quarta-feira, 26 de agosto de 2026

OS FELLOW AMERICANS SÃO UM IMENSO MOSAICO

 

Fascinante e imperdível a peça do “New York Times” cujo título e mapa [interativo no site] acima reproduzo (“How a Nation of Immigrants Traces Its Roots”, com assinatura de Albert Sun, Jeff Adelson e Larry Buchanan) e a que acedi por indicação da excelente colunista do “Financial Times” Rana Foroohar. Como afirmam os autores, esse é o “mapa da ancestralidade americana, que mostra como as pessoas descreveram as suas origens ao Census Bureau [U.S. Census Bureau 2019-2024 American Community Survey]” – e a verdade é que “há quase 200 identidades distintas representadas”, o que os leva a sugerir que se as combinarmos (como fazem 340 milhões de cidadãos americanos) resultará “uma infinidade repleta de histórias, entrelaçadas e sobrepostas”. Acrescentam ainda: “Muito do que vemos é uma história da imigração. Ao longo de 250 anos, o país absorveu mais de 100 milhões de pessoas. Podemos traçar as pressões que as empurraram e puxaram até aqui – e as políticas que acolheram certos grupos enquanto mantiveram outros de fora”. Em suma, numa imagem feliz: “Melting pot, tapeçaria, mosaico, caleidoscópio, tigela de salada. Cada cliché é verdadeiro.”
 
Limitar-me-ei aqui a algumas referências sugestivas e suscetíveis de levar o leitor a procurar o texto original. Começo pelas origens (primeiro mapa abaixo) e volto a citar: “Nos finais do Século XVIII, a área que se tornaria nos atuais Estados Unidos já era diversa. Pelo menos 1,5 milhões de nativos, possivelmente muitos mais, viviam ao longo do território. A eles se juntaram cerca de três milhões de europeus e de africanos escravizados vivendo em colónias inglesas e em territórios franceses e espanhóis.” Andando no tempo, um apontamento sobre o Século XIX , quando “vários massacres na Europa Oriental e as consequências da reunificação italiana provocaram um surto migratório para os Estados Unidos”, determinando a chegada de 24 milhões de imigrantes entre 1880 e 1920 com destino a uma grande diversidade de paragens (exceto ao Sul, onde a elite terratenente já dispunha de acesso a mão-de-obra barata – antigos escravos e arrendatários pobres). Depois, e enquanto as cidades iam crescendo, o peso da imigração ganharia enorme expressão e atingiria valores muito significativos (em torno de três quartos) em cidades como Boston, Chicago, Cleveland, Detroit e Nova Iorque. E por aí adiante ao longo de mais de um século e até aos dias de hoje – os gráficos mais abaixo elucidam sinteticamente sobre as origens largamente europeias dos 14 milhões de imigrantes registados em 2010 e sobre a respetiva deriva americana e asiática que posteriormente veio a conduzir aos seus 82% (contra 10% europeus) dos atuais 50 milhões; em todo o caso, importará ainda chamar a atenção para o dado interessante de a presente percentagem de imigrantes no total da população ser idêntica (15%) à do início do século passado – a despeito dos fantasmas trumpistas e similares...


A proporção de cidadãos americanos nascidos no exterior do país é, deste modo, a maior de sempre e faz com que as restritivas e autoritárias políticas de imigração da Administração Trump sejam pouco defensáveis à luz das condições demográficas prevalecentes (e, de alguma maneira, semelhantes às de há um século). Não obstante, algumas dificuldades pressentidas nas respostas ao censo determinam que uma visível e difusa mistura (ou sobreposição) de antecedentes populacionais vá de par com situações de passado desconhecido (caso, por exemplo, da frequente incapacidade dos descendentes de escravos para se ligarem a raízes muito específicas de localização).


A concluir, deixo-vos com os mapas correspondentes a algumas das grandes cidades americanas, para o que remeto para a infografia acima. A diferenciação de padrões observável é profundamente notória e constitui mais uma prova concludente da incomparável e inabalável multiculturalidade dos Estados Unidos da América que alguns movimentos políticos e doutrinários pretendem interpelar e, desejavelmente, destruir. Citando: “Cada cidade tem o seu próprio padrão distinto, visualizado num patchwork de dourado, verde e azul em Los Angeles, nos vermelhos fortes, azuis e amarelos de Chicago, numa Minneapolis púrpura, numa Honolulu verde” – e assim sucessivamente para Nova Orleães, Washington DC, Atlanta ou Detroit, sempre com referenciação a cores indicativas das origens de maior presença local. Interessante demais e autêntico serviço público à escala global...

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