Manuel Carvalho (MC), após ter sido um excelente diretor do “Público” culminando uma carreira jornalística que já era longa e prestigiada, continua agora a prestar um serviço público inestimável com as diversificadas e assertivas crónicas (e algumas investigações de fundo, como são as relativas ao Douro das suas origens) que periodicamente escreve no mesmo diário – nem sempre concordo integralmente com o ponto de vista que sustenta mas é raro que dele me afaste mais do que em pormenores de pouca monta.
Desta vez, escreveu sobre a promulgação da “Lei das Burcas” pelo Presidente da República (“O Presidente a assobiar para as árvores na lei das burqas”) e foi cáustico q.b. como a decisão de Seguro claramente merece por ter fingido não perceber a seriedade simbólica desta “lei inventada pelo Chega e eivada de todos os preconceitos e intolerâncias do Chega só serve para satisfazer o Chega” – entretanto, e na sequência, logo tivemos André Ventura em intermináveis entrevistas a canais televisivos (que assim lhe permite uma captura da agenda pública em favor das suas opções programáticas) e a nelas saudar Seguro e declarar que “é uma decisão feita pelo bem do país”, acrescentando nas redes sociais: “Querem usar burkas? Apanhem o voo para o Afeganistão ou para a Arábia Saudita. Aqui não!”
Registe-se, a terminar, que o texto de MC acaba anunciando o “oblívio” que vem a seguir: “o diploma lá ficará solitário nos diários oficiais, à espera de que, um dia, uma mulher muçulmana distraída saia à rua e ameace a segurança do Estado”. Acrescentando: “Um sistema partidário numa democracia que se dá ao luxo de perder tempo com inutilidades destas apenas para afagar o ego da extrema-direita tem, pelo menos, uma de duas vulnerabilidades: ou é cobarde e desistiu de lutar pelo que de facto interessa ao país ou acredita mesmo que o ideário do Chega se recomenda como política e receita eleitoral.” Nem mais!


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