quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

AO TERCEIRO DIA: MERCADOS, BANCOS, ALEMÃES E SOCIAL-DEMOCRATAS





Eis o mundo perfeito a funcionar como um relógio! “É a vida”, como gosta(va) de dizer Guterres citando Salgado Zenha...

E VOAM!


O “Le Monde” dava conta de que, no quadro da muita azia que o ajustamento digestivo aos resultados eleitorais na Grécia está a provocar na Europa, só os responsáveis irlandeses vieram declarar apoio ao projeto de Tsipras no sentido de uma conferência internacional sobre a dívida grega (e, parece-me óbvio, do conjunto da Zona Euro). E vem-nos à cabeça uma pergunta ingénua: então e os nossos meninos? Bom, esses, parece que não existem, serão no máximo protagonistas feitos figurantes de um pesadelo timidamente acondicionado num conto de crianças bem comportadas...

ESTOURO À VISTA?


Na esteira de outros economistas muito críticos em relação à Zona Euro, seja quanto ao seu lançamento seja quanto à sua arquitetura institucional seja quanto ao seu funcionamento concreto, Joseph Stiglitz (JS) veio há dias reafirmar sem hesitações a ideia de que “a Alemanha é o problema, não a Grécia”.

Retenhamos algumas declarações mais incisivas sobre algo que JS quis designar por “experimentação”. Primeiro, quanto aos preliminares (“foi um erro no princípio [a criação do Euro], isso foi claro” e “a esperança era que, por terem uma moeda partilhada, crescessem juntos”). Depois, quanto ao observado (“a Grécia cometeu uns poucos de erros... mas a Europa cometeu erros ainda maiores”, “as políticas que a Europa impôs à Grécia simplesmente não funcionaram e tal foi também verdade para Espanha e outros países” e “a receita que foi passada era venenosa – conduziu ao crescimento da dívida e à quebra da economia”). Em seguida, quanto aos seus talvez mais gravosos e profundos efeitos (“nada dividiu mais a Europa do que o Euro”). Aqui chegado, quanto à possibilidade atual de se corrigir a trajetória (“conseguem fazê-lo funcionar?”, “existe um curso alternativo” e “há toda uma agenda económica inacabada com que a maioria dos economistas concordam, exceto a Alemanha que não”). Por fim, quanto a saídas menos construtivas (“se a Grécia sair, eu penso que na verdade a Grécia fará melhor – haverá um período de ajustamento, mas a Grécia começará a crescer” e “a maioria dos economistas vai dizendo que a melhor solução para a Europa, se tiver que se desintegrar, é que a Alemanha saia – o marco valorizar-se-ia e a economia alemã seria objeto de um chuveiro de água fria”).

Entretanto, recomeça a cheirar a esturro ou a aproximação de borrasca da grossa...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

MEMÓRIAS E MEMÓRIA



Os leitores deste blogue já se aperceberam que o tema da memória e das memórias me fascinam, com especial paixão pela literatura que trata o tema. Jorge Semprún é um dos meus autores de eleição, gosto especialmente de Le Fer Rouge de la Mémoire, lido em francês tem outro encanto, especialmente porque ele próprio com experiência vivida de Buchenwald sempre intuiu que a perceção do que foram os campos de concentração nazi será substancialmente diferente quando desaparecer o último sobrevivente e não tivermos acesso aos testemunhos que foi ainda possível recolher ao vivo no aniversário de Auschwitz que esta semana a imprensa nacional e internacional documentaram: “A memória é o melhor recurso, mesmo que isso possa parecer paradoxal à primeira vista. O melhor recurso contra a angústia da recordação, contra o abandono, contra a loucura familiar e surda. A criminosa loucura de viver a vida de um morto”.
É também nessa senda que, como iniciação algo receosa, tenho mergulhado nos últimos dias nas obras mais pequenas de Patrick Modiano, edições de bolso ou quase, que também a trata as memórias de juventude e adolescência (Un Pedigree - Folio) ou a perda da própria memória (Rue des Boutiques Obscures, Gallimard).
Hoje, numa descontraída viagem de Alfa de Lisboa para o Porto confrontei-me de novo com o tema através de uma comovente entrevista de António Lobo Antunes a Francisco José Viegas na LER, cada vez mais despojado, cada vez mais seguro que os grandes escritores não dão grandes entrevistas, cada vez mais rendido ao ato redentor da escrita, representado na frase de Faulkner que ALB cita com especial deleite: “Faz-nos levantar sobre as patas de trás e projetar uma enorme sombra”. Fala com mágoa do desaparecimento das livrarias de escritores como Alves Redol e Fernando Namora (a segunda morte e o seu esvaziamento na memória das pessoas) e da perecível memória dos livros:
“(…) E eu pensava sempre: “Vão ficar os livros, vou ficar vivo através dos livros. Mas ninguém fica vivo através dos livros. Os livros podem ficar mas são independentes de nós. Oxalá fiquem. Mas os livros não ficam o tempo todo. Dos 10 dramaturgos de que Aristóteles fala não sobra nada. (…)”

NOTÍCIAS DA REPÚBLICA HELÉNICA (II)


O que quer que o futuro lhes e nos reserve, as capas dos jornais gregos de hoje não deixam de assinalar um momento histórico: em plena Europa, uma vitória nas urnas de uma coligação de partidos tidos por não muito ideologicamente alinhados com a democracia na sua estrita expressão tradicional. O resto foram ainda apenas sinais desencontrados, entre a eficiente formação de um governo pequeno e de coligação com a direita nacionalista, um primeiro-ministro que chega à posse a pé e sem gravata (soixante-huitard, Augusto?) e membros do governo que prestam diferentes juramentos (só civil uns, também religioso outros), a assunção de uma homenagem formal às vítimas do nazismo e anúncios de decisões/posições polémicas (aumento do salário mínimo, reposição de eletricidade gratuita para alguns cidadãos e anulação de privatizações, no plano interno, e manifestações de distância em relação a um endurecimento da União Europeia contra a Rússia, no plano externo). Se verá, não sendo de todo de excluir a possibilidade de a esquerda democrática e socialista vir a tornar-se um agente ativo na abertura de portas indesejáveis ou até aterradoras...

RÉPLICAS (2)



À boleia do post do meu colega de blogue
Agora que Tsipras tomou posse, sem gravata e sem juramento religioso, configurou um aparentemente estranho acordo de governo com a direita nacionalista grega e que constituiu governo, tudo isto em menos de três dias o que é obra, é natural que as réplicas das grandes decisões de 22 (BCE) e de 25 de janeiro (eleições gregas) se concentrem na incontornável questão da dívida grega (anulação parcial ou renegociação de taxas e maturidades.
Até agora os argumentos para uma não reestruturação com anulação parcial da dívida têm-se concentrado praticamente em duas linhas de raciocínio, que não são novas e que não correspondem a uma grande e refinada elaboração.
O primeiro argumento é o do risco moral (ou também conhecido na literatura económica por moral hazard). Em termos simples, o argumento do risco moral diz-nos que a anulação parcial de dívida (curiosamente a terminologia para o mundo menos desenvolvido muda passando a perdão da dívida!) aumenta o risco dos devedores persistirem na tripa forra, ou seja no rumo do endividamento como saída fácil e substitutiva de ganhos consistentes e continuados de produtividade e competitividade para alternar períodos de défice externo com períodos de excedente comercial. A aplicação do conceito de risco moral tem na literatura económica, sobretudo das crises financeiras, uma maior aplicação em processos centrados em agentes financeiros e não em países, como sucede com esta argumentação que considera os gregos incapazes de usar virtuosamente a referida anulação parcial da dívida. A linha de argumentação é frágil porque pressupõe total ausência de monitorização dos efeitos da decisão, bem como ignora os termos que uma negociação desta natureza e envergadura pode determinar.
O segundo argumento aponta para razões de má vontade, instabilidade ou mesmo de arma política na decisão de recusar a anulação parcial da dívida. A linha de argumentação que merece alguma atenção é a que se prende com a incapacidade política de alguns países do Norte para conter a animosidade de alguma direita nacionalista mais radical que capitaliza os mais sórdidos sentimentos quanto ao estilo de vida e de administração dos gregos. Não parece que tenha sido a Grécia a determinar a emergência política de tais forças e de tais sórdidas incapacidades de compreender a diversidade cultural da União Europeia, mas antes a carência de elevação e de estratégia de futuro na condução do projeto europeu. A moral da relação que determina uma dívida não responsabiliza apenas quem se endivida, mas também quem empresta.
Perante estes argumentos de débil consistência, é natural que releve hoje aqui a lúcida defesa de uma anulação parcial de dívida com processos de modernização de administração pública e de accountability na sociedade grega que podem ser negociados como condicionalidade, protagonizada curiosamente por um dos mais fervorosos adeptos da globalização, Martin Wolf, cronista emérito do Financial Times, assina neste jornal uma das mais convincentes defesas dessa anulação parcial com condicionalidades.
A argumentação de Wolf distingue-se dos argumentos de sinal contrário por adotar uma perspetiva global dos ganhos e perdas associados aos efeitos sobre a estabilidade/instabilidade do euro. Ou seja, o problema da escolha da solução mais sábia não deve ser resolvido apenas do ponto de vista do que será melhor para a Grécia, mas tendo em conta globalmente as vantagens e desvantagens para a zona euro. Wolfe calculou a percentagem da ajuda União Europeia /FMI à Grécia que representa efetivamente um financiamento direto ao governo grego. E conclui que apenas 11% dos empréstimos pós Troika cumpriram essa função, numa soma total equivalente a cerca de 2/3 dos 177% do peso da dívida grega no PIB. O restante visou sobretudo evitar o não pagamento dos mais arriscados empréstimos ao governo e aos bancos gregos.
Com base neste contexto, Wolf distingue entre a sábia e correta decisão (a anulação parcial com condicionalidades que potenciem a desejada modernização e accountability), a decisão politicamente correta (extensão de maturidades e flexibilização de taxas sem mexer no valor facial da dívida) e a decisão perigosa (mandar os gregos às malvas e forçar a via punitiva da saída). E a escolha de Wolf vai para a decisão sábia e correta, sobretudo porque ela é a única que combate consistentemente a perceção de que a zona euro pode ser destruída por processos especulativos, ou seja que a união monetária não é uma construção irreversível.
Que possamos encontrar no Financial Times uma das mais consistentes defesas da anulação parcial de dívida já não me espanta. É simplesmente o resultado (e a outra face da mesma moeda) da mais irracional insensibilidade à monitorização necessária de um dos mais escabrosos programas de ajustamento macroeconómico. Cheira-me que do ponto de vista da arte da negociação assistiremos a um desenvolvimento histórico. O problema é se a dimensão e estatura dos negociadores estará à altura do desafio. É que não ponho as mãos no fogo sobre a possibilidade desta gente ter entendido bem as lições das negociações travadas no período entre 1919 e 1939 e sobretudo da batalha travada por Lord Keynes para explicar aos seus parceiros de negociação que, cito a síntese iluminada de Bradford DeLong, “para que uma economia mundial de mercado seja estável e próspera, o ajustamento dos desequilíbrios macroeconómicos precisa de ser assumido simetricamente pelos países excedentários e deficitários e não apenas por estes últimos.”
Ou seja, uma questão de sabedoria, de aprender as lições da história, de sentido global do projeto do euro.

A FRASE DO DIA