do modelo chinês, embora refira que o conhecimento aprofundado dos mecanismos de crescimento das economias em vias de desenvolvimento o ajudou bastante a construir a sua própria visão do modelo chinês. Música celestial para os ouvidos de alguém como eu que nunca esqueceu o legado da economia do desenvolvimento e sempre que pode o aplica com gosto e vantagem. Resta dizer que a qualidade do jornalista Martin Sandbu entra positivamente na equação, tornando a entrevista um notável exemplo pedagógico de compreensão da economia mundial de hoje.)
A principal razão para no início da década de 2000, a China se ter transformado num país poderoso em termos de poupança disponível para investimento está no facto de durante as décadas de 90 e posteriores ter crescido em termos médios a taxas anuais de 10 e 11% e, simultaneamente, o rendimento das famílias ter evoluído a taxas entre 6 e 7%. Em apenas 15 a 20 anos (uma concentração temporal espantosa), a máquina de investimento proporcionada pelas condições de poupança e o elevado contributo dinâmico dos governos locais passou por três fases – a da infraestrutura, largamente potenciada pela pobreza do país e o estado péssimo da sua dotação infraestrutural, a da habitação-imobiliário largamente associada à explosão urbana e, finalmente, a da indústria transformadora e nos tempos mais recentes na espantosa evolução nas tecnologias verdes e elétricas.
Todo este esforço sem precedentes históricos de investimento gerou um fenómeno alargado de excesso de capacidade, primeiro de infraestruturas que os aumentos possíveis de produtividade não conseguiam absorver, depois sob a forma de uma bolha imobiliária e, atualmente, com uma capacidade de exportação de manufaturados e tecnologia que suscita problemas de absorção a nível mundial.
O modelo chinês deste período gerou um problema conhecido de avanço tecnológico e de crescimento da produtividade que, ou se transmite a um enriquecimento de trabalhadores e com isso a um aumento significativo do consumo e tende a endogeneizar na economia os benefícios, ou tenderá a reverter para o exterior através dos países que importarão essa tecnologia.
Mas a parte da entrevista que mais me seduziu é a invocação que Pettis realiza do conceito de “beggar my neighbour” (à custa do vizinho ou parceiro comercial) que Joan Robinson cunhou com a perspicácia que lhe era própria. A manutenção de excedentes comerciais permanentes, designadamente através de um impulso fortemente subsidiado da indústria transformadora (atualmente indústrias verdes e elétricas) tende a aumentar o peso da China na oferta mundial de produtos dessa natureza, com a inevitável formação de países deficitários nessa matéria, o que mais tarde ou cedo significa conflitualidade comercial que, regra geral, não fica por aí. Esse é o drama da economia americana.
Ora, uma coisa é a poupança chinesa servir para acomodar o défice de poupança americano, outra coisa bem diferente é a China poupar mais, ter excedentes comerciais e comprar ativos americanos para o compensar. Mas mesmo no primeiro caso não é líquido que o contributo da poupança chinesa seja utilizado nos EUA como meio de investimento produtivo.
A estrutura da economia mundial é assim marcada por um conjunto permanente de países comercialmente excedentários e de países deficitários. O problema não está na existência de excedentes e de défices, mas sim na sua permanência sem qualquer rotação. A rigidez temporal desta divisão tem obviamente consequências estruturais. Por exemplo, nos EUA é clara a transferência da indústria transformadora para os serviços, incluindo os globalizados, nos quais a economia americana é líder. Essa transferência tem em parte que ver com a evolução tecnológica e com o aumento de produtividade da economia americana. Mas há uma dimensão que está inevitavelmente relacionada com a deslocalização de indústrias para outros países. Na China, pelo contrário, o peso da indústria transformadora tende a ser superior à média mundial para níveis similares de desenvolvimento económico.
Tal como Keynes magistralmente o antecipou discutindo a situação mundial do pós-Segunda Guerra Mundial, a existência de excedentes permanentes coloca problemas de balanceamento mundial e exige um movimento de regulação. A via dos direitos aduaneiros escolhida por Trump constitui o lado errado da solução e tende a agravar a conflitualidade. Existe, por conseguinte, um problema de governação e regulação mundial que só numa lógica multilateral é possível construir, ao contrário do que Trump pensa, que optou pela unilateralidade e pelo “bullying” comercial. A consequência mais natural será o aumento do desemprego industrial nos EUA, que irá contrariar as parangonas do seu discurso político.
Alguns economistas como Noah Smith têm vindo a reconhecer que a China através da sua aposta verde e elétrica e do embaratecimento dessas tecnologias, designadamente nas suas exportações para as economias em desenvolvimento, está hoje a compensar a sua forte influência na emissão de gases com efeito de estufa. Esta dimensão é crucial porque permite a esses países crescer sem a geração de danos ambientais que os países que os antecederam tendiam a provocar com outras tecnologias. É um dado positivo, mas não permite ignorar que a permanência de excedentes comerciais externos é um fator de perturbação e conflitualidade no comércio mundial.
Estou convicto de que seria sempre melhor envolver a China numa negociação séria para o rebalanceamento dos desvios comerciais externos do que a obrigar a entrar no domínio da guerra comercial. Por este e por outros motivos, a administração americana é hoje uma ameaça à paz mundial, não apenas Putin o é. E talvez por isso o presidente americano é tão bobo e complacente com o ditador russo.
NOTÍCIAS DA AMÉRICA OU A LOUCURA DOS DEUSES
Nova Iorque, Assembleia Geral das Nações Unidas, por estes dias. Um meeting em que quase tudo pode acontecer ou ser dito. Onde está Trump, o selvagem arrasador da ordem internacional de que a ONU foi parte determinante, já quase nada espanta. Ainda assim, não deixa de ser irritante ouvir a sua prosápia contraditória, convencida e mentirosa e, mais do que isso, não deixa de ser inaceitável que outros líderes joguem com isso na expectativa de ganhos que serão sempre imediatos – e a verdade parece ir no sentido de que a ideia de lhe virem a patrocinar um Nobel da Paz vai fazendo o seu caminho...
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
O VERNIZ DE FERNANDO ALEXANDRE
(Estou à vontade porque em diferentes oportunidades neste blogue destaquei o lugar diferenciado que o Ministro da Educação Fernando Alexandre ocupa no governo de Luís Montenegro, especialmente pela sua vontade reformista e por não estar manietado pelo pensamento dos Senadores da Educação em Portugal, que são em meu entender a antítese da mudança e a mais pura manifestação dos interesses estabelecidos com a Universidade à cabeça. Mas o ministro não tem tido vida fácil, não só porque trabalha com uma máquina infernal, que tem destruído muitas personalidades políticas, mas também porque a diversidade das reformas a empreender é tal que mais tarde ou mais cedo causa dano em termos da resistência física de quem está ao leme. Nos tempos mais recentes, o impulso reformista de Fernando Alexandre tem sido atraiçoado por desempenhos que não estão em linha com o seu discurso, por exemplo a percentagem de Escolas em que existem alunos sem pelo menos um professor, que contrariam o seu otimismo na abertura das aulas, e por deslizes de pensamento que ficam mal num democrata reformista. Foi o caso da sua reação demasiado a quente no caso que envolveu a Faculdade de Medicina do Porto e a Reitoria da Universidade do Porto, no qual com um pouco de calma compreenderia rapidamente que a Direção da Faculdade de Medicina do Porto meteu a pata na poça, veremos o que dá a averiguação sobre a denúncia de que terá existido viciação de atas. Foi também a sua esdrúxula posição perante alunos do ensino secundário de que os professores perdem a sua aura por participarem em manifestações. Diria que o verniz estalou, espero que não em magnitude suficiente para estragar toda a pintura e fica mal a um ministro reformista condenar os professores ao silêncio da não participação cívica.)
O infeliz comentário sobre a perda da aura dos professores pelo simples facto de se manifestarem publicamente é objeto de uma crónica contundente de Daniel Oliveira no Expresso online, pelo que me dispenso de elaborar sobre o assunto. A condenação dos professores ao silêncio cívico tem profundas repercussões no tipo de Escola que eles poderão ajudar a construir e a mensagem é sobretudo grave pelo facto de ter sido expressa perante alunos, cuja capacidade crítica e reflexiva tem de ser estimulada, sob pena de serem presa fácil de toda a alienação que circula por aí, internacional e nacionalmente falando.
Já que falamos da aura dos professores, fica também em causa a aura reformista do ministro, sendo por isso necessário monitorizar com mais atenção a sua prestação. Reformismo e encolhimento cívico é coisa que não casa bem.






