domingo, 16 de agosto de 2026

O VELÓRIO DO PONTAL

 


(Sempre me intrigaram as rentrées políticas realizadas em tempo de praia. Primeiro, porque falar de rentrée política num período em que a maioria dos portugueses que consegue hoje fazer férias é reduzido, sim porque o número de famílias que não o consegue fazer é crescente, acrescentando com as férias mais uma questão do tema candente que a affordability constitui, parece-me ser algo de deslocado e inexplicável. Segundo, porque aquele ar bronzeado dos personagens políticos que se dignam responder ao convite dos seus partidos inspira pouca confiança a um público que está mais interessado em ter novidades para o ano político que se avizinha do que ver ao vivo o que as revistas cor-de- rosa anunciam, escrutinando os sítios de férias dos personagens políticos. Terceiro, porque dada a crescente percentagem de portugueses que não pode deslocar-se de férias para longe das suas residências, centrar a rentrée política nesses locais é pelo menos mau-gosto e despropósito. O evento do Pontal em Quarteira, hoje magnificamente infraestruturada por um governo local do PS, a Câmara Municipal de Loulé, já foi fonte de arrebatamento de PSD’s em férias, mas isso já foi lá muito atrás no tempo e, por agora, escasseiam-se lideranças arrebatadoras e matéria para grandes proclamações com trombetas ou marjorettes a abrilhantar o ambiente e a preparar as massas. Mas a tentação para o abismo dos partidos em queda é assustadora, o PSD está nesse grupo e, por isso, não se compreende a insistência num erro, numa coisa que parece fora do tempo da política de hoje. Visualizando as imagens que foram transmitidas nas principais televisões, a imagem dos Pontais dos tempos áureos fica presa na memória longínqua, a indiferença das pessoas presentes foi confrangedora e, sem querer ser mauzinho, pareceu-me mais um velório político do que propriamente uma sessão para galvanizar as esperanças num ano político. Ora, não há velório sem cangalheiro e esse pareceu-me ser Montenegro. É que mesmo entre os dirigentes presentes, mais ou menos bronzeados, isso não interessa, o entusiasmo era sepulcral. Por isso, só me ocorreu este título – o velório do Pontal.)

O estilo e habilidade política de Luís Montenegro não é o de animador deste tipo de eventos que pretendem recarregar as energias dos militantes. O seu discurso nunca foi arrebatador ou empolgante e, para mais, o que ele tinha para anunciar era algo de requentado. Quando a principal novidade pareceu ser a da compra de 13,7% do capital da REN, adquirindo essas ações ao patrão da Zara, sem que se perceba claramente o que é que o Governo pretende com essa aquisição, ilustra bem o carácter não arrebatador do que Montenegro tinha para anunciar. Tanto mais que tinha sido precisamente o PSD a privatizar a mesma REN, depositando em capitais chineses a condução de uma das principais infraestruturas do país.

A TAP também surgiu no mesmo pacote, mas aí o que os portugueses pretendem saber é quem vai conduzir os destinos da companhia portuguesa nos próximos tempos, compreendendo que desafios vai ter o cumprimento do serviço público, consoante o grupo de transporte aéreo que irá ser escolhido.

Além disso, Montenegro ficou-se pela denúncia do ambiente de gritos e berraria em que a prática do Governo tem sido apreciada, não se individualizando uma palavra que fosse relativamente aos assuntos de momento, assuntos que o próprio Governo acabou indiretamente por colocar na agenda, como são os casos de Luís Neves, de Pinto Luz e da ministra da Saúde, já que a senhora do Trabalho resolveu pedir pé sangas e dedicar-se à introspeção que, no seu caso, a irá seguramente conduzir a fazer guerra por questões laterais em relação ao real funcionamento do mercado de trabalho em Portugal. Um tema anuncia-se no horizonte que é o da Segurança Social. Quando o encarregado de estudar a sustentabilidade da Segurança Social é o Professor Jorge Bravo, o mais declarado apoiante da segurança social privada em Portugal que tem sistematicamente agitado o espantalho da sustentabilidade da Segurança Social, não tenho pessoalmente qualquer confiança técnica e científica em alguém, com aquele perfil, que seguramente não enjeitará as hipóteses que se abram à sua imaginação para que a dança dos números conduza à opção que sistematicamente tem defendido. Decididamente, já me estão a «irritar profundamente os silêncios ensurdecedores do Presidente da República António José Seguro que tem neste dossier uma grande oportunidade para cumprir as promessas que o conduziram à eleição. Este é um tema em que a multiplicidade das perspetivas tem de ser obrigatoriamente assegurada.

 

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