(Esta imagem da marginal fluvial de Seixas ao fim da tarde representa simbolicamente o fim de férias, assumindo bem a transição de uma semana de chuva frequente para uma outra que se anuncia de regresso a tempos de canícula. A marginal de Seixas é um bom exemplo da sobriedade cuidada de infraestruturas que deveria inspirar a maioria dos municípios portugueses, que vão entrar proximamente em tempos de conservação e manutenção como prioridade fundamental, agora que se anunciam outros tempos para o financiamento europeu. O tempo dos disparates infraestruturais vai enfrentar condições desfavoráveis, porque vão escassear os fundos e as oportunidades para os cometer e isso é por si só uma boa notícia, sobretudo se o investimento em habitação substituir essas loucuras infraestruturais, que não é o caso desta marginal de Seixas do rio Minho. Mas o fim de férias é também para mim a oportunidade recorrente de, em termos pessoais, avaliar se o reinício do trabalho será para valer ou se, pelo contrário, é desta vez que vai consumar-se ou não regresso à continuidade na vida ativa. Assim, dou comigo frequentemente a pensar que um dia que decida interromper definitivamente a minha experiência de trabalho isso equivalerá na prática a deixar de ter essa sensação de fim de férias. Porque, não trabalhando, posso perguntar-me que raio de significado terão as férias, sobretudo se as passar no contexto da segunda residência?)
Associo, regra geral, a ideia de férias à de modorra e estas não fugiram a essa regra. Modorra tanto mais apreciada quanto mais intenso em termos de trabalho e de preocupações profissionais tiver sido o ano.
E devo confessar que já não sou o devorador de livros de outras épocas. Nestas quase quatro semanas que terminam amanhã, o livro mais interessante em que tive oportunidade de mergulhar li-o em espanhol, por vezes com a ajuda do Google tradutor. Sou um grande admirador de Fernando Aramburu, sobretudo porque, em meu modesto entender, não há escritor que consiga criar algo de relevante com a questão basca como pano de fundo com tanto equilíbrio e firme delicadeza como o escritor basco radicado na Alemanha.
MAITÉ é a obra a que me refiro e desta vez tem como contexto o momento da sociedade basca em que a ETA raptou o concejal Carrero Blanco e o matou com dois tiros na cabeça, sem o eliminar imediatamente, mas deixando-o entre a vida e a morte, vindo depois a falecer. A ação passa-se em San Sebastian e a trama desenvolve-se sobretudo entre duas irmãs (Maité e Elene, esta regressada com algum mistério dos Estados Unidos da América (Providence) para revisitar a cidade e a família e a Ama (Mãe), viúva e doente, mas recusando-se a ser “depositada” num lar. O equilíbrio delicado com que Aramburu deixa o rapto e assassínio realizado pela ETA dominar o contexto em que a história entre as duas irmãs se desenvolve e o mistério de Elene vai sendo aflorado é um exercício notável de rigor e sensibilidade.
Pergunto-me se alguma vez Fernando Aramburu teria conseguido atingir o equilíbrio das suas narrativas acaso não estivesse radicado na Alemanha, mobilizando a sua memória afetiva para as construir.
Defendo sem inseguranças de qualquer espécie que há fenómenos que só podem ser recriados com a distância, não do tempo, mas da distância física simplesmente alimentada por uma memória obediente. A questão basca talvez seja uma delas e isso não significa de modo algum pactuar com a brutalidade do terrorismo.


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