(A ideia já passou seguramente pelas nossas cabeças, mas quem a formalizou com argumentos seguros é Paul Krugman no seu substack, seguido com alguma regularidade neste blogue. O principal argumento ou evidência convocado para entender que a China, não sendo parte ativa nas hostilidades do Golfo, é a potência que está a extrair melhor proveito da contenda baseia-se sobretudo na alteração disruptiva de opinião observada em muitos países quanto à posição relativa dos EUA face à China na cena internacional. Obviamente que ninguém ignora a superioridade que os EUA continuam a revelar em matéria de investigação científica e tecnológica, rumos da Inteligência Artificial e domínio de outros setores tecnológicos de ponta e em termos de poderio militar, não esquecendo as relações virtuosas que esta última superioridade alimenta em matéria de ciência e tecnologia. Mas as evidências apresentadas são de facto impressionantes para um conjunto de países já muito significativo. À distância geográfica a que estamos, não dá plenamente para perceber se essa perceção é extensiva à própria sociedade americana. A única coisa que sabemos é que a popularidade de Trump tem atingido os níveis mais baixos de sempre e que a intervenção militar no Irão é vista pela maioria dos americanos como algo de indesejável e profundamente contrário aos interesses americanos, sem que isso signifique a apologia do regime teocrático e repressivo iraniano. Mas isso não significa que os americanos tenham a perceção do modo como o poderio do seu país é desvalorizado na cena internacional.)
Também sabemos que alteração das perceções quanto ao poderio e influência relativos dos EUA e da China não pode ser apenas explicado pela pujança manufatureira chinesa, visível na evolução do seu peso na produção industrial mundial. Claro que já há longos anos, a norma de consumo das classes médias mais baixas e das classes mais desfavorecidas do ocidente é alimentada pela capacidade esmagadora da produção com origem na China inundar os mercados europeus. Mas isso não impede o reconhecimento de que se os EUA de Trump tivessem mantido intactas e respeitadas as alianças com a União Europeia e outros países ocidentais de vanguarda a superioridade manufatureira “ocidental” seria ainda uma realidade.
A alteração de perceções não pode, assim, deixar de estar associada à disrupção e à desconfiança que a administração Trump tem propagado não só do ponto de vista dos valores transacionais e de enriquecimento próprio (seu e da sua corte) que professa, mas também devido ao carácter profundamente errático e discriminatório com que exerce o tal poderio americano. O ziguezaguear que é exposto regulamente em relação ao conflito com o Irão é tão errático que, por vezes, não tem explicação racional possível. Podem existir argumentos válidos para uma mudança de posição, mas a maneira como a justificação é apresentada apaga qualquer centelha de racionalidade que possa ser encontrada. É este o caso, por exemplo, da interrupção dos ataques ao Irão que neste fim de semana foi anunciado, invocando uma qualquer possibilidade de regresso às negociações em torno do memorando de entendimento. Provavelmente porque o stock de armas balísticas americanas precisa de reconstituição, mas não há qualquer elemento de seguro que leve a esse entendimento.
Pior ainda, com a sua atitude persecutória em relação a grandes expoentes da ciência americana e a extensão das amizades de conveniência às lideranças militares assistimos perplexos à destruição dos alicerces do poderio americano.
Claro que não podemos ignorar que o recato das autoridades chinesas tem evitado que as suas vulnerabilidades em termos de medidas internacionalmente impopulares sejam publicamente expostas e assim preservado a sua imagem relativa. Não sabemos até quando a China poderá manter esse recato para fazer avançar a sua aposta geopolítica internacional.
Não me admiraria que, por vias muito indiretas, a China venha a apoiar a reconstituição iraniana do seu aparelho de guerra. Mas isso exigirá um outro modelo de seguimento. Uma coisa é seguir o estardalhaço trumpiano. Outra coisa bem diferente é tentar compreender os jogos de sombra chineses.



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