(Andava muita gente convencida que isto das mudanças climáticas poderia estar a beneficiar o centro e o norte atlântico e julho e a primeira metade de agosto pareciam confirmar essa previsão. Mas todo o litoral centro e norte está a braços com borrascas e chuva que bastem, com forte prejuízo para os que decidiram vir até Caminha nesta semana de 24 de agosto, que assim terão de desafiar a sua imaginação mais criativa para justificar viagem e investimento que fizeram. Os que já cá estão há mais tempo, como eu, encolhem os ombros, afinal o hábito vem de longe e transformam-se em ruminantes do tempo e da reflexão. É nesse contexto que surge a reflexão de hoje. Em tempos de avanço tecnológico como os que vivemos é um absurdo estranho e incompreensível trazer a FOME para o centro da reflexão. Mas se pensarmos bem, esse absurdo não é de hoje, foi recorrente no passado. A escassez ou a inexistência de alimentos para alguns sempre foi inexplicável considerando o potencial tecnológico e de produtividade. É verdade que se conseguiram progressos assinaláveis na redução da pobreza absoluta, graças especialmente aos avanços na China, mas essa redução não logrou erradicar o espectro da fome. Essa mancha negra está hoje essencialmente centrada no continente com maior potencial demográfico do mundo, o que constitui em si próprio um sinal cruel dos nossos tempos. O continente que melhor poderia tirar partido do potencial demográfico que apresenta, quando o mundo dominantemente envelhece, é também aquele em que os problemas da subnutrição e da fome mais estão localizados. Além dessa mancha global, as imagens que nos chegam de Gaza prolongam essa dura realidade a uma população que está a mercê da mais cruel violência israelita. Sim, pelo que está a perpetrar em Gaza e na Cijordânia, Israel está por sua conta e responsabilidade a esvair a memória do Holocausto que ficará para o mundo nos tempos vindouros.)
O estado da saúde alimentar e nutrição no mundo recentemente publicado por instituições internacionais a FAO das Nações Unidas, o Programa Alimentar Mundial e o IFAD (International Fund for Agricultural Development) alerta-nos para a existência no mundo de 7,8% de incidência de fenómenos de subnutrição na população mundial e para 644,6 milhões de pessoas nessa situação. Se no plano global a incidência da subnutrição está praticamente constante, com ligeiríssimas descidas nos últimos 15 anos com aumento do número de pessoas em situação de subnutrição, o que poderia alimentar algum ligeiro otimismo sobre a possibilidade de fazer baixar esses números com uma melhor utilização e distribuição do potencial tecnológico existente, quando olhamos para a distribuição espacial do fenómeno esse otimismo desaparece. A África emerge com números devastadores – 20% de taxa de incidência de fenómenos de subnutrição e mais de 50% das pessoas nessa situação, estimadas em 309,2 milhões de indivíduos.
São números avassaladores, que o são tanto mais quanto se sabe que o crescimento económico não está ausente nas duas últimas décadas do continente africano e que aquele continente apresenta, no contexto de envelhecimento mundial galopante, um potencial demográfico indesmentível.
O paradoxo a que aludia parece estar a transformar-se num problema dominantemente africano, com especial relevância na África subsaariana.
Quando a Europa se choca e até enraivece com o fenómeno das migrações e com a cor da pele dos que conseguem desesperados chegar a um destino alternativo, como em Ceuta, talvez fosse conveniente recordar estes valores sobre a subnutrição e sobre a fome e sobretudo interrogar-se sobre o que fizeram e o que podem fazer no futuro para o mitigar.


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