(Toda a gente já compreendeu que a geopolítica está de volta e em força, como se o lema “também com a geografia se faz a guerra” tivesse regressado para nos impressionar. Os nossos atlas em papel ou digitais nunca foram seguramente tão consultados como hoje o são. Fazemo-lo frequentemente para entender a informação com que somos bombardeados e para nos localizarmos em função de territórios ou acidentes geográficos que adquirem uma importância inusitada, para os quais as nossas atenções não estavam voltadas. Entre essas pormenorizações territoriais que procuramos nos nossos atlas de estimação estão seguramente os estreitos. Um dos paradoxos do nosso tempo digital é a importância-chave que a navegação assumiu, ainda que saibamos que essa mesma navegação está hoje também ela impregnada de digitalização. Mas apesar dessa adaptação ao mundo digital, o transporte marítimo é algo de muito físico e, ao contrário do que muita gente pensa, as condições de vida e de consumo por todo o mundo continuam a depender fortemente desse mesmo transporte e do fluxo de comércio mundial de mercadorias que esse transporte veicula. É neste contexto que nunca ouvimos tanto falar de estreitos. Neste caso, são fundamentalmente dois os que têm emergido na cena internacional, desiguais na sua importância, mas ambos com ameaças sérias á fluidez do transporte marítimo. Estou obviamente a falar do estreito de Ormuz e do estreito de Bab-el-Mandeb. O primeiro entendido como porta-chave de entrada e saída para o Golfo, com o Irão na sua parte norte e Omã na sua parte sul. O seu comprimento é cerca de 164 quilómetros e a sua largura variável entre 97 e 39 quilómetros. O segundo é a porta de entrada para o Mar vermelho e posterior encaminhamento para o canal de Suez, menos comprido do que Ormuz, com 115 quilómetros e a sua largura praticamente igual à da parte mais estreita de Ormuz.)
As estimativas mais divulgadas apontavam que pelo estreito de Ormuz passavam por dia cerca de 20 milhões de barris de petróleo antes do ataque americano ao Irão, estimando-se hoje que apenas cerca de cinco milhões de barris estão a cruzar o estreito com autorização iraniana. A fanfarronada de Trump já entrou no delírio, reconstruindo figurativamente a geografia da região como território americano, mas a relevância da geografia é tal que alguém com um mínimo de atenção compreende imediatamente que a configuração do estreito concede ao Irão e a Omã condições ótimas para com embarcações de pequeno porte condicionar fortemente a passagem do estreito. As manifestações da fanfarronada de Trump são tantas e variadas que só isso daria oportunidade para escrever uma longa missiva sobre o desvio sensível entre o que se anuncia e o que é praticado. O melhor indicador desse desvio é a queda relevante dos fluxo de transporte marítimo antes e depois do ataque ao Irão.
A incapacidade americana de controlar a situação em Ormuz é tal que alguns analistas internacionais não hesitam em considerar que, face às circunstâncias internacionais, a alternativa menos penosa para todos seria conceder durante algum tempo ao Irão a possibilidade de controlar o estreito de Ormuz com a fixação de taxas de passagem a cargo das autoridades iranianas. Não estou a falar de cor. Esse é por exemplo o testemunho da responsável no think-tank Defense Priorities (sediado em Washington D.C) pelo programa para o Médio Oriente e que acaba de publicar um longo artigo de opinião no New York Times, Rosemary Kelanic.
O objetivo de Kelanic é a reposição das condições de fluidez de circulação ao transporte marítimo e a possibilidade, temporária, de negociadamente esse controlo iraniano do estreito se traduzir num contributo para a reconstrução civil do país.
Como é óbvio, o entendimento desta alternativa que é proposta pode ser duplo: por um lado, pode representar uma séria avaliação das alternativas disponíveis para recuperar a fluidez do transporte marítimo; mas, por outro lado, pode também representar uma também séria avaliação da incapacidade da administração americana sair da embrulhada em que quis mergulhar.
Quanto ao estreito de Bab-el-Mandeb, que está sob a ameaça dos Houtis, é considerado pelos especialistas uma fonte de preocupação menos importante, não porque o estreito seja geopoliticamente insignificante, mas sobretudo porque o poder de dano dos Houtis não tem comparação com o de um Irão ainda que inferiorizado. Não pode ignorar-se, entretanto, que uma coisa será negociar com o Irão e Omã, outra bem diferente é fazê-lo com um país fraturado como o Iémen.
A questão certa a colocar será assim a de saber por quanto tempo, em termos de fluidez do transporte marítimo, os estreitos continuarão a agitar a geopolítica. Eles nunca deixaram de existir, é certo. Mas a fluidez do tráfego marítimo que permitia, exceção às escaramuças e à pirataria no Mar Vermelho, fazia com que praticamente ignorássemos a sua existência.

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