sexta-feira, 7 de agosto de 2026

UM DOS ÚLTIMOS GRANDES HOMENS DO NORTE DEIXOU-NOS

 

(Estou de férias cá pelas bandas de Seixas e de Moledo, que recuperou praticamente a sua praia, embora com deslocamento do seu espaço disponível para sul, a zona que foi sempre tradicionalmente mais popular do que a zona norte. Não é período para estar permanentemente conectado, mas o alerta do meu colega de blogue, também a banhos pelas bandas da Póvoa de Varzim e um post do Amigo Professor Américo Mendes trouxe-me a notícia da morte do Professor Francisco Carvalho Guerra, 94 anos de vida cheia na ciência, na defesa da participação cívica, na promoção e protagonismo no associativismo florestal e sobretudo uma daquelas Vozes do Norte que quando se ouvia, era-o com estrondo e respeito. Curvo-me, por isso, perante um Homem que assumiu sempre as suas raízes a Norte, que deu a cara pelo projeto da Universidade Católica do Porto, que sempre lutou pelos desvios e derivas que experimentou no seu trajeto e que sempre se opôs claramente e com convicção ao centralismo lisboeta, que também existe no âmbito da Igreja portuguesa e que sempre olhou de soslaio a rebeldia que no Centro Regional do Porto existia e era cultivada por alguns dos seus protagonistas principais. Fico com a convicção de que talvez não estejamos preparados para substituir uma VOZ com esta potência e alcance, ele que não se expressava por vias indiretas e silenciosas, mas que punha a boca no trombone sempre que alguma deriva centralista o incomodava ou quando a incompetência e ambição regionais colocavam em risco o direito a uma interpretação dos rumos necessários para o país a partir de um território como o do Norte.)

O período da minha vida em que tive mais contacto com a força da natureza que o Professor Carvalho Guerra representava foi quando assumi por alguns anos a função de consultor da Presidência da CCDRN, passando por vários Presidentes, mas com relevo para Valente de Oliveira e Luís Braga da Cruz e quando no âmbito de uma colaboração entre a Faculdade de Economia do Porto e o Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa lecionava um curso de desenvolvimento económico no curso de Economia daquela Escola. Foi nesse período que tive oportunidade de em termos de trabalho concreto contactar com a força da VOZ institucional que Carvalho Guerra sempre associava ao seu trabalho, com o seu talento para a concertação interinstitucional nos tempos em que a CCDRN tinha esse papel vital e que era ouvida como tal e não como gestora de fundos europeus e sobretudo quando era necessário desancar sem piedade os impulsos centralizadores que desrespeitavam a inteligência a Norte.

É neste último plano que penso que institucionalmente o Norte não tem conseguido substituir estas Vozes potentes e esclarecidas, sendo substituídas frequentemente por atitudes subservientes, reproduzindo regionalmente métodos, atitudes e taticismos, disputando as migalhas que o centralismo costuma deixar no seu rasto para acalmar as rebeldias e comprar o seu silêncio cúmplice.

Percorro o meu conhecimento da Região e não encontro ninguém à altura da força de Carvalho Guerra. Isso entristece-me e não confundam isto com regionalismo serôdio ou passadista. Não, não é disso que se trata. Trata-se simplesmente de reivindicar o direito e o fundamento de ousar ter uma visão do País construída com outros mapas mentais e experiências de terreno que não as da corte submissa e interesseira.

Para mim, o Professor Carvalho Guerra encarnava como ninguém esse papel e estatuto.

 

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