sexta-feira, 28 de agosto de 2026

DOLLY PARTON E A AMÉRICA QUE SE FOI

 


(Dolly Parton, ícon da música country deixou-nos aos 80 anos, na mítica cidade de Nashville. O reduzido eco do seu desaparecimento em Portugal é proporcional à reduzida divulgação da sua música, da sua atividade como intérprete e sobretudo da sua composição. Se nos recordarmos que a canção “I Will Always Love You”, imortalizada por Whitney Houston no Bodyguard, é de autoria de Parton talvez tivéssemos em Portugal uma outra perspetiva do que Dolly Parton representou para a América profunda. Há uma afirmação de Parton numa entrevista do passado ao New York Times que me diz muito e que representa bem o símbolo associado à intérprete americana: “Felizmente que as pessoas sabem que por baixo do meu cabelo existe um cérebro, que por debaixo dos meus seios há um coração e que por detrás de todos os restantes adereços sabem que existe algum talento”. Não conheço qualquer outra representação de si próprio no mundo do espetáculo tão verdadeira e profunda como esta afirmação de 1975.)

O tópico que gostaria de associar ao desaparecimento de Dolly Parton é a sua profunda relação com uma certa América que venerávamos e que está hoje estilhaçada pela desigualdade e pelo infame aproveitamento político que Trump e os MAGA deste mundo fazem do descontentamento, da quebra dos elevadores sociais, do isolamento e dos deserdados da sociedade americana. Muitos desses problemas e injustiças sociais apareciam tratados nas canções de Parton, mas ao contrário do que hoje se observa não eram fator de polarização ou desunião. Parton era uma espécie de símbolo em que praticamente a generalidade dos americanos se revia tal era a combinação de autenticidade, simplicidade e profundidade que se operava na sua personalidade, voz e intuição artística.

Por isso, a morte de Dolly Parton é um símbolo fiel de uma América que já se foi, bem antes de Linda Ronstadt e Emmylou Harris disputarem com ela a cena do country. A nostalgia que o desaparecimento dessa América suscita está perfeitamente representado na grande maioria das suas canções e por isso a registamos neste blogue.

 

1 comentário:

  1. Viva, António
    Curiosamente, há dois dias, encontrei estas três peças no Observador:
    https://observador.pt/especiais/dolly-parton-a-vida-e-obra-da-mulher-quis-brilhar-e-que-nos-iluminou-pelo-caminho-1946-2026/ https://observador.pt/programas/no-se-fala-de-outra-coisa/o-adeus-a-dolly-parton-rainha-do-country/
    https://observador.pt/2026/08/25/morreu-dolly-parton-icone-da-musica-country-cantora-tinha-80-anos/

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