sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O WOKISMO À DERIVA


(Para quem como eu acompanha com regularidade, sobretudo em férias e à custa do erário privado, a maioria dos grandes jornais internacionais, é muitas vezes frustrante querer e não poder participar, acompanhando, os grandes debates que se abrem à escala global. É este o caso, por exemplo, do intenso debate político-cultural que o filme de Christopher Nolan A Odisseia está a despertar por todo o mundo. Podem achar estranha esta minha impossibilidade. Mas tem uma explicação. Não vi ainda o filme pelo facto de, em férias em Seixas, ter tido a infeliz notícia de que os cinemas de Viana do Castelo fecharam. Os problemas conhecidos da Castelo Lopes determinaram um já longo interregno das salas existentes no Fórum de Viana, junto à estação pelo que se quiser ver o filme terei de ir ao Porto (Braga não me puxa) para tentar opinar em tão intenso debate que tem agitado a culturulândia a ocidente. É algo de semelhante que me ocorre com outro grande debate que tem agitado as principais capitais mundiais, da extrema-esquerda à extrema-direita suscitado pelo pressuposto suicídio de Jason Arday, professor na universidade de Cambridge que, a partir de 2023 se tornara o professor negro mais jovem desde sempre na prestigiada Universidade de Cambridge, no domínio científico da sociologia da educação. Este trágico e funesto acidente que tem incendiado a opinião pública britânica deve ser, em meu entender, inserido num outro movimento mais amplo que designaria pela deriva mais descontrolada que o movimento wokista está a atravessar. Como este tipo debates e derivas tem regra geral expressão em Portugal com algum desfasamento de tempo, pelo menos uma década, estou aqui a relembrá-lo ao abrigo de uma orientação consagrada neste blogue e que costumo de etiquetar de “para memória futura”.)

Entendamo-nos quanto ao trágico desaparecimento de Jason Arday. O recrutamento de Arday pela Universidade de Cambridge em 2023 aconteceu num período em que a Universidade estava sob forte pressão para corrigir os baixos índices de presença no seu corpo docente e de investigadores negros, tendo o seu recrutamento acontecido num concurso em que Arday competiu com outras duas professoras negras, mais velhas e com um curriculum já mais consolidado.

Até aqui nada de novo e certamente que a nomeação de Arday se nada de adicional tivesse acontecido seria normalmente entendida como um propósito de Cambridge se obrigar a respeitar os princípios da diversidade racial e de género que o wokismo trouxe para o coração das universidades e da investigação e, obviamente, para as universidades. O problema é que a apresentação pública do curriculum do recém-admitido pela Universidade de Cambridge começou a suscitar interrogações dada a particularidade e excecionalidade de algumas das proezas neles documentadas. Primeiro, porque o doutoramento obtido por Arday acontecera depois de um autismo relativamente profundo e prolongado no tempo que era referido na nota curricular, situações que suscitou inúmeras dúvidas científicas sobre a sua veracidade. Segundo, porque nesse mesmo curriculum constavam algumas proezas desportivas e atléticas, neste caso de maratonas corridas, as quais face à idade de Arday teriam de ter acontecido numa sequência quase infernal de provas. Terceiro, porque, sem surpresa, começaram a surgir nos meios da direita mais reacionária e xenófoba sinais que sugeriam que acusações de plágio e de métodos pouco ortodoxos de citação e mobilização de material de outrem iriam começar a emergir, completando o padrãlo qjue normalmente se desenvolve em casos desta natureza.

À margem dessa já esperada movimentação da direita mais reacionária, o prestigiado Times Higher Education (THE) resolveu concretizar uma análise mais sistemática da tese de doutoramento e do curriculum apresentado por Arday, dirigindo a este último alguns emails para obter o seu testemunho e informação. Para espanto de muita gente, Arday e os seus conselheiros reagiram com violência ao pedido do THE, comunicando à polícia inglesa situações de perseguição e assédio, o que levou o prestigiado jornal britânico das ciências da educação a suspender o trabalho do jornalista e renunciar à publicação. Como seria de esperar, o vazio suscitado pela saída do processo do THE abriu caminho à mais descontrolada campanha promovida pelos tabloides ingleses e pelas forças políticas mais reacionárias, que viram naturalmente no processo uma oportunidade de ouro para minar os alicerces do wokismo britânico, que começava a dar sinais de já ter vivido melhores dias em termos de solidez de processos.

Os apoiantes de Arday associam o seu presumível suicídio à intensidade da campanha promovida pelos movimentos de direita extrema e media associados.

O desaparecimento prematuro de uma vida e de um talento (não me interessa agora perceber quais os contornos da sua afirmação) é, por si só, suficientemente trágico para recomendar o seu não aproveitamento. Mas o curioso da questão é que, com origem nos EUA, e pela voz da hiper mediática Alessandra Ocasio-Cortez, falada para uma candidatura presidencial, se assiste por estes dias a um ato de contrição e de proposta de novos rumos do que poderíamos designar de wokismo 1.0. Não é necessário ser-se um iluminado para compreender que os exageros do tal wokismo 1.0 foram trágicos para a esquerda, sobretudo pela força que concederam a todo o movimento anti-wokismo que praticamente baseou grande parte do crescimento da extrema-direita e do regresso aos conservadorismos mais retrógrados e abjetos. O problema principal gerado pelo tal wokismo 1.0 consistiu na disseminação de uma cultura antidemocrática, diria mesmo totalitária, assumindo várias formas como o cancelamento desregrado, o ataque à liberdade de expressão e pensamento e a perseguição baseada em suposições ou falsas representações.

Tenho muitas dúvidas de que o movimento tenha discernimento capaz e suficiente para gerar com êxito um wokismo 2.0, sobretudo atendendo aos cacos que têm de ser reunidos após atos de contrição como os de Osorio-Cortez. O pressuposto suicídio de Jason Arday faz parte desse amontado de incoerências que o movimento acabou por gerar, enrolando-se nas suas próprias contradições, quase nelas se asfixiando. Em Portugal, o descalabro do Bloco de Esquerda faz parte desses cacos, embora me pareça que José Manuel Pureza tem consistência e lucidez suficientes para compreender que esse não poderá ser o rumo do partido. Mas também uma grande parte da investigação promovida e orientada por Boaventura Sousa Santos tenderá ser penalizada com este recentramento de algumas das bandeiras do movimento wokista. Claro que o próprio BSS se encarregou graças ao hiperdesenvolvimento do seu ego de precipitar essa penalização, mas isso é outra conversa, não sendo já hoje assunto. Não sei se quem mais agradece esse estatuto de não assunto será o próprio BSS ou o movimento de repúdio que o levou a tribunal e a ser investigado.

Retiro desta reflexão uma ideia importante. Rejeitar o wokismo estúpido, delirante e conducente ao totalitarismo da opinião constituirá uma boa oportunidade para se regenerar e encontrar um rumo.

 

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