segunda-feira, 3 de agosto de 2026

QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ

Aquilo que António Costa designou por “Bazuca” está a chegar ao fim dos seus dias e o seu balanço não é de todo entusiasmante. Foram anos de reivindicações de dinheiro para tudo e mais alguma coisa – a maioria das quais sem grande relação com a recuperação e a resiliência que serviam de pretexto ao “cheque” – e, muito em especial, de alegados cuidados com a execução (quem não se lembra do caricatural ralhete de Marcelo a Abrunhosa?) naquela lógica tão nacional de atirar “a massa” para cima dos problemas que suscitem mais barulhento protesto. À medida que o tempo foi passando e o termo fixado e comprometido se ia aproximando, a dura realidade venceu a inércia e as regras lá foram sendo sujeitas a “cunhas” em Bruxelas, mudanças no acesso aos fundos, alterações importantes nas aplicações inicialmente previstas ou devoluções de verbas e correspondentes efeitos de overbooking a funcionar, sempre com o ministro hoje responsável a garantir enfaticamente 100% a 31 de agosto: “fie-se em mim”, disse ao jornalista. O presidente da Comissão de Acompanhamento lá foi levando a água ao seu moinho, sempre sublinhando que “até agora não perdemos qualquer euro”, que mais uma reprogramação era essencial, que alguns objetivos ficariam por cumprir (incluindo nas áreas cruciais da transferência de tecnologia e da Inovação) e que os privados estavam salvaguardados, para finalmente reconhecer, extenuado, que “o desenho inicial do PRR foi demasiado ambicioso”.


Entretanto, o excelente jornalista económico do “Público” Victor Ferreira abalançou-se a um balanço, entrevistando o alegado “idiota” inicial (António Costa Silva), ele que foi rapidamente ultrapassado pelas artimanhas de Costa e dos especialistas do costume (no caso, representados por Fernando Alfaiate), e Ricardo Paes Mamede (um economista capaz e conhecedor da matéria), a despeito de ter sido pena que não tivesse alargado o seu espectro de opiniões recolhidas com alguém a Norte ou a Centro que pudesse trazer alguns apontamentos diferenciados. A conclusão que retirou surge bem sintetizada no título seu artigo (“Quem te viu e quem te vê”), o qual merece uma leitura cuidada para ajudar a que melhor se entendam as razões de uma oportunidade novamente perdida (ou quase, porque se salvaram alguns projetos específicos e a circulação de dinheiros que alimentou o crescimento do PIB nacional). Adicionalmente, Sérgio Aníbal traz também alguns elementos de análise relevantes num artigo em que salienta justamente que “Portugal terá de substituir PRR para travar efeitos negativos nos serviços públicos e produtividade”.

 

E assim vamos de nenúfar em nenúfar até que a Política de Coesão nos feche as portas quase escancaradas que nos têm proporcionado enganosas manifestações de fartura assentes em dinheiro fácil e novo-riquismo e não políticas públicas baseadas em escolhas seletivas e judiciosas que pudessem contribuir efetivamente para uma maior e mais consolidada prosperidade.

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