segunda-feira, 10 de agosto de 2026

GOVERNANTES EM MODO DE SOBREVIVÊNCIA

(Vasco Gargalo, https://www.sabado.pt)

A política à portuguesa chegou a um ponto tal que já faz com que um até agora moderado e conciliador senador da República, como é António Barreto, dê sinais públicos e notórios de ter atingido os seus limites de tolerância. Veja-se a sua última crónica do “Público” (“Coeso e empoderado”), que termina em girândola declarando sem cerimónias, a propósito do governo de Montenegro e seus casos, que “este género de covardia acéfala é típico de quem não acredita, mas quer sobreviver”.

 

O texto de Barreto debruça-se larga e criticamente sobre Luís Neves e tudo quanto sobre ele foi dado a conhecer nestas semanas. Mas não esquece também Fernando Alexandre, o ministro-revelação que se mostrou afinal um descontrolado aventureiro (“nesta aventura típica de um adolescente omnipotente”). Vale a pena deixar aqui o registo do que escreveu sobre este: “Outra história, mas fonte de apreensão semelhante, é a dos exames e suas correções. O declínio da democracia começa quase sempre pela derrota das instituições, pelo desprezo a que estas são votadas pelos políticos e pela opinião pública. A saga dos exames e das correções é mais um exemplo dessa degradação. Em nada se parece com os anteriores episódios policiais, a não ser na sua dimensão institucional. Governo, ministro, departamentos oficiais e Deloitte vão sair deste episódio impunes e imunes, vão continuar a exercer as suas funções e a fazer os seus negócios.” Acrescentando: “O distinto e reputado académico que desempenha as funções de ministro da Educação presidiu, com candura, a um dos maiores desastres da educação portuguesa, cujas causas se discutem pouco e mal, mas cujos aspetos técnicos fazem a crónica dos deputados e dos jornalistas. Não se discute Português nem Matemática. Não se debate a degradação qualitativa dos exames e seus conteúdos. Não se pensa no aviltamento dos programas. Não se discute a taxa de reprovação e de aproveitamento. Não se reflete na igualdade e no mérito no sistema de educação. Não se pensa no melhoramento das condições de acesso ao ensino superior. Mas discutem-se algoritmos, plataformas de correção, sistemas de controlo digital, métodos e modelos de verificação e outras delícias com grande capacidade de atração dos ignorantes. Entretanto, centenas de milhares de pessoas, pais e mães, familiares, alunos e estudantes, professores, diretores de escolas e outros viram as suas carreiras ameaçadas, recearam pela sua segurança, estragaram as férias, perderam a tranquilidade, baixaram o rendimento escolar, encontraram novas formas de ansiedade, cancelaram férias, adiaram início de aulas, protelaram provas e planos de vida.” E ainda, por fim: “Pretenderam fazer reformas globais e coerentes, sem projetos-piloto capazes, sem experiência, sem avaliação. Cometeram-se, com distinção e boas maneiras, todos os erros dos aprendizes de feiticeiro e dos loucos de laboratório. Garantiram procurar um sistema eficiente, igualitário e meritocrático, mas produziram um monstro de incompetência e insegurança. O sistema de exames e correção de que os portugueses beneficiam atualmente parece-se tanto com o inferno quanto o famoso e eterno SIRESP que falha, que exige mais dinheiro, que nunca falta ao encontro dos desastres e que, nos momentos mais dramáticos, era substituído por… telemóveis!” Convenhamos que é difícil ultrapassar o grau de depreciação e corrosão analítica com que Barreto se dirige a Alexandre (“produziram um monstro de incompetência e insegurança”, recordo) e, mesmo que os dados disponíveis indiquem que a bonança na Educação parece em vias de se aproximar, isso deveria dar lugar a que o principal responsável por tanta confusão tivesse a humildade democrática e pessoal de assumir a objetividade dos seus erros políticos e, portanto, de ponderar a sua permanência no exercício da função que ocupa.

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