quarta-feira, 5 de agosto de 2026

UM LIVRO OBRIGATÓRIO

É o livro mundial do momento, seja em termos políticos seja em termos de sucesso editorial. “Regime Change – Inside the Imperial Presidency of Donald Trump” relata de modo envolvente o que foi o primeiro ano e meio do atual segundo mandato de Trump com base num trabalho de investigação rigoroso, acedendo a fontes credíveis, integrando centenas de entrevistas, perscrutando por detrás das cenas à vista e, ao que se diz, reproduzindo gravações de algumas reuniões ditas confidenciais – um trabalho marcante de real-time political history. Chegou-me no segundo dia de férias através de encomenda feita à “Amazon” e acabei ontem de ler as suas mais de 400 páginas “úteis”, que percorri num quase incontrolável jato.
 
Os autores, Maggie Haberman e Jonathan Swan (foto abaixo), são dois jornalistas “veteranos” do New York Times” que há anos seguem Donald Trump. Fintan O’Toole, em comentário para o mesmo jornal, escreve lapidarmente que “os eventos que eles retratam são bem conhecidos: os excessos do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Elon Musk, o caos das tarifas de Trump, o retorno vampírico de Jeffrey Epstein, a militarização das cidades americanas, o lançamento do ICE nas comunidades migrantes, o abuso do sistema de justiça para ir atrás dos percecionados inimigos de Trump, o assalto à independência da Reserva Federal, o precipitado passo em falso na guerra contra o Irão” mas que “o que os autores acrescentam é o vívido detalhe que torna estes eventos serem sentidos como reais”. Porque, explicitam, “arrancam a própria realidade do mundo distorcido do entertainment, ilusão, fantasia e negação que Trump gerou à sua volta”. Ou seja, porque “é a corrente de provocação, atrocidade, negócios próprios e invenção que torna a contranarrativa de Haberman e Swan tão vital”.



O livro integra quatro grandes capítulos, sugestivamente intitulados de modo simples mas elucidativo: Whirlpool (Redemoinho), Retribution (Castigo), The Enemy Within (O Inimigo Interno) e Plunder (Saque). E deixa muito claro em todos eles quanto Donald Trump – após quatro anos sofridos de acusações, condenações, tentativas de assassinato e exílio político – regressou à Casa Branca para um segundo mandato mais liberto de qualquer dos condicionamentos que o limitaram no primeiro e, portanto, mais cheio de si, mais vingativo, mais jogador, mais poderoso em suma. Ou, como vários escreveram, a escrita fluida e fluente do livro consegue captar em pleno a mediocridade, violência e perspicácia política da personagem em causa, revelando “um presidente a operar quase inteiramente sob instinto [num impressionante misto de premeditação e total improviso] e uma Casa Branca a operar nos limites do poder político” e mostrando quem tentou mais ou menos vagamente pará-lo e a dimensão em que praticamente todas essas tentativas falharam.
 
O retrato de vários dos “cortesãos” gravitando à roda de Trump surge como uma ilustração eficaz do ambiente em presença, seja no caso das relações com um estranho e tresloucado Elon Musk ou nos de Stephen Miller (um extremista inigualável) e Susie Wiles (a eficiente e discreta chief of staff), os próximos de maior lealdade e, de algum modo, mais ideologicamente ou pessoalmente interessados no sucesso de um mandato que resulte avaliável como um ponto de viragem histórico. Mas há outros episódios deliciosos, como os da conversa telefónica em que Netanyahu se viu forçado a aprovar o plano de paz para Gaza (“I've done everything to protect you. You better fucking go along with this. It's been going on for too fucking long. Everybody's sick of you, Bibi”) ou os da assessora de imprensa a percorrer o campo de golfe ao lado do presidente a ler-lhe mensagens dele indescritivelmente laudatórias nas redes sociais, para apenas deixar dois exemplos. Num plano ainda mais caricatural, valerá a pena referenciar a descrição de um dia típico na Sala Oval: “Era [o quadro] de um presidente passando os seus dias na Resolute Desk numa série de sessões rolantes, acompanhado por um grupo nuclear de íntimos; estes eram complementados por um elenco rotativo de extras que num dado dia podiam ser legisladores republicanos, titãs da indústria, antigos lutadores profissionais, músicos country, príncipes do Golfo, irmãos da crypto ou amigos de criminosos a pedir perdões. Eles entram e saem do quadro, alguns sendo convidados a ficar para reuniões cujo atendimento não lhes dizia respeito.”
 
Cito finalmente a descrição feita pelo correspondente do “Le Monde” em Washington (Piotr Smolar) da história do presidente que revolucionou o modo como o mundo passou doravante a entender o American power: “Num ano e meio, Donald Trump expandiu o âmbito do executivo muito para além de qualquer dos seus antecessores, mudou os tradicionais checks and balances, tentou reformular o comércio internacional, ignorou largamente o Congresso, lançou uma maciça campanha de deportação contra imigrantes sem documentos, intimidou países aliados dos EUA e começou uma guerra no Irão”.
 
Eis uma leitura estival apropriada e verdadeiramente útil para uma compreensão do estado de apodrecimento a que chegou a maior potência mundial.

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