Foi notícia por estes dias a comunicação de Montenegro de que o Estado iria voltar ao capital social da REN - Redes Energéticas Nacionais. Ou seja: doze anos depois da alienação dos 11% finais (então num desembolso de 157 milhões de euros) de uma privatização iniciada em 2007 ainda com Sócrates (24% e entrada em bolsa) e prosseguida em 2012 (venda de 25% à chinesa State Grid e de 15% à Oman Oil) com Passos Coelho ao leme e a Troika a pressionar, o atual primeiro-ministro mudou de perspetiva (ele que fora um apoiante indefetível da privatização passista) e decidiu agora que a Parpública comprasse os 13,7% nas mãos do universo de Amancio Ortega (dono da Inditex) – que adquirira à Oman Oil em 2021 – por 324,7 milhões de euros e assim passasse a ser a segunda maior acionista da REN, contribuindo para dar maior consistência à difusa ideia de um Fundo Soberano que está a ser gizada pelo Governo. Dizem algumas más-línguas que também consta do racional de Montenegro para esta operação a vontade que o anima de responder a algumas das alfinetadas que Passos lhe tem vindo a dirigir periodicamente, no caso colocando o foco na responsabilidade deste em relação a uma privatização afinal falhada.
Paralelamente a estas implícitas e muito particulares trocas de galhardetes, importará sublinhar o posicionamento da “Esquerda”, com destaque para o Bloco e o PCP que logo vieram contestar a venda – o PCP declarando manter a defesa do controlo público nos sectores estratégicos e considerando que a aquisição de 13,7% da REN “poderia constituir uma decisão com valor e impacto positivo” se integrada “numa estratégia orientada pelo objetivo de afirmação de soberania energética e de desenvolvimento nacional” (na medida em que se impõe “um programa sustentado que permita o controlo nacional sobre os sectores estratégicos”, uma lógica argumentativa do habitual tipo “tudo na mesma como a lesma”); o Bloco também não aproveitando a oportunidade para mostrar alguma independência e ganhar a decorrente margem de manobra em termos eleitorais e de credibilidade ao destacar que “sempre defendeu que as empresas que agem em sectores estratégicos nacionais devem ser públicas” (o que afirmara com ênfase ao tempo da privatização, sobretudo pela impositiva palavra de Francisco Louçã) mas preferindo acusar o Governo de contraditório (por comprar na REN e vender na TAP) e assim privilegiando a politiquice mais ou menos barata (“não há uma estratégia para a economia que vá para além de espuma mediática”). Os restantes partidos da área, ora estão de férias e, portanto, mostraram alheamento ao assunto (Livre), ora parecem estar confusos (PS) e apenas insistem insipidamente na necessidade de ser clarificado o motivo da reentrada do Estado na REN. Tudo somado, ninguém teve o golpe de asa de jogar o jogo em pleno, i.e., de conseguir elogiar o regresso de parte do capital de uma empresa estratégica à esfera pública – matéria que foi dama inquestionável na sua crítica ao “passismo” e elemento determinante do argumentário de oposição à Troika – e exigir em simultâneo uma retirada consequente de todas as implicações provenientes da nova perspetiva governamental ou do oportunismo que lhe subjaz.


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