(Quando se estuda em profundidade a mudança estrutural das economias fortemente exportadoras, existe uma lei bem conhecida que está relacionada com as diferentes vagas de entrada na industrialização para o comércio externo. Por outras palavras, as economias manufatureiras exportadoras não iniciaram todas em simultâneo os seus processos de industrialização extrovertida. Essa entrada acontece por grupos ou ondas, em momentos históricos diferentes, tirando designadamente partido das condições de evolução da economia mundial que abrem mais ou menos oportunidades de entrada. O estudo aprofundado dessas ondas ou vagas de industrialização extrovertida mostra que a entrada manufatureira inicial acontece através de exportações com vantagens comparativas salariais assinaláveis e regra geral com utilização e aproveitamento de processos de difusão e transferência de tecnologia em domínios preparados para uma ampla difusão pela economia mundial. A lógica é simples. A utilização da mesma tecnologia com salários mais baixos abre caminhos de lucratividade irrecusáveis. Sabemos ainda que a entrada por dos exportadores neófitos por essa via se deve fundamentalmente, não apenas a opções internas de política industrial extrovertida, mas antes ao facto desses ramos de entrada serem progressivamente abandonados por países que iniciaram processos sustentados de aumentos de produtividade e de aumentos salariais, que abrem assim caminho a novos candidatos. Esta interpretação da mudança estrutural em processos de industrialização extrovertida permaneceu válida durante largo tempo e, mais do que isso, continuou a ser válida para economias extrovertidas de pequena e média dimensão. O que é que pode acontecer em contrário e comprometer a validade deste argumento? O problema é que existe um elefante na sala que se chama China. Vejamos que estragos provocou este elefante no argumento solidamente apoiado pela evidência histórica concreta de muitos processos de industrialização extrovertida.)
Porque é que a China constitui um elefante na sala de grandes proporções?
A razão é simples. Nenhuma das economias emergentes expoentes dos processos de industrialização protagonizou mudanças estruturais com uma tal dimensão económica de suporte. É claro que praticamente todas as economias asiáticas que emergiram em sucessivas vagas de industrialização aberta partilharam um modelo de elevadas taxas de poupança e muito elevadas taxas de investimento. Taxas de investimento de 30 a 35% dos PIB respetivos eram correntes. Mas a novidade é que esse padrão se alargou a uma economia como a da China que trouxe ao processo uma outra característica relevante – a dimensão económica, demográfica e territorial. Sabemos que hoje a China já não é o El Dorado demográfico do passado. Mas a sua dimensão económica e territorial está intacta. Ora isso traz à industrialização extrovertida novas nuances, principalmente de alternativas de interação entre mercado interno e externo que as restantes economias emergentes não têm condições de aproveitar. O gigante da Índia está longe ainda de apresentar condições claras de industrialização extrovertida e uma economia como a Indonésia tem de ser estudada com atenção nos próximos anos.
O gráfico que abre este post é cristalino do ponto de vista da interpretação dos rumos da industrialização extrovertida da economia chinesa. É perfeitamente visível o crescimento do excedente comercial externo chinês no conjunto de produtos com utilização de elevadas qualificações e nas máquinas e equipamentos elétricos, mostrando que a mudança estrutural está lá e que é pujante. Mas se estivermos atentos, o conjunto dos setores de baixa tecnologia e de mobilização de baixos continua praticamente incólume na sua evolução. Estará a perder peso no total do excedente comercial externo, mas o efeito massa continua lá.
Que implicações suscitam estas evidências para a interpretação da mudança estrutural das economias manufatureiras exportadoras?
De acordo com a interpretação geralmente aceite, a realocação da economia chinesa em favor dos produtos de elevada qualificação e das máquinas e equipamentos elétricos deveria ter criado uma oportunidade para economias emergentes recém-chegadas ocuparem o espaço libertado pela economia chinesa. O problema é que a economia chinesa não libertou espaço suficiente nos campos da baixa tecnologia e dos baixos salários. Assim sendo, a mudança estrutural das exportações chinesas não está a facilitar o caminho ao aparecimento de novos emergentes, já que não liberta espaço para outros explorarem as suas vantagens salariais e acesso a tecnologia de fácil difusão.
Podemos, assim, concluir que a presença do elefante na sala da dimensão e da vitalidade do mercado interno que acompanha essa dimensão altera profundamente a tese das oportunidades associadas às sucessivas ondas de industrialização extrovertida.
O que não é um fator para desvalorizar na análise crítica dos rumos que a globalização parece estar a assumir.

Sem comentários:
Enviar um comentário