(É trágico afirmar isto, mas a guerra que a Ucrânia trava com o invasor russo deixou de ter na opinião pública internacional o peso que assumiu nos primeiros meses após a invasão, talvez estendido ao primeiro ano após as hostilidades. Apesar do esforço de presença reivindicativa constante que Zelensky tem conseguido manter, desdobrando-se numa gigantesca energia diplomática em várias capitais europeias e mantendo com Trump e a restante administração americana uma paciência admirável para ir aguentando as mudanças de humor do Presidente americano em relação ao invasor Putin. Mas a verdade nua e crua é que o ataque dos EUA e de Israel ao Irão, pela ameaça bélica que representa e pelos efeitos devastadores que está a produzir na economia mundial, está a retirar palco à necessidade de continuar a demonstrar seja a monstruosidade russa, seja a criativa e engenhosa resistência ucraniana, pela sua bravura e pela capacidade tecnológica e de produção militar que tem revelado. Essa perda de impacto que tem sido observada na opinião pública internacional explica em parte que tenha passado algo despercebida a ideia de que afinal estamos com duas guerras na Ucrânia e não apenas uma. Explico-me.)
As duas guerras a que me refiro acontecem em espaços diferentes e desenvolvem-se com meios e estratégias militares também bastante diferentes. Obviamente que existiu sempre uma guerra mortífera, a que se trava nos territórios da invasão russa e onde as evoluções são incrementais na chamada linha da frente. As progressões da invasão russa e algumas recuperações que o exército ucraniano consegue alcançar são na prática incrementais, mas as informações que chegam desses territórios e confirmadas por fontes independentes dos dois beligerantes apontam para que a mortandade de jovens russos precocemente conduzidos à guerra seja nessas linhas da frente impressionante. Apesar disso, o impacto na sociedade russa dessas mortes em grande escala é largamente filtrado pelos meios de comunicação do Kremlin, pelo que no seu conjunto, não no universo das famílias atingidas, mas na sociedade em geral pode dizer-se que pouco se sabe do sacrifício que Putin está a impor aos seus cidadãos nas linhas da frente.
Mas nos tempos mais recentes há uma outra guerra, a de grande alcance e que se processa por cima das linhas da frente, com a Ucrânia a conseguir atingir alvos russos longínquos, essencialmente de três tipos, instalações energéticas, sobretudo petrolíferas, cadeias de abastecimento e navios que transportam petróleo e com a Rússia a fustigar violentamente cidades ucranianas, com relevo para a capital Kiev. Esta guerra processa-se sobretudo através de mísseis balísticos de longo alcance (que os russos exploram enquanto a dotação ucraniana de Patriots continuar a ser deficitária) e de drones cada vez mais tecnologicamente sofisticados e com maior poder de fogo e destruição (matéria em que os Ucranianos se têm especializado e notabilizado). Para a estratégia ucraniana, a possibilidade de alcançar territórios russos longínquos, incluindo a Crimeia, é fundamental para ultrapassar os filtros que Putin tem conseguido colocar na sociedade russa face à mortandade observada na linha da frente.
As duas guerras são obviamente interdependentes e disso depende a possibilidade de os russos chegarem a uma cada vez mais problemática negociação de paz em melhor ou pior condição para aceitar condições impostas pelos ucranianos. Não é ainda claro se essa interdependência poderá obrigar os russos a retirar meios e inteligência das linhas da frente para melhor combater os ataques de longo alcance que possam atingir o seu território.
Até ao próximo inverno será este panorama que chegará com alguma intermitência aos media internacionais. A situação em matéria de ganhos e perdas para os russos alterou-se significativamente, não sendo possível antever se o novo contexto poderá alterar a sua posição quanto à aceitação de negociações.

Sem comentários:
Enviar um comentário