Ontem foi o dia do 35º aniversário da independência da Ucrânia, com um terço desse período a ter sido marcado por uma situação bélica mais ou menos generalizada (a questão da Crimeia começou em 2014). Os líderes europeus lá voltaram a Kiev pela enésima vez, assinalando a estreia de Andy Burnham numa comitiva política da “Coligação de Vontades” encabeçada por um António Costa que já vai em cinco visitas e que não cessa de dirigir a mesma e inútil mensagem à Rússia (“está na altura de parar esta guerra, de parar de matar pessoas, de parar de destruir infraestruturas, de parar de atacar objetivos civis e dar uma oportunidade para que se possa negociar a paz”).
Isto enquanto Ursula von der Leyen declarava em Bruxelas que “hoje, aprovámos €6,1 mil milhões para os sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares de que a Ucrânia necessita urgentemente”, um financiamento que faz parte do empréstimo de apoio à Ucrânia de €90 mil milhões e que nos conduz a uma interrogação fundamental sobre os inevitáveis limites da dimensão do “saco” europeu visando esta finalidade, nomeadamente quando a União se defronta com uma série imensa de outras prioridades igualmente identitárias ou vitais (da competição internacional aos desafios tecnológicos, da coesão interna a múltiplas questões de affordability) – um catch 22 que não parece resolúvel, ademais com o ambiente político reinante (i.e., marcado pelo peso imobilizador da extrema-direita nacionalista) e com a mediocridade de decisores sem rasgo e capturados pelo business as usual.
Zelensky faz meritoriamente a sua parte e é até largamente exímio na forma e no conteúdo dos seus pedidos/ultimatos junto dos europeus e outros aliados (e, mais pontualmente, no enfrentamento da volubilidade dos americanos), também porque a necessidade aguça o engenho – o buraco do seu orçamento de defesa está nos 27 mil milhões de dólares – e porque os sinais de crise política interna (entre demissões por corrupção e o caso da rotura entre o ex-ministro da Defesa Miykhailo Fedorov e o comandante do exército do país) se multiplicam, sempre com a hipótese de realização de eleições presidenciais (devidas desde 2024 mas adiadas por força da lei marcial vigente em associação à presença de uma situação de guerra) a pairar – aqui, as opiniões populares parecem ir no sentido de favorecer a posição de Zelensky contra a de Fedorov.
Em síntese, uma reiterada e desconfortável sensação de intermezzo, faltando porém saber-se o essencial: será que estão minimamente controlados os danos que uma incerteza quase radical nos faz adivinhar e será que temos algum tipo de perspetiva sobre para onde estamos a encaminhar-nos? Ou vamos confiar, de consciência tranquila pois claro, num sempre irritante e pouco persuasivo “seja o que Deus quiser”...


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