terça-feira, 18 de agosto de 2026

OLTRE A MELONI, CHI È IL VERO ITALIANO?

A Itália é considerada, desde há muito, uma sociedade marcada pelo experimentalismo e pelo vanguardismo na área política. Já foi o caso à esquerda (com a criatividade de pensadores como Antonio Gramsci ou Maria Antonietta Macchiocchi e de organizações partidárias como “La Lotta Continua” ou o “Partito Radicale”, além de grupos de reflexão de diferentes dinâmicas configurativas), com o seu Partido Comunista de Enrico Berlinguer e o seu “compromisso histórico”, com as primeiras grandes implosões de partidos historicamente estabelecidos (como foi o caso do Partido Socialista de Bettino Craxi, dissolvido em 1994 no quadro da “Operação Mãos Limpas”), com o surgimento de partidos estranhos (como o “Movimento 5 Estrelas” lançado pelo comediante Beppe Grillo) ou veiculando ideários regionais e populistas (como a “Forza Italia” dos anos 90 do século passado), com as sucessivas incursões de Silvio Berlusconi na cena política do pais, com as experiências de governos tecnocráticos (Mario Monti, Giuseppe Conte e Mario Draghi) ou, mais recentemente, com os arranjos à direita da Direita (de Matteo Salvini a Giorgia Meloni) e os seus visíveis êxitos eleitorais (com a líder do “Fratelli d’Italia” a chegar a primeira-ministra e a lograr crescente credibilidade à escala europeia) e sequências (já em 2026, há seis meses atrás, foi criado um partido irmão da AfD alemã (o “Futuro Nazionale” de Roberto Vannacci, saído das fileiras de “Lega” em confronto com Salvini) que parece dar sinais de implantação tendencialmente relevante (designadamente contribuindo para afundar ainda mais as indisfarçáveis aspirações de poder de Salvini).
 
Haverá eleições em Itália até final do próximo ano e tal é bem confirmado pelas atitudes e movimentações de Meloni, especialmente em matéria de imigração. Fui observar o que dizem as sondagens sobre as mesmas:

· o “Fratelli d’Italia” mantém-se na liderança, assim como o “Partido Democrático” (PD) se mantém em segundo lugar, ambos com ligeiras melhorias em relação ao escrutínio de 2022;

· o reconfigurado “Movimento 5 Estrelas” (M5S), por obra e graça de um primeiro-ministro (Giuseppe Conte) que deixou marcas e inscreveu o partido na área da Esquerda, surge posicionado em terceiro mas parecendo perder alguma expressão;

·  a “Forza Italia” (Direita moderada) não recupera perante a pressão à sua direita, impulsionada pelo partido de Meloni e agora também integrando um “Futuro Nazionale” (FN) já à frente da “Lega”;

· à esquerda, a “Alleanza Verdi e Sinistra” (AVS) disputa com os anteriores partidos de direita um já distante quarto lugar eleitoral;

· três partidos de extração liberal ficam abaixo, somando 6% do total das intenções de voto.

Neste quadro, a tendência do futuro próximo não se mostra muito vocacionada para grandes mudanças, tudo levando a crer que Meloni continuará no poder com o PD como principal força de oposição – embora este cenário careça ainda de elucidação quanto ao que poderá acontecer de imprevisível nos partidos à direita dos “Fratelli”. Em contrapartida, e se analisarmos o gráfico acima que dá conta da evolução passada nas últimas duas décadas, as indicações são bem menos pretas e brancas e ciclicamente marcadas: à esquerda, o PD passou de 33% em 2008 para os atuais 21% (com passagem pelo pico de 41% em 2014/15) e o M5S passou dos 33% com que venceu as eleições de 2018 para os atuais 12%, o que reconduz esta área global a 40% se considerarmos a AVS; à direita, o “Fratelli” regista um crescimento iniciado em 2019 e que chegou aos 31% em finais de 2025, enquanto a “Lega” cai para 6% depois de ter andado pelos 37% em 2019 (vinda de 8% em 2008) e a totalidade desta área de direita radical valerá 40% se considerada a FN (logo, bem mais do que os 26% que correspondem aos três grupos que integram no Parlamento Europeu – veja-se o gráfico acima –, onde Meloni está ligada ao ECR, Salvini aos “Patriots” e Vannacci aos soberanistas do ESN).


No cômputo geral, pouco de afirmativo estaremos em condições de expressar no momento presente, tudo dependendo largamente do que vierem a ser os comportamentos estratégicos e táticos das diversas forças em presença, sendo que a crescente divisão e rivalidade que se vive na extrema-direita poderá ajudar a que os demais espaços políticos se ajustem à necessidade imperiosa de novos e criativos compromissos democráticos.

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