domingo, 2 de agosto de 2026

O ALVO A ABATER

 

(Sim, os acontecimentos de Ceuta são trágicos, mais trágica ainda é a ausência de perspetivas para aqueles jovens marroquinos que cederam à sedução das redes sociais que, ardilosamente, lhes transmitia a ideia de que se abriram uma oportunidade no minúsculo território de Ceuta e sabe-se lá uma via para chegar a outros sítios. Sedução tão poderosa que os fez arriscar a vida, mais de sessenta assim morreram, nadando cerca de meio quilómetro para chegar em massa e surpreender as autoridades. Tudo isto é trágico, assim como é lamentável a reação de alguns países europeus. Mas, este Vosso Amigo, nada propenso a interpretações cabalísticas, não pode deixar de reconhecer que neste caso há uma convergência de situações, que são objetivas e não simples produtos da imaginação. Enumeremos alguns dos factos que me conduzem a essa conclusão. Marrocos está numa deriva próisraelita, com aproximações aos EUA de Trump sobretudo devido à posição americana quanto à Frente Polissário. O ideário MAGA está, por sua vez, apostado em desmantelar tudo o que aos seus olhos seja interpretado como radicalismo de esquerda, sobretudo porque lhes interessa associar os democratas mais progressistas a essa chancela, reinventando o fantasma do comunismo que os Republicanos sempre acionaram quando se sentem apertados nas próximas eleições. O governo de Espanha liderado por Pedro Sánchez, sobretudo por via do processo de regularização de cerca de quinhentos mil imigrantes ilegais existentes em Espanha que conseguiu politicamente implementar, começou a ser olhado com desconfiança e agressividade por Trump e seus parceiros. Sánchez tem replicado na mesma moeda e tem emergido como o líder europeu que mais tem batido o pé à prepotência americana.)

A imagem disseminada por todo o mundo de cerca de sessenta mil marroquinos a chegar às praias de Ceuta corresponde à necessidade irreprimível do movimento MAGA de mostrar ao mundo o que é que o presumido radicalismo de esquerda significa em termos de posições favoráveis à imigração. Toda aquela operação de corrida de natação para o desconhecido não teria sido possível sem a indiferença cúmplice das autoridades marroquinas. Apesar do extremo cuidado diplomático com que as autoridades espanholas depositaram as suas críticas não nas autoridades marroquinas, mas nas redes de tráfico humano a operar a partir de Marrocos, isso não apaga a indesculpável complacência com que as autoridades marroquinas assistiram à debandada em massa dos seus jovens à procura de um futuro. Claro que, mesmo considerando que quase imediatamente a grande maioria dos que chegaram com saúde à costa de Ceuta foram reencaminhados para a fronteira com Marrocos, lá tivemos a sacrossanta comunicação pública do presidente da Câmara Municipal de Ceuta e do líder do PP Nuñez Feijoo zurzindo em Pedro Sánchez e pintando a figura de que Ceuta está ainda invadida por imigrantes famintos, doentes e descoroçoados pela ilusão que lhes foi criada.

Para complicar a situação criada e adensar a confusão propensa a toda a série de aproveitamentos políticos, o Supremo Tribunal de Justiça espanhol, que manifestamente não é favorável ao governo de Sánchez, resolver produzir um acórdão que versa sobre o seguinte: “O Tribunal Supremo espanhol anunciou a 08 de julho que interpretou a disposição da Lei de Estrangeiros sobre rejeição de imigrantes ilegais na fronteira ("devoluções a quente") como aplicável apenas quando o migrante transpõe "elementos de contenção" física, como saltar uma vedação. Como não existem barreiras físicas no mar, a quem entra a nado em Ceuta (ou no enclave de Melilla) deve aplicar-se o procedimento de devolução ordinário - com direito a entrevista e possibilidade de pedido de asilo - sem procedimento sumário de rejeição na fronteira.”

Vá lá saber-se que motivos levaram o Supremo Tribunal de Justiça espanhol a reafirmar esta posição neste mês de julho. Sem surpresa, o ACNUR admitiu recentemente que a decisão judicial espanhola pode ter estimulado o afluxo em massa de imigrantes a Ceuta. Temos assim um caldo de fatores verdadeiramente explosivo. Apesar do regresso também em massa de grande parte dos recém-chegados, o objetivo central foi alcançado. Aquelas imagens de invasão a nado de jovens marroquinos foram disseminadas por todo o mundo e tê-lo-ão sido também nos EUA e esse era o objetivo. Simultaneamente, as extremas-direitas europeias xenófobas deliciaram-se com as mesmas imagens, adensando a pressão sobre o governo espanhol, apesar de nem um imigrante ter entrado no espaço Schengen.

O verdadeiro alvo a abater é Pedro Sánchez, visto como o derradeiro baluarte da Europa (saúda-se a pronta reação do governo da Irlanda a apoiar o governo espanhol) que bate o pé à intromissão americana nos destinos europeus. Sánchez tem muitas culpas noutro cartório, o da corrupção, e será com toda a probabilidade por essa vulnerabilidade que será apeado do poder, seja em eleições no seu tempo legal, seja antecipadas se a degradação política da sua coligação “frankenstein” se agravar para lá do suportável. Mas neste caso, foi o exército de reserva de jovens marroquinos à procura de um futuro mais promissor que foi manipulado para a mais estranha prova de natação dos últimos tempos e provocar a imagem desejada do caos a bater à porta da União e do Espaço Schengen. Carne humana para canhão a servir de arma de guerra ideológica. Esta é a vergonha do nosso tempo.

 

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